Nuta Vasconcellos, Tássia Reis, Ariella Moura e Nataly Néri Foto: Midori de Lucca/ Divulgação The Body Shop Brasil

Nuta Vasconcellos, Tássia Reis, Ariella Moura e Nataly Néri Foto: Midori de Lucca/ Divulgação The Body Shop Brasil

Nataly Néri, criadora do canal Afro e Afins no YouTube. Nuta Vasconcellos, fundadora da GWS – uma plataforma que promove a autoestima feminina. Tássia Reis, cantora e compositora. Ariella Moura, modelo. Essas foram as participantes do bate-papo mediado por Juliana de Faria, fundadora da ONG Think Olga, e promovido pela marca de cosméticos The Body Shop.

As convidadas tinham mais do que propriedade para falar sobre o tema: autoamor. Mas durante a discussão, que ocorreu no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, uma outra questão permeou a história de todas essas ativistas. Sem autoconhecimento e atenção, as mulheres podem cair em ‘armadilhas’ do empoderamento feminino. Nuta relatou problemas de saúde causados por uma cirurgia de próteses de silicone; Tássia Reis e Ariella Moura contaram as interferências que existem no relacionamento da mulher com o próprio corpo; e Nataly falou sobre os desafios da transição capilar.

Bate-papo sobre autoamor com Nataly Néri, Ariella Moura, Tássia Reis, Nuta Vasconcellos, e mediado por Juliana Faria Foto: Midori de Lucca/ Divulgação The Body Shop Brasil

Bate-papo sobre autoamor com Nataly Néri, Ariella Moura, Tássia Reis, Nuta Vasconcellos, e mediado por Juliana Faria Foto: Midori de Lucca/ Divulgação The Body Shop Brasil

Procedimentos estéticos

O feminismo não é contra tratamentos de beleza, o movimento luta para que a mulher possa escolher conscientemente se quer mudar algo em si mesma ou não. O relato de Nuta Vasconcellos, fundadora da GWS, expõe o risco de se tomar uma decisão por motivos externos.

Ela conta que, em 2004, colocou silicone por “livre e espontânea pressão do namorado”. O tempo passou e o cara se tornou ex. E em 2010, a jornalista foi pioneira no debate body positive ao fazer seu primeiro post sobre aceitação do próprio corpo.

Corta o filme e a história vai para julho de 2015, quando a ativista precisou fazer uma cirurgia para retirar as próteses – que têm data de validade e precisam ser trocadas periodicamente. Nuta acabou caindo em uma “armadilha” e fez implante novamente nos seios “por influência do médico”.

Nuta Vasconcellos Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Nuta Vasconcellos Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Por causa da cirurgia, Nuta teve infecção e ficou 16 dias internadas, e o tratamento para reparar o dano na saúde durou mais de dois anos. “Quase morri. Você percebe que está em uma situação em que você se colocou, justamente, porque não estava atenta aos sinais do seu corpo e da sua mente em relação ao seu amor próprio, seu autocuidado.”

 

Apropriação do corpo

Os padrões de beleza assombram as mulheres, mas as imposições sociais vão além ao ditar regras sobre a maneira que deve-se mostrar ou não os próprios corpos. A cantora e compositora Tássia Naves falou sobre o padrão esperado de uma mulher que se expõe em um palco. “Querem que você esteja lá com o maiô e meia calça cantando a música do momento. Eu nunca fui essa garota que queria fazer o que queriam que eu fizesse.”

Usar o corpo como forma de expressão pode colocar a mulher em duas situações, no mínimo, desconfortáveis. Uma em que a sexualidade dela é moldada dentro de expectativas machistas. Outra, na qual por medo disso, ela acaba negando, de certa maneira, a sua feminilidade.

Tássia Reis Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Tássia Reis Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

“Quando eu me lancei, alguns caras falavam ‘eu gosto de você porque você não mostra o corpo quando está cantando’. Achei aquilo tão revoltante que no próximo show eu estava de maiô, mas com esse corpo. Vai ter maiô, sim, querido! Não no contexto que vocês querem. Vai ter maiô de uma mulher que quer colocar o maiô. Mas toda vez a gente se questiona: ‘eu estou vestindo esse maiô porque eu quero ou porque a sociedade está me impondo?’”

