Esse tema remete a muitas questões importantes que se manifestam através do comportamento compulsivo de querer ser amado a qualquer custo. A carência revela um estado de muita dor interna, faltou afeto, amor, acolhimento, em algum momento a criança se sentiu desprotegida, não validada, sentiu-se ceifada em algum nível. Esse processo ocorre com todos nós em algum momento da nossa infância, lembrando que nem sempre é preciso algo grandioso para justificarmos esses sentimentos, pois a impressão que a criança registrou é que a coloca hoje em um lugar de carência.

Quando crianças não temos condições emocionais e nem cognitivas para compreender com clareza os fatos que agora já adultos compreendemos, e é essa falta de compreensão que nos levaram a interpretar algumas vivências com uma carga extra de dor. Posso citar aquela mãe que precisava trabalhar o dia todo e que ao final do dia de tão cansada que ficava não conseguia ter paciência e energia com o filho. A criança por mais que a mãe dissesse que estava cansada sofreu por não ter recebido um carinho, um olhar, ou mesmo um elogio, o que a fez sentir-se invisível e não amado.

Mas esse foi um exemplo simples e aparentemente não deveria desencadear grandes problemas, mas o fato é que todo ser humano necessita de amor, precisa ser olhado e cuidado para que siga a vida mais fortalecido e, principalmente, acreditando ser merecedor do amor do outro. Mas quando isso não ocorre, quando os pais não conseguem dar um colo ou uma palavra de conforto, o filho segue a vida cheio de dúvidas e inseguranças, ele não sabe o que esperar do outro, pois os que ele tanto ama não conseguem perceber as suas reais necessidades, imagine então o que esperar daqueles dos quais ele não tem qualquer intimidade.

A relação dos pais ou cuidadores na primeira infância impactam diretamente os anos posteriores, vamos construindo a vida de acordo com a caixinha de ferramentas que recebemos quando éramos pequeninos. Uns se sairão melhores do que outros, porque cada ser humano é único, e encontrará os melhores meios possíveis de transitar pela vida. O foco não é culpar os pais, e sim identificar os buracos que estão abertos e que ninguém poderá preencher, a não ser nós mesmos.

Mas ainda não temos essa consciência, saímos em busca de um parceiro perfeito que preencherá todas as nossas expectativas, que vá conseguir dar o que não recebemos lá atrás. No começo vamos aceitando o que o outro nos dá, mas passado um tempo começamos a cobrar o amor, o carinho e atenção da pessoa com o qual nos relacionamos, e aqui podemos estender a todas as relações, não só entre o casal, mas o que esperamos dos amigos, do chefe, dos filhos e dos vizinhos. A carência nos coloca nesse lugar de dar e querer receber da mesma forma, lembrando que na maioria das vezes achamos que estamos agindo da forma certa, mas como humanos que somos erramos muito, e acabamos projetando os erros culpando a outra pessoa.

Tornamo-nos dependentes, escravos do afeto, passamos a querer controlar o outro para que desta forma possamos aliviar o vazio que carregamos dentro de nós, mas esse é um vazio que nada preenche, nunca será o suficiente. Queremos que as pessoas aceitem o que falamos, nossos pontos de vista, nossos comportamentos, queremos a todo custo ter razão em tudo, ter a última palavra. Na maioria das vezes não percebemos que agimos dessa forma porque estamos muito identificados com as nossas dores, queremos a todo custo sermos validados, mas esses comportamentos geram ainda mais afastamentos, mais rompimentos e, consequentemente, mais carência.

É imprescindível que possamos buscar a cura de nossas dores para podermos nos relacionar saudavelmente com as pessoas, pois ninguém consegue ficar muito tempo em um relacionamento em que se sente cobrado e chamado a ocupar um lugar da qual não tem condições de estar. Esse lugar, esse buraco não tem como ser preenchido por ninguém pois pertence a sua história de vida, ao seu passado e reeditar a história não irá solucionar as suas carências.

Identificar os mecanismos de controle que utilizamos na tentativa de curar as nossas dores é o melhor caminho, entender esse processo não somente na cabeça, mas internamente. Assim vamos aprendendo que não devemos colocar expectativas irreais nas pessoas das quais nos relacionamos, tirando das mesmas a necessidade de nos atender como queremos, e da forma que ansiamos, pois cada ser humano tem uma história de vida, e irá dar somente o que é possível para que continuem seguindo ao nosso lado.