Quando falei da Marcha das Mulheres, na semana passada, fiquei surpresa com a repercussão nas redes sociais. Houve quem curtisse e compartilhasse. Mas também centenas de comentários críticos (muitos pra lá de deselegantes) de quem, invariavelmente, nem tinha lido o texto. Mas o que mais me surpreendeu foi a repetição de uma informação: de que o movimento, que tomou as ruas de várias cidades nos EUA e no mundo, foi organizado por uma mulher muçulmana que tem vínculos com o terrorismo e defende a Sharia. E, por isso, a marcha que reuniu milhões de pessoas em várias cidades do mundo não merecia crédito.

Linda Sarsour

Eu tinha lido muito sobre o movimento, acompanhei transmissões ao vivo, mas em nenhum momento havia chegado até mim essa informação. Como jornalista, decidi checar. Descobri que os leitores estavam fazendo referência a Linda Sarsour, uma americana de origem palestina que integrou o comitê organizador da marcha e subiu ao palco para defender os direitos da população muçulmana nos Estados Unidos.

Procurando no Google, encontrei no The Daily Caller um texto que acusava Linda de ter ligações com terrorismo. O site, de credibilidade duvidosa, divulgou uma foto da ativista em um evento, ao lado de três mulheres e um homem. Ele, segundo a página, teria cumprido pena nos anos 90 por participar do Hamas. Vamos lá: estar ao lado de uma pessoa que foi acusada há 20 anos de ligação com terrorismo é ser terrorista? É uma acusação bastante frágil. Foi descartada até em uma reportagem publicada no site da Fox – que, sabemos, está longe de ser “de esquerda”.

Continuei pesquisando, e encontrei no YouTube um vídeo em que Linda defende a Sharia. É uma menção brevíssima a uma proibição da lei islâmica em 22 Estados americanos. Isso quer dizer, então, que Linda defende que mulheres têm que ficar de burca em casa, submetidas à violência dos homens? Não parece ser o caso – se fosse, o que ela estaria fazendo em cima de um palco usando um véu colorido? A confusão vem da interpretação do que é a Sharia. Para alguns, ela é a interpretação radical do Alcorão. Para outros, é só viver de acordo com os ensinamentos daquele livro sagrado. Como os cristãos vivem de acordo com a Bíblia e os judeus, a Torá. Há mulheres cristãs que não cortam o cabelo e usam saia comprida – enquanto outras, não. Há mulheres judias que só aparecem em público de peruca – enquanto outras, não. Há mulheres muçulmanas que usam burca – enquanto outras, não.

Descobri, por exemplo, que Linda só começou a usar o hijab, o véu, depois do 11 de Setembro. Após os ataques, ela disse ter percebido que a segurança dos muçulmanos estava em risco e decidiu tomar uma posição pública. Juntou-se à Associação Árabe-Americana de Nova York e esteve envolvida na luta pelos direitos da comunidade desde então. Ganhou um prêmio durante o governo Obama – informação que foi apagada assim que Trump assumiu a Casa Branca. E tem trabalhado em colaboração com associações judaicas, como conta o jornal israelense Haaretz.

Este texto não pretende entrar na complexa relação entre islamismo e feminismo. Só pretende levantar dúvidas quanto à onda de ataques virtuais que atingiu Linda. E que, por tabela, queriam tirar o crédito daquele que, segundo pesquisadores, foi o maior protesto da história americana.

A religião era uma discussão irrelevante dentro da Marcha das Mulheres. A defesa era dos direitos civis: de liberdade individual, de expressão, de pensamento, de fé, de ir e vir. Não é obrigar todas as mulheres a trabalhar – mas dar direitos iguais às que assim fizerem. Não é obrigar todas as mulheres a abortar – mas dar segurança às que assim decidirem. Não é exigir que todas usem véu – mas garantir a liberdade das que assim quiserem.

Se alguém tinha dúvida de que eram esses direitos que estavam ameaçados com a eleição de Trump, essa semana foi esclarecedora. O republicano disse que está em guerra com a imprensa (e a liberdade de expressão e de pensamento?). Ordenou a construção de um muro na fronteira com o México, um país amigo (liberdade de ir e vir?). E barrou a entrada de refugiados e imigrantes de sete países muçulmanos (e a liberdade de fé?).

A última medida comprovou que Linda Sarsour tinha razões suficientes para protestar. Famílias foram barradas – e até quem tem green card pode ser afetado. Milhares se reuniram para protestar nos aeroportos. Universidades e empresas começaram a discutir como proteger seus estudantes e funcionários do governo. E a Justiça reagiu: uma ordem da juíza Ann Donnelly, de Nova York, proibiu que os EUA deportem imigrantes que tinham autorização para entrar no país. Outros a seguiram.

Trump restringiu a entrada de muçulmanos alegando que quer impedir a entrada de terroristas. Mas, como informa a colunista Adriana Carranca, nenhum dos autores de ataques terroristas nos EUA, nos últimos 15 anos, veio dos países que integram a lista ou descende de imigrantes ou refugiados desses países. Se o objetivo é a segurança nacional, será que essa é a melhor medida?  

Por tudo isso, só tenho uma coisa a dizer: #IMarchWithLinda. E com todos que forem a favor dos direitos civis.

Uma tristeza. Uma pesquisa das universidades de Nova York, Illinois e Princeton mostrou que crianças de 6 anos de idade já são afetadas por estereótipos de gênero. Até os 5, tanto meninas quanto os meninos identificam o próprio gênero como mais inteligente. Depois disso, porém, as meninas passam a identificar a inteligência como uma característica mais masculina do que feminina. Lendo esse estudo, lembrei de uma campanha que a Dove fez alguns anos atrás. A pergunta era: quando as mulheres deixaram de se achar bonitas? Talvez na mesma idade em que deixam de se achar inteligentes – e começam a sofrer com os rígidos padrões de exigência da sociedade.

Uma esperança. O assédio na rua, verbal ou físico, pode passar a ser punido com multa de 30% do salário mínimo. O projeto de lei é da vereadora Maria Letícia Fagundes, de Curitiba. Será que pega?

Uma memória. A maravilhosa Emmanuelle Riva, de Hiroshima e Amor, que se foi aos 89 anos.

Uma causa. Só para não perder o costume, voltemos a Trump. Não vou aderir à campanha #freemelania. Posso defender #freeshamu (lembram?), mas quero crer que Melania tem o direito de ir e vir e pode preferir ficar – apesar dessa expressão fúnebre.