A cantora ressalta que o empoderamento precisa vir acompanhado de autoconhecimento e o respeito pelos os próprios limites. “Você não tem que passar por isso porque outra pessoa está falando para você passar. Você tem que sentir que é o seu momento.”

Ariella Moura Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Ariella Moura Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Na indústria da moda, o corpo voluptuoso e feminino perde destaque e a silhueta esguia e andrógina é valorizada. No entanto, a modelo Ariella Moura afirma que a diversidade no momento em que são selecionadas as pessoas que vão desfilar ou fotografar vem aumentando, mas nada é perfeito. “Até hoje sou presa a vários padrões de feminilidade, mas a cada dia a gente se desconstrói mais e mais”, diz a jovem que passou por um processo de mudança de gênero.

 

Transição capilar

A criadora do canal Afro e Afins, no YouTube, ficou conhecida por abandonar o alisamento de cabelos, em 2009, e mostrar a tão falada transição capilar. “Eu achei que era a maior mudança que eu poderia passar”, contou. Assumir os cabelos crespos é abandonar um processo químico para mudar a estrutura natural dos fios. Libertador? Nem tanto.

“Comecei a cultivar aquele meu cabelo crespo lindo, longo, maravilhoso, que eu amava e começou a ser a base da minha autoestima. As pessoas não me elogiavam, elas elogiavam o meu cabelo. Quanto mais longo o meu cabelo, maior a visão que as pessoas têm de mim, mais elas me respeitam, mais elas me admiram. Comecei a usar o cabelo como uma grande muleta”, fala a youtuber sobre suas percepções na época.

Nataly saiu da categoria dos lisos e acabou se vendo presa a outros padrões como fios longos ou volumosos. O stress da universidade acabou atingindo seu ‘calcanhar de Aquiles’ e seu cabelo começou a cair muito mais do que o normal. “Entrei em pânico. Percebi que eu dependia muito do meu cabelo, não só do cabelo, mas do comprimento também”, conta.

O cabelo crespo, longo e “armado” representava para ela feminilidade, mas também força. Ao perceber isso, ela decidiu sair da zona de conforto pelo menos mais duas vezes: cortou os fios e, depois, fez dreadlocks com extensões para deixar o cabelo mais longo. “Agora estou fora do mercado de trabalho formal e posso ser ‘dredada’. A gente não pode abrir mão de coisas como se a vida não continuasse. A gente tem que se questionar e ter consciência. Existem limites do seu empoderamento, da sua autoestima. Isso é realidade material”.

A influenciadora digital recebe mensagens de suas leitoras falando sobre chefias que “pedem” para que elas não usem tranças ou dreadlocks . “Garota, você tira se você precisa disso para comer! Você tira se você precisa disso para continuar existindo! Uma luta de cada vez. Primeiro, você come, depois você estuda, realize suas necessidades emergenciais. E depois você vai ‘se pensando’, porque não é fácil”, conta sobre sua resposta enfática para as seguidoras.

A opção dela pelo alongamento também não foi por acaso. Neste ano, Nataly se dedicou a um projeto especial, a gravação de um documentário. “São escolhas. Eu sabia que a feminilidade era importante para mim, e eu não queria segurar a ‘barra’ de ficar me preocupando com a forma como eu aparecia. Coloquei as extensões me conhecendo, para me defender.” As filmagens acabaram e mais uma nova fase começou: há dois meses Nataly tirou as extensões.

Nataly Néri Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Nataly Néri Foto: Midori de Lucca/ Divulgação de Body Shop

Cada mulher deve se conhecer e respeitar seu momento, e, claro, o de outras ‘manas’ também. “Eu não julgo nenhuma mulher que quer alisar o cabelo ou que faz algum procedimento estético. Só Deus sabe o que ela precisa naquela época da vida dela. Mas é importante a gente estar atenta e saber porque a gente faz o que a gente faz”, diz Nataly.

 

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