Ainda me choca me deparar com o texto publicado por Gustavo Alonso na Folha de São Paulo, por tamanha insensibilidade diante do momento delicado em que milhares de pessoas estão em luto por perderem uma cantora que há anos vêm alimentando suas vidas com suas canções.

Um país em luto que não só perdeu um ídolo, mas uma parte de si. Falo das pessoas que se identificavam com as letras de suas músicas e que foram embaladas por cada sentimento expressado por Marília em suas canções. Não estamos aqui questionando estilo musical, e sim a capacidade que essa mulher teve de impactar vidas, de alavancar uma carreira de sucesso e de construir história com o seu trabalho.

Mas não se enganem achando que ele é o único que compartilha dessa opinião. Ele expressou em seu texto o pensamento de muitos, isso sim é assustador, visto que estamos no século XXI e continuamos nos deparando com tanto preconceito, onde reduzem a capacidade de uma mulher a padrão corporal. São inúmeros os desdobramentos negativos a partir dessa situação, infelizmente causando ainda mais dor, mais preconceito e mais efeitos nocivos sobre as mulheres.

A cantora e também compositora Marília Mendonça sofreu um acidente aéreo na sexta-feira (5) em Minas Gerais aos 26 anos, e foi enterrada ontem, sábado (6) em Goiânia, e sob esse panorama de dor e lágrimas fomos surpreendidos com tamanho dissabor. A música sertaneja tem o poder de alimentar sonhos, de nutrir a alma e também de levar pessoas a chorarem as dores não expressadas. Não é somente a memória da cantora que está sendo ultrajada, mas a de todos que gostavam dela.

Não me admira que ele tivesse a ousadia de expressar a sua opinião em uma época em que é muito mais fácil criticar o que o outro faz, do que se permitir ser gentil. Muitas pessoas acreditam que por estarem por trás de uma tela têm o direito de escreverem o que pensam ignorando quais serão os impactos que causarão em outras pessoas.

“Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso – Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha)”, escreve o articulista.

Não satisfeito continua o seu texto escrevendo que “Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Ela se tornava também bela para o mercado. Mas definitivamente não foi isso que o Brasil viu nela”, opinou.

Infelizmente, um texto que só promove ainda mais tristeza e que revela o quanto o preconceito está impregnado na mente de muitos, sendo o autor o representante de muitos outros que estão calados dentro de suas casas e que praticam esse tipo de violência na surdina, desvalidando suas mulheres, sejam esposas, filhas, sobrinhas, funcionárias, etc. Mudar a cultura da beleza é um tanto desafiador, visto que o preconceito é alimentado diariamente, inclusive usando as próprias mulheres como produtos que retroalimentam todo esse processo.

Mas, também percebo que essas situações revoltantes causam uma importante fricção e a partir delas começamos a movimentar assuntos importantes para nos mobilizarmos em como realmente podemos fazer a diferença dentro desse contexto. Existem muitos movimentos que visam quebrar essa visão machista em que o corpo da mulher precisa ser magro e perfeito, porém essa educação precisa iniciar dentro de casa, nas escolas e principalmente na mudança de propagandas e produtos oferecidos a esse fim.

Não adianta somente conversarmos com os nossos filhos, precisamos ser exemplos diários dessas mudanças, cuidando a cada comentário que fazemos a respeito do corpo e da carreira de outras mulheres. Eu trabalho há 24 anos com obesidade e transtornos alimentares, já perdi as contas de quantos relatos de dor eu ouvi em consultório, e uma boa parte deles a família estava presente, cobrando um peso magro desde que eram menininhas.

Sim, o colega Gustavo foi muito infeliz em suas colocações, mas que possamos tirar proveito dessa situação para olharmos para os próprios valores e comportamentos, para as nossas partes ainda não curadas que também julgam outras pessoas pela sua aparência ou capacidade. Normalmente conseguimos olhar para o que o outro fez errado, mas dificilmente olhamos para o que fazemos. Então diante de todo esse estrago, só nos resta fazer a nossa parte para mudar esse padrão de valores tão distorcido em nossa cultura, para juntos promovermos as mudanças que fortaleçam comportamentos que envolvem respeito e igualdade.