Recentemente perdi uma gatinha, não tinha nem dois anos de idade, uma fofura, eu a adotei junto com mais dois irmãozinhos. Os três faziam uma festa, eram três bolinhas peludas estilo frajola, espertos, carinhosos e muito divertidos.

Porém de repente meu olhar de mãe percebeu algo sutil, mas ainda assim foi tarde, ela estava com uma doença sem cura. Após meses de buscas por uma mágica, a saúde dela foi ficando debilitada e chegou um momento que eu precisei escolher entre submetê-la a mais uma transfusão de sangue ou deixá-la ir. Foi a decisão mais difícil de minha vida, mesmo recebendo sangue ela não tinha mais vida, não brincava, não corria e eu sabia que era o momento de soltar.

O tempo todo eu estava atenta aos meus sentimentos e a dor que ela poderia estar sentindo, mas um misto de angústia e desespero tomou conta de mim em vários momentos e eu pensava nos pais que perderam os seus filhos para doenças desse tipo, a leucemia.

Mas ainda assim no desespero eu a levei de novo ao hospital mesmo sob os protestos de meu primogênito que, aliás, é um ser de luz na minha vida, mas eu precisava ouvir de outra pessoa que era momento de parar, pois essa seria uma decisão desafiadora e dolorida. E foi o que ouvi, e eu me recolhi em minha pequenez, em minha dor, e a levei para casa.

Ajeitei-a no sofá bem confortável e fiquei ali olhando nos olhinhos dela, vi o brilho de quem queria ficar, mas o corpinho dela não permitia mais. Olhei para a morte e vi que ela é cruel, pois tirou dela a oportunidade de viver e de permanecer com a nossa família.

E assim é a vida, um ciclo de impermanências. Desde que nascemos sabemos que a morte em algum momento se apresentará e que não teremos como fugir, mas mesmo assim são raras as pessoas que conseguem lidar com essa separação de forma mais tranquila.

A sensação de impotência é imensa e é nesse momento que começamos a compreender que nada está sob nosso controle, tudo tem um tempo e este está sob o comando de algo muito superior a nós.

Estou contando a minha história sabendo que muitos de vocês já perderam seus bichinhos de estimação ou entes queridos e sabemos como essa passagem traz uma imensa dor. Para uns é mais fácil e para outros é uma dor desesperadora.

A morte em nossa cultura não é leve, nós a encaramos com muito peso pois o apego é muito forte. Não aprendemos a lidar com essa passagem que é tão natural, tudo nasce e morre, o fim é uma consequência natural de tudo o que tem vida. Um ciclo de dualidades assim como o dia e a noite, o frio e o calor, o quente e o frio, a presença e a ausência.

Quando conseguimos entender e aceitar esses desafios a dor fica mais leve, pois toda situação que passamos traz uma aprendizagem que é necessária para o nosso desenvolvimento como pessoa. Nada é por acaso e se tivermos essa consciência, mesmo com a dor se fazendo presente, o processo fica mais leve, conseguiremos passar por essa experiência e sairmos mais fortalecidos.

Porém, quanto mais a negarmos, mais complexo será passar pelas fases do luto e fechar os ciclos. Quanto mais difícil soltar e aceitar, mais adoecemos, pois a tristeza vai ganhando terreno e adoecendo também o nosso corpo. A depressão se instala, o pulmão grita a sua dor, e assim vamos sobrevivendo a cada dia.

No entanto tudo isso é um processo esperado, a dor da perda é imensurável e cada pessoa irá vivê-la de uma forma, não existe certo ou errado, existe a dor, e ela é verdadeira. O texto tem o objetivo de levar a uma reflexão sobre as passagens da vida, do ciclo da natureza. Compreender todo esse processo não me fez deixar de chorar, de sentir dor, raiva e revolta, mas a consciência sobre todo o processo me trouxe o equilíbrio e passei a encarar a vida de forma mais tranquila.

O estado de presença faz muita diferença, o olhar para si mesmo para entender o que esse processo está exigindo de você, pois é preciso olhar para os apegos e a necessidade de controle não só em relação às pessoas que amamos, mas também para as mágoas e os ressentimentos que teimamos em manter em nossos corações. A vida nos dá a oportunidade de soltar e deixar fluir, aceitar, navegar no mar aberto, sem a necessidade de se agarrar, mas de aproveitar a experiência presente. Isso requer olhar ao redor e aproveitar ao máximo as oportunidade que temos.

Perder um animalzinho de estimação para muitos é tão dolorido quanto perder uma pessoa, o luto segue o mesmo processo, as questões que surgem são as mesmas. O que nos resta é sorrir com as lembranças boas, ter gratidão por todos os momentos vividos, compreender a lição e aceitar que estamos aqui temporariamente, só de passagem.