Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre beleza aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Bruna*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

“Sou advogada, tenho 46 anos, trabalho com direito de família. Eu me casei muito nova, com 26 anos, sofri violência psicológica e moral durante todo o casamento. Estou contando sobre a minha profissão porque até nas palestras que dou eu menciono: todas nós estamos sujeitas a isso.

A última frase que eu ouvi do meu ex-marido, em uma sexta-feira, foi: ‘você tem dois dias para sair de casa. Estou indo viajar. Segunda-feira, quando eu voltar, se você ainda estiver aqui, eu te tiro daqui a socos e pontapés’. Eu saí de casa com a roupa do corpo. Meu passaporte ficou lá e ele não me devolvia.

Há 14 anos atrás, eu era recém-formada em Direito, tinha uma estrutura familiar muito bacana, os meus pais são advogados. Eu tinha instrução. Mas, ainda assim, muitas coisas que aconteciam comigo durante o casamento eu não queria enxergar. Eu procurava silenciar até porque eu queria que o casamento desse certo. E eu nunca contei o que eu sofria dentro de casa para ninguém, nem para os meus pais, nem para os amigos.

Tudo começou a se intensificar quando, logo depois do casamento, eu parei de trabalhar para estudar para magistratura. Eu deixei um emprego em que eu ganhava bem e fiquei apenas estudando. Sem que eu percebesse, chegou a um ponto em que eu consumi tudo o que eu tinha de reservas com livros e cursos. Eu estudava das 6h às 22h, só fazia isso. Eu acabei me tornando dependente financeiramente do meu marido. Eu acho que esse foi o ponto crucial para ele.

Ele é um herdeiro, a família dele tinha muito dinheiro, ele tinha muito dinheiro, mas ele não tinha muita instrução. Existia uma grande disparidade entre nós nesse ponto. Eu sempre estudei muito, tinha mais de uma faculdade e ele zero.

Quando eu me tornei dependente, ele conseguiu crescer para cima de mim, coisa que antes ele não fazia, porque eu tinha minha liberdade financeira e profissional. Começaram as ofensas e as privações. Eu não podia ir para academia, não podia ir na manicure. A justificativa era sempre que eu não tinha dinheiro. Essas situações no começo parecem ser leves, mas isso mexe muito com a autoestima. Eu estava em um ciclo de alienação total, porque eu só ficava em casa estudando, eu perdi contato com tudo, eu entrei naquele meu mundinho. Eu já estava fragilizada, já estava sem dinheiro e as agressões acontecendo.

Os amigos vinham me falar que na academia ele dizia que nós tínhamos um casamento aberto. Ele se aproximava das mulheres e elas falavam que me conheciam. A gente frequentava o mesmo ciclo social. Mas durante o casamento ninguém me contou sobre as traições, porque existe aquela história: ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’. Todo mundo comentava sobre a minha situação e isso é uma violência moral.

Eu fiquei grávida três vezes consecutivas e perdi, a última vez foi quinze dias antes de ele me colocar para fora de casa. Depois do segundo aborto, começou uma outra violência dele e da família dele, porque ele já tinha um filho. ‘Você é seca, meu filho não vai querer ficar com você, nem um filho você pode dar para ele’, dizia a minha ex-sogra.

‘Você é um estorvo na minha vida. Seus cachorros sujam a casa. Esse apartamento aqui é meu, tudo aqui é meu, você não tem nada’, continuava com as acusações. Mas a minha família e a dele tinham condições muito parecidas. O meu pai reformou todo o apartamento. Então, a situação não era da maneira que ele colocava.

Também teve a fase em que ele criticava a minha aparência, mas isso também não era real. As pessoas diziam que eu era mais bonita que ele. Eu sempre fui magra e ele falava que eu era gorda. Ele comentava sobre a aparência de outras mulheres e falava que eu era inferior. ‘Você está ficando gorda, velha. Você não passou no concurso porque você é burra. Faço muito de te suportar aqui’.

