Ensaiei vários textos recentemente. Um tentava explicar que “ideologia de gênero” é um nome com ares conspiratórios para a boa e velha luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Outro ia falar sobre a importância de questionar as certezas biológicas e tentar entender o papel da cultura na criação dos estereótipos de gênero na infância. E um terceiro ainda ia refletir por que um escândalo como o do produtor Harvey Weinstein demorou tanto para eclodir.

Mas li vários textos sobre o assunto e, depois de ler os vários comentários raivosos que os autores receberam, cheguei à conclusão de que não queria entrar em outra polêmica. Em outra corrente de baixarias, pedidos de boicote e até incitação à violência.

E me perguntei: será que não dá para melhorar a vida das pessoas e escapar desse clima de guerra? Será que não há uma forma de colocar todo mundo – ou pelo menos a maioria – na mesma página?

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Quem me fez pensar que isso é possível foi Daniela Andrade, desenvolvedora na ThoughtWorks. Assisti a uma fala dela sobre transexualidade num evento da empresa e, de repente, algo se iluminou quando ela disse:

É impossível criticar o machismo e tolerar o racismo; combater o racismo e tolerar homo e transfobia; brigar contra a homo e transfobia e tolerar a discriminação de pessoas com deficiência.

Reverberou fortemente para mim a mensagem de que a exclusão de qualquer grupo é inadmissível. E justificar a discriminação a qualquer tipo de pessoa pode, em última instância, justificar a discriminação a você mesmo ou alguém a quem você ama. Como?

Oras, ao longo da história, cristãos já foram perseguidos, judeus também. Mulheres continuam sendo apedrejadas por razões estapafúrdias e pessoas com deficiência já foram feitas cobaias e têm seus direitos básicos sistematicamente negados.

Minorias como os muçulmanos rohingya estão sendo perseguidos em Mianmar. E no Brasil, o último país a abolir a escravidão, os negros ainda são vítimas de discriminação e violência diárias. Também somos a nação que mais mata transexuais e travestis no mundo.

Os ciganos também foram alvos no Holocausto, embora menos gente tenha ouvido falar. Sem falar no extermínio de indígenas de todo o mundo. E nas crianças de todas essas populações, afetadas pela negação de direitos e pelo ódio.

É verdade que dificilmente homens brancos heterossexuais – e mulheres brancas heterossexuais, como é o meu caso – serão alvo desse tipo de ação persecutória. Mas onde isso seria razão para deixar de lutar por respeito para todos? 

Para mim, ficou claro que a única saída para o ódio e para melhorar o mundo é defender a diversidade, os direitos de todos. Se justificamos que um grupo seja alvo de violência e discriminação, como podemos garantir que não seremos as próximas vítimas? Quem diz qual grupo é superior ou inferior? Não somos, afinal, todos, seres humanos? Sob qual pretexto uns podem ter mais direitos do que os outros? Qual argumento pode justificar o desrespeito que alguns têm com os outros?

Essa argumentação talvez ajude as pessoas a entender os riscos de embarcar em atitudes discriminatórias. E a lembrar que o feminismo, por exemplo, não fala de supremacia das mulheres, mas de igualdade. Uma causa bastante razoável, convenhamos. Porque não importa a diferença entre nós: temos a humanidade que nos une.