Hoje comemoramos a Páscoa, um dia em que também podemos focar na compaixão, uma virtude que também contribui para o movimento do despertar da empatia. Percebo o quanto é desafiador abrir as portas do coração, pois, ao permitirmos entrar em contato com as nossas dores e com as de outras pessoas, nos sentimos frágeis e com medo.

Passamos pelas ruas e vemos muitas pessoas precisando de acolhimento, muitas vezes são crianças, animais, vamos tomando ciência do quanto o sofrimento está batendo na porta de muitas pessoas. Essa realidade dói, sentimos angústia, raiva, medo e incômodos provocados pela sensação de impotência. Fechamos o coração, ficamos indiferentes à dor do outro, arrumando diversas justificativas para não acolher e ajudar a quem necessita de apoio, de um abraço ou mesmo de uma palavra de carinho.

Das muitas passagens de minha vida que ficaram marcadas em minha memória, uma delas ainda reverbera em mim cada vez que eu me lembro. Uma vez, estava parada no sinal vermelho no meu carro quando comentei algo com o carona sobre um homem que veio me pedir ajuda. Sobre o quanto eu sentia tristeza, já ela disse que era fácil para ela, pois não pensava no assunto. Pensar sobre o assunto realmente não é fácil, porque é preciso olhar para dentro de si mesmo, entender como essas situações nos impactam emocionalmente e que ferramentas temos para ajudar a minimizar, mesmo que  seja sobre o sofrimento de alguém.

Penso que para abrirmos o nosso coração, precisaremos primeiro aprender a nos acolher, sermos empáticos com as nossas limitações e com os nossos sentimentos. Há um bom tempo fui tocada por esse amor maior pela vida, fui sentindo a necessidade de fazer mais por mim, o que consequentemente me levou a olhar para fora. Em primeiro lugar me acolhi, desenvolvi a autocompaixão, somente dessa forma consegui compreender o quanto eu tinha medo de amar e de sentir dor. Quando falo em amar, é amar a todos, um sentimento universal que nos conecta com outras pessoas.

Nesse processo de autocompaixão também desenvolvemos maior tolerância e bondade com as nossas imperfeições, compreendemos o poder da tolerância e do autocuidado. Quantas vezes não nos pegamos negligenciando as nossas próprias necessidades? Quantas vezes ouço relatos de pacientes que passaram o dia sem comer, ou mesmo sem ir ao banheiro? Ignoram até mesmo as próprias necessidades orgânicas que geram diversos problemas de saúde.

Quando aprendemos a suportar as experiências dolorosas conscientemente, também desenvolvemos formas de lidar com a angústia dos nossos pensamentos, pois acabamos entrando em colapso por buscarmos formas de resolver algo muito maior do que é possível. Acabamos entrando no círculo vicioso que nos faz permanecer engessados no discurso, idealizando o que a sociedade poderia fazer pelas pessoas que precisam de alguma ajuda, e nos eximimos da nossa responsabilidade com essa realidade.

É importante que possamos iniciar esse processo de abertura do coração, entendendo que a felicidade é possível, mesmo em meio a tantos desafios, não esperando que a sociedade em si mude, mas que cada pessoa possa ser um agente de mudanças impactando o todo.