Dias atrás eu tive a oportunidade de passar alguns dias com pessoas completamente desconhecidas, foram longas horas de observação e interação recebendo informações de uma realidade totalmente diferente da minha.

Apesar de estar acostumada a receber pacientes e ouvir relatos que me trazem muito aprendizado, esse momento que vivi foi bem diferente, eu estava em outro lugar de escuta, estava ali como qualquer outra pessoa, mas de alguma forma compartilhando a minha vida e também intimidade. Foram momentos muito desafiadores, sair da rotina, do conforto de casa, do ambiente seguro, e o maior deles foi escolher estar em paz mesmo que o entorno me desafiasse ao caos.

A paz pode ser interpretada de várias formas, esse sentir é muito individual, assim como quando falamos em amor, felicidade e gratidão. O fato é que fomos ensinados a interpretar as situações de forma muito equivocada, nos ofendemos com o comportamento de outras pessoas, ainda que as mesmas revelem o mundo interno delas, e não a realidade que somos de fato.

Esse equívoco de interpretação desencadeia uma série de problemas, inclusive de comunicação e relacionamento, pois vamos tomando como verdade o que pensamos de acordo com a nossa construção interna de vida. De acordo com as minhas experiências e valores eu poderia então falar, reivindicar e até me excluir de todo o contexto que estava vivendo, porém é justamente nas diferenças e fricções que aprendemos a viver.

As situações estressantes nos convidam a ampliar o olhar e nos questionar sobre o nosso comportamento e responsabilidade pelo o que sentimos, temos como escolher mergulhar nos sentimentos negativos e assim tornar verdadeiros tudo o que vier dessa escolha, ou podemos simplesmente não nos identificar com os mesmos.

Infelizmente o comportamento negativo é reforçado em nossa sociedade, aprendemos a julgar desde sempre, ouvimos desde pequenos comentários que partem de um olhar crítico, se não em casa, na escola, na casa do amiguinho, etc. Nós nos acostumamos a interpretar, a achar que sabemos mais que o outro, e muitas vezes temos a necessidade de apontar o que julgamos errado, nos esquecendo de que todo julgamento parte de um contexto muito individual de experiências de vida.

Então, naqueles dias eu estava vivendo na companhia de outras pessoas tão diferentes de mim, eu resolvi ignorar qualquer ideia de julgamento que chegava a minha mente e me abria para a paz, uma escolha consciente que me trouxe um material rico de aprendizagem e me permitiu enxergar a beleza de tanta diversidade que estava vivendo.

Escolher a paz muitas vezes é uma opção, é claro que passamos por situações que são mais pesadas e difíceis de lidar com tranquilidade, mas podemos treinar a desidentificação em vários outros momentos, buscar a paz no meio do caos. A reatividade só traz consequências não somente na sua relação com o outro, mas consigo mesmo.