Hoje senti a necessidade de escrever sobre um assunto bem delicado, pais e filhos. Nem sempre essa equação é fácil de resolver, alguns relatos que ouço na clínica são marcados de dor, de falta de acolhimento e proteção.

O que percebo é que no meio de tantos desencontros e dificuldades, os adultos ficam envolvidos na própria história e não conseguem se doar para os filhos. Quando pequenos até vão levando, mas quando estes entram na adolescência, a situação pode mudar muito, aí sim ter filhos pode ser um grande desafio.

A adolescência é um momento delicado e muito especial, isso porque é um momento de muitas mudanças, conflitos e descobertas. Nesse processo estão com a percepção mais aguçada, conseguem enxergar o funcionamento dos pais com clareza, as contradições e falhas, o que pode gerar muito conflito.

Nem sempre os pais têm calma e tranquilidade nesse período, entram em desespero ao serem questionados, ou mesmo, se sentem ameaçados por sentirem-se tão vulneráveis aos olhos dos filhos. Os problemas familiares saltam aos olhos deles, não conseguem se conter e acabam por cobrarem uma postura de seus genitores, uma decisão, uma resposta e até uma atitude mais séria dependendo do caso.

Nesse momento em que o conflito aparece, alguns pais optam por jogarem todos os problemas nos filhos por não conseguirem resolver o que está disfuncional, sendo mais fácil o filho ir para a terapia com o objetivo de solucionar algo que na verdade só dependeria da mudança de atitudes dos pais.

Existem adolescentes que vivem uma inversão de papéis, invez de serem cuidados, se sentem na responsabilidade de protegerem os pais. Acabam assumindo a postura de adultos na tentativa de remediarem grandes buracos que os pais abrem, falhas que podem até colocar a vida deles em risco.

Desta relação cheia de dificuldades, muitos pais evitam se relacionar com o filho, ignorando as suas necessidades, apontando seus deslizes, desmerecendo suas conquistas, sendo que alguns nem suportam a presença dos mesmos. Esses adolescentes são mal compreendidos e seguem a vida tropeçando, se construindo da forma que dá, sem afeto, sem respeito e sem referência de pais.

Esses pequenos adultos se sentem lesados, incompreendidos e mal amados. Levam dentro de si muito ressentimento e rancor, mas o pior é serem taxados de problemáticos por simplesmente enxergarem o que está escancarado na família.