Esse tema me lembra de uma parábola que utilizo em sessões de hipnose com meus pacientes em que o rei ao andar pelo jardim nota uma flor e ele pergunta o porquê ela não está sorrindo e ela imediatamente responde que queria ser uma outra espécie de planta para estar florida nessa época do ano. E ele segue caminhando e perguntando a todas elas o porquê estão tristes e vai ouvindo as mesmas respostas. Até que chega a uma flor que está sorridente e quando ele pergunta o que a faz feliz, ela responde que é porque sabe apreciar as mudanças de estação, aprecia a beleza do sol, o ar que a alimenta e a riqueza do solo.

Mas quando focamos na vida real percebemos o quanto é difícil colocar em prática o ensinamento acima, até treinamos em alguns momentos, mas de repente, estamos tristes por não estarmos florindo o tempo todo. No decorrer de nossa história aprendemos que precisamos ser perfeitos, queira ou não até quando éramos bebês já existia uma ansiedade dos nossos pais que andássemos logo, que deixássemos a fralda com sucesso, e essa expectativa é muito comum e compreensível, mas mostra um pouquinho do que iremos enfrentar durante a nossa infância, adolescência e principalmente na vida adulta.

Vamos aprendendo que temos que fazer cada vez melhor, notas altas, comportamento exemplar, universidade pública, casamento perfeito e carreira profissional em ascenção. Esse conjunto de expectativas muitas vezes nos é passado, mas também pode ser característica que fomos desenvolvendo pela necessidade de agradar, de sermos reconhecidos e validados em nossas escolhas. Perdemos um tempão fazendo minuciosamente alguns trabalhos que até são excessivamente corrigidos, onde se perde um tempo precioso em função de um comportamento perfeccionista que até prejudica porque parece ao olhar do outro como enrolação de tempo e assim seguimos estouramos prazos, etc.

Mas pode ser uma característica que leva ao sucesso profissional, já ouvi muitos relatos que abordaram esse tema em sessão, mas também identifiquei que uma grande parcela dessas pessoas tem zero sucesso com a família, com a vida social e, consequentemente, apresentam queixas em relação ao peso corporal e culpa.

Não aprendemos a lidar com as frustrações, com as perdas e quando elas acontecem o chão some dos nossos pés, sendo mais fácil ficar nesse círculo vicioso do perfeccionismo mesmo que leve a uma insatisfação interna com o tempo. E vamos tentando dar conta de todos os sintomas corporais que vão surgindo como enxaquecas, quedas de imunidade, alergias, problemas gástricos, cardíacos e, claro, o aumento do peso, pois a compulsão por algo que dê prazer aumenta significativamente.

Será que podemos fazer o nosso melhor sem cair no círculo vicioso do perfeccionismo? O que falta dentro de si mesmo que faz acreditar que o perfeito é possível? Vou arriscar um palpite, insegurança. Quando nos sentimos seguros de quem somos e do que fazemos, seguimos em frente e ficamos satisfeitos com nossas produções, identificamos até onde podemos ir, lidamos com os limites com tranquilidade e buscamos aprimoramento quando necessário. Porém, quando essa busca pelo perfeito toma conta, estamos sempre tristes como as flores acima, que não conseguem aceitar que irão florescer apenas em uma época do ano e que serão belas, mas querem florir o ano todo, tentando lutar incessantemente com os limites.

É preciso que o equilíbrio esteja presente em todas as áreas de nossa vida, que possamos nos comprometer primeiramente com a nossa saúde física e emocional, para que desta forma a área profissional, pessoal e social fluam em harmonia. Teremos sim vários obstáculos durante a nossa jornada, talvez a mais difícil seja aceitar que esteja precisando de ajuda para superar os problemas que a tentativa de ser perfeito provoca em sua vida.