Um pouco antes de a Pandemia chegar eu perdi a minha melhor amiga, ela levantou da cadeira que estava sentada e caiu, teve uma tromboembolia. Iniciei o ano sem uma das pessoas mais importantes da minha vida, e na sequência chegou o Covid trazendo medo e pânico. A impermanência foi se mostrando presente com muita crueldade, esfregando em nossas caras que a vida aqui é transitória e frágil. Os meses foram passando e fomos experimentando o que era viver no meio do caos, cada um sentindo o momento de uma forma bem particular.

Mais uma perda, a minha gatinha adoeceu, ela tinha leucemia felina. Foi muito dolorido ver um bichinho tão pequenino e frágil sofrer por quatro meses sem chance nenhuma de sobreviver. Muitas partes de mim foram morrendo durante esse processo, fui convidada a vivenciar os momentos de dor, dias de muita luta em busca de um veterinário que pudesse apresentar uma solução mágica que pudesse curá-la. Olhei para a morte de cara lavada, olhos nos olhos, nunca imaginei o quanto seria devastadora essa experiência.

O mais importante de toda essa experiência é que eu consegui estar presente durante todo o processo, ciente de como essa experiência tão dolorida estava me ensinando sobre a impermanência da vida. Eu não tinha controle algum sobre o que estava acontecendo, mas pude oferecer cuidado, amor e presença. Lidar com a impotência é algo muito dolorido, buscamos saídas, reagimos tentando lutar contra a morte até que ela nos derruba e ficamos paralisados, na dor.

Após essas perdas eu iniciei um estudo sobre a morte que me levou a uma reflexão ainda mais profunda e me fez entender o quanto estamos despreparados para lidar com o desfecho da vida. Ignoramos a morte e só a visitamos quando somos chamados a olharmos de frente, quando ela se faz presente. Por que não conseguimos falar sobre o fim da vida? Recentemente meu pai me orientou o que fazer quando ele desencarnar, na hora já senti um mal-estar, como se falar sobre o assunto fosse algo proibido.

Deveríamos encarar esse processo de forma leve e natural, afinal faz parte dessa experiência terrena. Compreendemos que tudo que nasce morrerá em algum momento, mas não reagimos bem quando ela acontece, a morte nos destrói por dentro e dilacera a nossa alma.

Acredito que saberemos lidar melhor com esses momentos quando aprendermos a lidar melhor com os diversos fechamentos de ciclos que a vida nos oferece, mas essa é a minha percepção acerca de como elaborar melhor a morte, pois sei que cada um passará pelo próprio desafio na tentativa de elaborar as suas perdas. A morte continua sendo um grande mistério, talvez o único que não podemos desvendar até que chegue a nossa vez.