Quando pensamos em ter filhos não temos ideia da quantidade de desafios que podemos enfrentar, não paramos para analisar friamente o quanto pode ser complexo, por um lado muitas alegrias e vitórias, e por outro um enigma a ser desvendado.

O filho nasce, se alimenta muito bem, chega a fase das papinhas, da comidinha sólida, e nós como pais vamos nos apaixonando por essas novas etapas que vão surgindo, ainda mais quando são vencidas com certa facilidade.

Quem é que não gosta de ver um filho se alimentar de comidinhas saudáveis? Muitas frutinhas, verduras e legumes? Ficamos orgulhosos de conseguir introduzir esses alimentos e mais ainda com a aceitação e aquisição de novos paladares para os pequenos.

De repente, tudo aquilo que foi vencido com facilidade pode mudar. De um dia para o outro a criança que se alimentava extremamente bem pode parar de comer alguns alimentos, rejeitando-os pela aparência, alguns sabores, texturas e cheiros. Nesse momento, o pesadelo começa.

Os pais passam a tentar diversos recursos, muitas vezes se sentem vencidos e voltam para a cozinha e prepararam outra refeição de acordo com o que a criança aceita. Essas exigências irão variar de acordo com a criança, hoje ela pode aceitar um macarrão sem molho algum e amanhã, mesmo gostando, pode deixar de consumir.

Alguns poderão achar que é pura frescura, mas nem sempre é um capricho. Existe um transtorno alimentar infantil chamado seletividade alimentar em que a criança apresenta uma tríade que se caracteriza pela recusa alimentar, pouco interesse pela comida e pouco apetite. Normalmente a alimentação fica bem restrita, mas observo que muda muito de acordo com a criança.

Existem alguns estudos acerca desse transtorno, mas ainda são poucos, porém o número de crianças, e até de adultos,que recebo em consultório vem aumentando nos últimos anos. Talvez por ser pouco estudado e pouco divulgado, muitos pais vão se adaptando e fazendo o possível para que seus filhos comam o que é necessário. Mas é importante lembrar que terão casos em que a criança pode sim apresentar um déficit de nutrientes importantes para que o seu  desenvolvimento ocorra normalmente.

Essa situação é muito desafiadora, por um lado os pais que se tornam ansiosos e preocupados com a alimentação do filho, por outro a criança que se sente pressionada a comer. O fato é que existem fatores orgânicos e psicológicos que podem estar presentes nesse comportamento. Existem estudos que revelam que algumas crianças apresentam uma aversão sensorial, isto é, não suportam o cheiro, a textura, a aparência e o sabor de alguns alimentos.

Quando são pressionadas a experimentar algo que lhe é aversivo, podem rejeitar, ter náuseas e até vomitar. Também é possível que esse comportamento de rejeição esteja ligado a alguma situação traumática. Esses medos ou traumas podem ter sido gerados a partir de uma experiência real envolvendo a criança ou mesmo que ela tenha presenciado ou ouvido. Alguns estudos sugerem que o quadro de refluxo pode ser um dos fatores que levam as crianças a terem medo de comer e sentir dor.

A relação dos pais também tem uma forte influência, como excesso de autoridade, controle excessivo, entre outros fatores que podem minar o desejo da criança de se alimentar, gerando mais ansiedade e maior resistência por parte da mesma. A situação é muito ampla e complexa, exigindo uma avaliação criteriosa do pediatra, do nutricionista e do psicólogo. O psicólogo clínico especialista nessa área saberá identificar os gatilhos, comportamentos e consequentemente orientar os passos a serem seguidos. Para isso é de suma importância que os pais, cuidadores e a escola sejam orientados e acima de tudo, devem estar abertos às mudanças que deverão ser seguidas por todos para o bom andamento do tratamento.

A seletividade alimentar infantil é um desafio, mas é preciso identificar, procurar ajuda e acima de tudo, manter a calma, pois o comportamento dos mesmos podem determinar o sucesso do tratamento.