Caixa de chocolate

Começou no supermercado. Um dia quis comprar uma caixa de bombons e não achei. Havia barras, sacos, mas nada de caixas. Ou pelo menos não as tradicionais caixas que eu costumava comprar minha vida toda.

Achei então que fosse sazonal Será que, por que era Natal, o foco era o chocotone?

Mas, aí, lendo o jornal dia desses, veio a confirmação terrível: uma das principais marcas estava lançando um saco de chocolates. A caixa havia ficado obsoleta. Dentro do novo saquinho, só sucessos: aqueles bombons que sumiam assim que a caixa era aberta.

E me veio uma grande tristeza.

Mas por que, tristeza? Não seria mais feliz ter uma seleção só com os melhores chocolates? Qual era o problema. Vai-se a caixa, mas fica o saco gourmet.

Demorei um pouco para entender, mas minha tristeza não era pelo fim da caixa. Mas de tudo o que ela tinha significado. A partir de agora, ninguém vai precisar negociar nada. Não mais eu fico com o Alpino e você com o Sensação, naquela cena clássica de irmãos.

Aqueles bombons não eram raros sem razão. As melhores coisas da vida são raras mesmo. Não estão por aí, em abundância, a todo momento.

Depois deles, vinha a divisão dos outros chocolates. E a gente se surpreendia quando o irmão, amigo, vizinho, primo, gostava mais do Chokito do que do Charge. E de quebra ganhávamos mais uma lição de vida: as pessoas podem gostar de coisas diferentes e isso pode fazer todos mais felizes.

Então, lá pela terceira ou quarta rodadas de gulodice – ah, naquela época podia! -, a gente descobria que gostava daquele bombom obscuro de abacaxi que ninguém queria. E ficava feliz porque a caixa tinha vários deles! Como na vida, quando a gente está disposto a tentar algo novo, pode acabar descobrindo uma nova e negligenciada fonte de alegria.

Ainda tinha mais: no fundo da caixa ficavam os rejeitados. Tão obscuros que eu nem lembro quais são. Bombons temporários, cuja única qualidade era ser feito de chocolate. Lá pelo fim da tarde, da noite, do churrasco, do filme, era a eles que a gente recorria. E nem era tão ruim! Não que fosse assim um Alpino, mas matava aquela fominha… Às vezes, a gente tem que se contentar com o que aparece, não é mesmo?

Na psicologia da caixa de bombom, aprendemos a dividir, negociar, provar o novo, respeitar o diferente, curtir o que aparecer na frente. Coisas que dificilmente a geração do saquinho gourmet jamais terá a oportunidade de entender.

 

*Como estou de férias – o que significa tentar ficar longe do noticiário -, deixo esta pequena crônica para a semana.