Aprendemos desde muito cedo que devemos fazer o nosso melhor em qualquer atividade que fizermos e, quando conseguimos, muitas vezes recebemos um bom elogio, um olhar carinhoso, uma promoção ou o reconhecimento pelo nosso trabalho. Porém nem sempre o tão esperado elogio chega e ficamos frustrados, pois entendemos que não somos bons o suficiente, sentimo-nos fracassados e recomeçamos todo o processo de querer agradar o outro a qualquer custo.

Talvez você não perceba esse processo com clareza, ou quem sabe na sua história não foi necessário utilizar desse perfil do “agradador” para conseguir a atenção e amor dos pais. Aí a história é diferente, mas posso dizer que raramente escapamos desse processo.

Quando crianças, fomos aprendendo que se fizermos algo bem-feito seremos elogiados pelos nossos pais ou cuidadores, e muitas vezes era somente assim que conseguíamos certa atenção. Outras vezes nos sentimos humilhados por alguma situação onde nos sentimos expostos e passamos uma boa parte de nossa vida tentando provar que temos valor, que temos condições de sermos bons no que fazemos, queremos ser reconhecidos.

Vale lembrar que essa é a impressão que ficou gravada no inconsciente da criança, talvez ela não tenha identificado as formas de amor que os pais dispensaram a ela, não tenha recebido a atenção da forma que ela ansiava, com mais presença, demonstrações de carinho, abraços e até ouvir o quanto era amada.

Talvez nesse momento comece a cair a ficha e você identifique alguns desses aspectos em sua história e infelizmente eu vou te dizer que tudo isso não ficou lá na infância, e que tudo o que viveu ainda permanece vivo dentro de você, e sem perceber acaba projetando em suas relações atuais.

Buscamos no outro o reconhecimento e o amor que sentimos não ter recebido lá atrás, e na vida adulta nos tornamos aquele funcionário que tenta fazer tudo perfeito, fica mais tempo no trabalho, que acata tudo sem questionar, não respeita os próprios limites.

O que demoramos a perceber é que o corpo também grita socorro tentando sinalizar que algo não está legal, pode ser através de dores de cabeça, constantes mal-estar no estômago, cansaço, insônia, bruxismo, depressão, etc.

O nosso eu idealizado sofre muito pois ele se cobra a perfeição, quer dar conta de tudo, quer ter o controle sobre a sua vida e muitas vezes até da vida do outro. O perfeccionismo é uma forma de autopunição, pois está o tempo todo querendo agradar e perde a noção do quanto essa é uma meta inalcançável, visto que somos humanos e falhamos muitas vezes.

Essa forma de agir consigo mesmo interfere na qualidade de vida, porque se torna uma obsessão, não admite falhar e quando isso acontece a sensação é de ineficácia e de fracasso. Não tem tolerância com os próprios erros, tem dificuldades em resolver problemas e não delega tarefas, acredita que precisa dar conta de tudo sozinho e com perfeição.

O sofrimento é real, a pessoa fica atenta a qualquer deslize como se a perfeição fosse garantir o amor real, pois atrás de todo desejo de agradar, de se superar, também está o de querer ser amado e reconhecido. A insatisfação é interna tem a ver com aspectos que precisam ser ressignificados, pois hoje com a compreensão de um adulto, o olhar muda quando se oportuniza um trabalho terapêutico.

Ao identificar traços de perfeccionismo é importante avaliar o quanto sente que está refém desse jeitão de ser, pois a partir do momento que identifica que o sofrimento está grande e não tem conseguido relaxar e aproveitar a vida com leveza, está no momento de buscar ajuda profissional.

Quando se trata de comportamento humano é preciso entender quais são os gatilhos iniciais que impactam na sua vida, poder se reconciliar com o passado e aprender a se dar o que é preciso, para assim não depender mais de recursos ineficazes para solucionar questões internas.