Eu tinha dois cachorros que eram os meus amores e ele ameaçava de dar os meus cachorros embora. Isso me deixava muito apavorada.

Ele se tornou muito violento… Tem um episódio que eu quase deletei da minha memória… Mas em uma das brigas ele me enforcou na cama. Nós estávamos noivos, prestes a casar e eu procurei tirar da minha cabeça para que eu me permitisse casar.

Estranhamente, para mim hoje isso seria algo muito fácil de resolver. Eu não consigo acreditar que eu passei por essa situação. Hoje eu sou muito bem casada. Se o meu marido falar qualquer coisa dessa para mim, eu sei me defender muito bem. Mas eu já estive no antes e no depois. Eu percebo o quão fragilizada eu estava, o quanto eu permiti e o quanto eu acreditei.

Duas coisas foram decisivas para mim. A primeira delas: eu não queria de jeito nenhum que alguém soubesse do que estava acontecendo. Eu queria que o meu casamento funcionasse a qualquer custo, mesmo que eu tivesse que engolir tudo o que estava acontecendo. A minha família é religiosa, então eu acreditei que o meu casamento tinha que ser para sempre. Eu não queria que ninguém descobrisse que o castelinho que tinham montado para nós não existia. Eu não contava nada para ninguém, não repartia nada com ninguém e isso foi me deixando muito fragilizada.

Em segundo lugar, eu me culpava demais. A questão da gravidez me fragilizou imensamente. Eu cheguei a de fato acreditar que eu estava causando os abortos, que eu estava fazendo tudo errado, que eu não me cuidava. Eu trouxe toda a culpa para mim.

Com essas minhas atitudes eu só consegui piorar o casamento… Na verdade, qualquer atitude minha não ia resolver, porque isso era uma questão dele. Ele era uma pessoa dessa forma, ele ia submeter qualquer mulher que estivesse com ele a essa violência. Ele era o ignorante da história, o machista, o grosseiro, o abusivo.

Quanto mais ele me fazia sentir mal, mais eu precisava da atenção dele, mais eu chegava perto dele e mais ele me desprezava.

O final do casamento foi marcado por uma traição. Eu saí na sexta-feira, na segunda tinha outra mulher morando com ele.

A gente perdoa, mas a gente nunca esquece. Eu perdoei, passei por cima, mas muitas marcas ficaram. Muito tempo depois eu ainda me culpava. A gente percebe que sempre existem algumas feridas… quando eu falo sobre a gravidez é uma coisa que me machuca muito.

Fui na psiquiatra, no psicólogo, enfrentei todo o processo de divórcio. Apesar de tudo que tinha acontecido, quando chegou a minuta do divórcio em casa para eu assinar, eu tive uma crise de choro. Eu não queria me divorciar dele, porque na minha cabeça tudo era um pesadelo e ia passar. Depois de ele já estar com outra mulher, depois de tudo que ele fez para mim, na hora de assinar o divórcio eu ainda titubeei. Eu não tinha claro para mim que eu estava vivendo um relacionamento abusivo. Se eu não tivesse tido o apoio da minha família, eu teria voltado com ele. Eu confesso.

A gente está muito acostumado com a ideia de que violência doméstica é olho roxo, pancadaria. Como se fosse apenas isso que machucasse a gente. A violência psicológica mexeu demais comigo, hoje eu não tenho filhos. Durante muito tempo eu evitei engravidar novamente por causa do trauma que eu sofri. Eu tive que fazer um tratamento de fertilidade e me vinha à cabeça ‘você é seca. Você é seca’. Eu tinha crises de choro em frente aos médicos.

Já se passaram muito anos, mas toda vez que eu conto essa minha experiência parece que eu estou vivendo tudo novamente.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.

 

Acompanhe o blog Lindeza nas redes sociais:

Facebook

Instagram