Esse é um tema bastante complexo, visto que somos parte de uma cultura que não nos prepara para lidar com os sentimentos, principalmente a solidão. Casamentos acontecem todos os dias, novos relacionamentos se iniciam, amigos fazem festas e se divertem. Fotos nas mídias sociais reforçam a ideia errônea de que a felicidade corre solta por aí, reforçando ainda mais a ideia de que há algo errado com você, somente com você.

Eu me lembro de quando tinha filhos pequenos e era importante ajudá-los a nomear o que sentiam, pois os mesmos não sabiam. Depois quando estavam maiores fui auxiliando no processo de expressarem a dor, a raiva, conversava sobre os assuntos que estavam incomodando a eles no momento. Sei que nunca abordei o assunto solidão, nunca ocorreu alguma situação que remetesse a esse sentimento.

A solidão é uma área ainda mais complicada, já que é um sentimento profundo, íntimo, que não há como mensurar. O fato de estar rodeado de pessoas, ter um companheiro ou filhos não impede de sentirmos que estamos sozinhos, imersos na dor. A questão é que ninguém gosta de sentir-se só, logo buscamos formas de aplacar esse sentimento, mesmo que a forma encontrada não seja a solução adequada.

Algumas pessoas trocam de parceiros o tempo todo e nunca se sentem compreendidas, acolhidas ou amadas. Outras buscam na comida um substituto imaginário para aliviarem a solidão somente do momento, assim como o álcool, as drogas, o cigarro, o jogo, o sexo e o computador. Desenvolvem amortecedores poderosos para não entrarem em contato com os seus sentimentos, negligenciando a importância de aprender a se acolher nesses momentos.

Ao entrar em contato com o seu sentimento de solidão experimentará um borbulhar de emoções que irão causar um incômodo interno, assim como quando resolvemos fazer uma faxina e ao jogarmos tudo fora das gavetas, olhamos para as tralhas que fomos acumulando no decorrer dos anos e nos sentimos perdidos, sem saber por onde começar a limpeza. Olhar para a solidão e para as dores que sentimos não é uma tarefa simples, mas é um exercício fantástico de reconexão interna.

Você já parou para acolher os seus sentimentos mais dolorosos? Já experimentou sentir, chorar e permitir que os mesmos fluam? Entender que tudo o que sente é fruto de pensamentos constantes que você foi se apegando e se transformaram em ideias que prontamente seu ego acolheu e transformou em verdade para você?

Quando conseguir identificar esse mecanismo interno irá entender que a solidão não é mais do que uma necessidade de completude, que buscamos a todo custo resolver focando no externo e não no interno. Por isso tantos relacionamentos que fracassam, a crescente obesidade, as pessoas se entregando ao álcool, como se a solução estivesse fora, quando na verdade está aí dentro de você.

E você pode me perguntar como fazer para mudar tudo isso. Primeiro entendendo que tudo é transitório, que a frustração faz parte de nossas vidas e nossa missão é aprendermos a lidar com os limites, com a impermanência. Depois sabermos que a partir do momento que nos sentimos livres e não dependentes da aprovação, do olhar e do reconhecimento do outro, poderemos enfim nos libertar. Livres para amar, para ficarmos sozinhos, para compartilharmos, para seguir o caminho que o coração pedir, mas de outra forma, sem dependência, e sim por escolha.

Escolher resolver os conflitos internos é uma ação efetiva que leva a construção do autoconhecimento e à promoção do bem-estar pessoal, afinal é sempre uma escolha viver fugindo dos fantasmas ou encará-los e descobrir que nem eram tão assustadores assim.