Todo processo de mudança que vivenciamos ocorre após tomarmos uma decisão, e na grande maioria das vezes conseguimos  realizá-la a partir de um pensamento racionalizado. Porém, certas situações exigem de nós muito mais do que razão, e só conseguiremos alcançar nossos objetivos se pudermos ressignificar os gatilhos emocionais que impedem uma ação mais assertiva de nossa parte.

Passamos dias, meses, anos e muitas vezes não conseguimos sair do lugar que estamos, mesmo sabendo e sentindo a necessidade de mudar o comportamento. Enfrentamos situações que são desafiadoras desde que nascemos. Algumas nós tiramos de letra, outras exigirá de nós um pouco mais de recursos, mas quando essas mudanças exigem de nós mudanças que envolvem o prazer, como é o caso da comida, tudo fica mais complexo.

O ato de comer parece ser algo muito simples e de fácil controle, afinal deveríamos comer somente quando temos fome, concordam? Porém essa não é a realidade que vivemos, sabemos que comida está vinculada à sobrevivência, mas hoje está muito alinhada com o prazer. A exploração desse nicho é muito grande, não faltam opções de comidas e guloseimas, e para muitas pessoas a simples possibilidade de poder experimentar uma comida nova é um prazer incalculável.

Desta forma vamos viciando em comidas saborosas, minuciosamente elaboradas para despertar o desejo de comer das pessoas, uma indústria que movimenta muito dinheiro. Em contrapartida também temos a indústria das comidas light, entre outras que tem a proposta de que você pode emagrecer quando as consome ou até mesmo não engordar mais.

Vamos sendo seduzidos pela boca, pelos olhos, pelo olfato, o desejo faz com que percamos o controle. Ouvimos que é fácil fechar a boca, mas a verdade é que para uma grande parcela da população é um sofrimento intenso. A comida se torna um problema, e não uma questão de sobrevivência. A proximidade das festas, comemorações são pesadelos, o sofrimento começa meses antes da data a ser festejada.

E é nesse momento que lemos e ouvimos pessoas nos dizerem que é fácil mudar, que é possível fechar a boca, até o médico nos diz que é preciso. O peso aumenta, a culpa toma conta e nos achamos incompetentes, preguiçosos, sem persistência, indisciplinados, mas a verdade é que tem muita coisa aí que é maior que todos esses aspectos.

O foco aqui é falar sobre o emocional. Tenho ouvido durante todos esses anos de profissão relatos recheados de dor, de insatisfação e baixa autoestima. Pessoas de todas as classes sociais, todos os tipos de corpos, de nível intelectual, mas que tem em comum o desejo desenfreado de comer.

Então como fazemos quando queremos perder peso e não conseguimos? A questão é difícil de compreender é que essa decisão não passa pelo racional, por isso a maioria das pessoas chegam ao consultório de especialistas repetindo a mesma frase: “Eu sei tudo sobre dietas, sei o que tenho que comer, mas não consigo colocar em prática.”. Isso acontece porque entre querer perder peso e decidir perder peso tem muitas variáveis envolvidas.

Você quer perder peso para quê? Alguém está te pressionando? O que tem ouvido das pessoas quanto ao seu peso? A gordura do seu corpo pode ser uma forma de se proteger? Ou mesmo, há um desejo irresistível de comer e você perde o controle? Comer te faz sentir aconchegado? Lembra alguém da sua família? Te faz sentir mais perto de alguém especial? Serve como uma companhia nos dias de solidão? Você se sente feliz em comer muito? Acha que merece, pois sua vida não está sendo satisfatória? Perder peso tem relação com seu parceiro e você não sente mais desejo por ele?

Eu poderia escrever muitos relatos, muitas situações que vamos montando e entendendo como se fosse um quebra-cabeça,  até que o próprio paciente mesmo lhe diz que na verdade não quer perder peso, nem parar de comer, e que consegue compreender o quanto a comida é uma muleta que o faz ficar em pé diante dos fatos da vida.

Comer serve como sustentação do corpo físico e do emocional, então talvez seja o momento de encarar e de se permitir olhar para essa questão profundamente. Sair do pensar com a cabeça e focar no coração. Os desafios não param, por isso o quanto antes aprender a lidar com os gatilhos emocionais, mais facilmente poderá perder peso e também lidar com as adversidades da vida.