Quando comecei a trabalhar, há quase 15 anos, pouca gente falava de machismo. E eu estava com a maioria. Como falar em discriminação se a escola nos tratava como iguais, se éramos maioria na faculdade, se a porta do emprego estava aberta? As mulheres dos anos 60 e 70 haviam lutado por direitos iguais. E ganhado.

Só fui entender por que o feminismo entrou tão tarde na minha vida quando fui pautada para fazer uma reportagem sobre a eleição da primeira mulher à Presidência da República. A ideia era responder o que significava ter Dilma lá, mas acabei descobrindo por que minhas amigas e eu, todas com 20 e alguma coisa, nunca tínhamos falado sobre machismo. Ilene Lang, da ONG Catalyst, me explicou que as barreiras da discriminação estavam entrando mais tarde na vida das mulheres. No começo do século XX, as meninas nem iam para a escola. Depois elas aprendiam o básico, mas não iam para a faculdade. Conseguiam ir para a faculdade, mas não para o mercado de trabalho. Ocupavam as vagas para iniciantes, mas não as de gerência. E, mais recentemente, assumiam a gerência mas ainda penam para chegar à diretoria. A diferença de tratamento, que antes estava clara já na infância, começa a ficar mais evidente só perto dos 30 anos.

Não sei na sua cabeça, mas na minha acendeu-se uma luz. Nunca mais consegui ver o mundo do mesmo jeito. E enxerguei que, mesmo superando várias barreiras, ainda havia muitos obstáculos na vida das meninas e mulheres. Principalmente das negras e das mais pobres – e descobri como fui privilegiada. Elas são desencorajadas a estudar Exatas, sofrem com assédio desde cedo (muito obrigada, Chega de Fiu Fiu!), com o julgamento por serem molengas ou duronas demais e, mais grave de tudo, com a violência, dentro e fora de casa.

Chang W. Lee/The New York Times

Contei essa história toda só para dizer como eu não esperava, há alguns anos, ver uma marcha das mulheres como a que aconteceu neste sábado, 21. Já vínhamos vendo mobilizações femininas no Brasil, quando o cassado Eduardo Cunha tentou dificultar o aborto nos já poucos casos em que ele é autorizado pela lei brasileira. Mas reunir 3,7 milhões de pessoas só nos Estados Unidos, fora as marchas em vários países, foi para lá de lindo. Teve muita mulher famosa, teve criança e teve a Gloria Steinem aos 82 anos. Teve muito homem, muita placa criativa e todas as ondas de feminismo. E teve a cara de pau do Trump para dizer que sua posse teve um público recorde. Seu porta-voz ainda reiterou: Foi o maior público. PERIOD. Questionada, a conselheira Kellyane Conway (uma mulher!) disse que eles apresentaram ‘fatos alternativos’. Fatos alternativos, direita alternativa… Posso pedir um planeta alternativo, please?

Enquanto não vamos para Marte, só resta acreditar que a eleição dessa figura repugnante vai ajudar a mostrar como o feminismo é necessário e atual. Assim como a luta por direitos civis para todos – imigrantes, população LGBT, negros… E, só então, o sofrimento não terá sido em vão.

Para quem não leu, um resumo visual…

#nãopassarão. Roman Polanski foi escolhido para presidir o prêmio César, do cinema francês, e deixou muitos feministas descontentes. O cineasta é acusado de estuprar uma menor e foge há 40 anos da Justiça. O que é um Polanski perto de um Trump, não é mesmo? Pouco. Mas, se a violência contra a mulher não fosse normalizada, nenhum dos dois estaria onde está hoje.

Ema ema ema. A imprensa demorou algumas horas para confirmar que entre as vítimas do avião estava o ministro do Supremo Teori Zavascki. Mas levou quase um dia para identificar as duas mulheres que também morreram no acidente: Maíra Panas e Maria Hilda Panas. Subalternas da própria tragédia, também não conseguiram se defender do achincalhamento público. Não que elas tivessem que dar qualquer satisfação sobre a própria vida.

#ficaadica. O acidente também abriu as discussões sobre quem ocupará a cadeira deixada por Teori no Supremo. O polêmico ministro Alexandre de Moraes saiu na frente na bolsa de apostas. Aqui e ali, duas mulheres apareceram: Flávia Piovesan, secretária de Direitos Humanos, e Grace Mendonça, advogada-geral da União. Hoje a Corte tem oito homens e duas mulheres (Cármen Lúcia e Rosa Weber). Bom lembrar que, quando montou seu Ministério, Temer foi criticado pela falta de mulheres. Ele vai se redimir?

Guerra climática. Cansada de discutir por causa do ar condicionado gelado com colegas engravatados, a engenheira Brenda Coelho Leite, da USP, inventou um aparelho que pode ajustar a temperatura para cada pessoa dentro do escritório. E ele ainda economiza energia!

Para relaxar. As apostas do Merten, do Estadão, para o Oscar.

Para mofar. Este janeiro já está entre os 5 mais chuvosos dos últimos 75 anos em São Paulo.

Para se inspirar. E fazer todos os corpos darem piruetas.

 

**Caros, estreamos com um problema no link e tivemos que republicar o post. Por isso, os comentários já feitos acabaram se perdendo. Peço desculpas aos leitores.