Quando o assunto é emagrecimento não faltam pessoas que tenham uma boa receita sobre novas fórmulas e tratamentos para eliminar peso, um quer ajudar o outro, mas a questão nunca é resolvida de forma efetiva. Os relatos em consultório, salão de beleza e grupos de amigas são sempre iguais, emagrecem e reganham peso rapidamente, a grande maioria não consegue estabelecer uma boa relação com a comida.

O cigarro e o álcool já são dois desafios complexos para se resolver, imagine a comida que faz parte de nossa rotina de vida. Nada fácil mesmo, afinal comemos todos os dias para mantermos o corpo funcionando, a comida é o nosso combustível. E é nesse momento que tudo se torna complexo, podemos pensar em uma planta que precisa de água para viver, e se todos os dias formos colocando mais água do que ela precisa, ela começará a morrer.

Muitas pessoas no mundo todo fazem isso todos os dias, comem excessivamente, não param até limpar o prato e as tigelas. Comem até passarem mal, o estômago dói, começam a ter refluxo, e junto a tudo isso tomam muitas medicações para tentarem solucionar as doenças que vão explodindo no corpo. A comida passou do status de ser o combustível para a sobrevivência para ser a causa da morte do corpo, um suicídio lento e diário.

O fato é que além do sabor maravilhoso da comida e do prazer que ela proporciona, existem muitos outros fatores envolvidos nesse processo que torna tudo mais complexo do que simplesmente fechar a boca. Ainda ouço algumas pessoas usarem essa expressão, pois falta empatia o suficiente para entenderem que cada pessoa é diferente da outra.

É importante lembrar que existem vários gatilhos emocionais que interferem na relação com a comida, e esse é o grande diferencial no processo de ganho e perda de peso. Mas infelizmente vivemos uma cultura do imediatismo, queremos resultados rápidos, algo que nos faça emagrecer sem que nos dê trabalho. Ora, sabemos ao longo dos anos que as medicações não resolvem e que precisamos nos engajar no processo ativamente.

Toda a informação que precisamos está disponível, basta digitar a palavra emagrecimento no Google e teremos milhares de opções para colocarmos em prática. Mas como somente a informação não resolve a maioria dos casos, é fundamental que possamos compreender a ação dos gatilhos emocionais, no porque precisamos nos manter comendo excessivamente, e a serviço do que a comida está.

Chegamos a um ponto que fica complexo explicar, pois cada pessoa é única e carrega uma história de vida que impacta diretamente na forma de se alimentar. Sabemos que a ansiedade, a tristeza, a raiva, o medo e o cansaço são alguns dos gatilhos que levam a superalimentação, mas mesmo assim não há uma receita única, e sim um trabalho individualizado a ser feito com cada paciente.

Quando ouço uma história no consultório vou montando um quebra-cabeça de muitos anos, são muitas as experiências que levam uma pessoa a comer muito, a ser mais ansiosa, a desenvolver um quadro depressivo, a usar a comida como antídoto das dores da alma. Não é um trabalho simples, para dar certo é preciso desativar vários gatilhos que servem como mecanismo de defesa para a pessoa, pois é como tirar a armadura que as protegem de serem atingidos pelas dores emocionais. É preciso querer, ter condições de seguir a vida sem usar a comida como proteção.

Aos poucos vamos desconstruindo a ideia de que fechar a boca é o caminho para eliminarmos a obesidade, e sim vamos compreendendo o quanto é desafiador mudar comportamentos. Independente de que área da nossa vida queremos mudar encontraremos inúmeros desafios, afinal somos seres complexos, e desenvolver a autorresponsabilidade para realizar essas mudanças talvez seja o aspecto mais desafiador que mereça a nossa atenção.