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Já faz muitos anos, pelas minhas contas uns quinze anos. Estava indo trabalhar em uma cidade próxima a minha, de ônibus, início de carreira, fui sentada ao lado de uma senhorinha e por muitos quilômetros me permiti a ouvi-la e aprender um pouco mais sobre a vida.

Conversamos diversas coisas durante o trajeto, porém nunca esquecerei o que ela me disse: “Nenhum pai e mãe tem o direito de fazer os filhos infelizes”. Achei tão forte, ao mesmo tempo parece algo tão sem nexo, afinal quem são os pais que querem machucar seus filhos de alguma forma.

Mas a questão é que essa situação é real, acontece todos os dias. Pais que perderam a capacidade de fantasiar, de enxergar o brilho que existe em vários momentos da vida, que descontam a raiva, a insatisfação nos filhos, mesmo sem perceber o que fazem. Porém, muitos percebem, mas não buscam formas de mudar seus comportamentos, sendo que alguns até se sentem aliviados quando descarregam suas insatisfações.

É como se fosse: eu não sou feliz, por que você será? Se minha vida só tem sacrifícios, a sua também tem que ter. Os pais receberam uma forma de educação que vem sendo seguida há muitas gerações, salvo um ou outro que conseguem transformar a sua experiência ruim em algo bom, passar aos filhos o que não tiveram. Estou falando aqui de respeito, acolhimento, segurança, afeto, toque, aspectos importantes na construção de um sujeito, para que se tenha uma boa autoestima e que se possa dar o mínimo necessário para que os filhos sejam felizes.

A palavra amor vem sendo deturpada no decorrer dos anos, alguns a entendem como controle, excesso, ciúmes ou os sobrecarregam de obrigações. Indivíduos que são alvos de críticas diárias, cobranças, acusações, alvos de insatisfação do outro. Filhos que quando conseguem se mudam de casa, arrumam um parceiro pensando em liberdade e até cortam vínculos na tentativa de encontrar equilíbrio, a felicidade, e ainda são taxados de ingratos.

Triste não? A grande questão é que somos construídos de acordo com nossas experiências e cabe a cada um de nós buscarmos formas de reparar, ou mesmo ressignificar o que não nos cabe, que nos traz infelicidade. Os pais? Esses são insubstituíveis, aprenderemos a dar o que é nosso possível também, cada um dentro de seus próprios limites, buscando ajudas externas para alcançar a felicidade e a paz.

Continuo com a lembrança dessa viagem certa de que faço o melhor como mãe, assim como o pai deles. Somos presentes, afetivos, emprestamos nossos ouvidos, colo e também orientamos, damos limites e mostramos a realidade e a importância da responsabilidade.

Somos perfeitos? Claro que não! Lembro todos os dias que não preciso passar a eles o que não recebi, ou que possa ter sido ruim, e sim me superar e transformar a dor em algo maravilhoso, a possibilidade de fazer diferente.