Um ano e meio de pandemia e Estado, prefeitura, escolas e famílias se preparam para o retorno a uma possível “normalidade”

Há 16 meses o pátio ao lado de casa foi ocupado por um silêncio tenebroso. Nunca mais ouvi o microfone da escola que chamava às crianças na saída ou a música que sempre tocava na época das festas juninas. Crianças gritando e correndo no pátio, nem pensar. Por um ano e meio, eu fui observando a grama crescer por entre o portão de grades. E o silêncio tomou conta numa grandeza, que chegamos todos a perder um pouquinho da pulsação.

Hoje pela manhã, as escolas reabriram com possibilidade de atender 100% dos alunos, respeitando todos protocolos de segurança. Aqui do lado, muro com muro, escutei as crianças brincando de morto-vivo. “Morto, morto, vivo, vivo”, falava a professora alto para todos. Veja q metáfora linda para a vida. Há quanto tempo a gente não anda “brincando” de morto-vivo nesta pandemia? De repente no sol, tentando se aquecer – ou reaquecer um corpo tão frio e saudoso – crianças metabolizam o morto-vivo da vida.

Tem coisas que só a escola pode oferecer à uma criança e um adolescente. Tem coisas que só acontecem por ali, no pátio, nos corredores, nas salas de aula e até nos banheiros que a gente sabe. Tem coisa que só a educação faz por um país.

E o Brasil foi quem ficou mais tempo com as escolas fechadas por conta da pandemia. É também o segundo país que mais perdeu vidas para a COVID-19. A soma destes dois cenários gera desafios ainda mais abissais para um país colapsado. Mas é justamente por isto que a necessidade de abertura das escolas se faz urgente.

Os desafios são – e serão – muitos, não haverá certo ou errado, mas existe um caminho possível que é o de garantir às crianças e adolescentes o direito à educação. Uma ferramenta de transformação e redução das desigualdades sociais que é consenso no mundo todo por especialistas e instituições ligadas ao ensino. Disto, não há dúvida.

Os prejuízos deste tempo bruto por qual passamos – e continuamos vivendo – já são visíveis e quantificáveis, e o obstáculo é estrondoso num país que tem 47 milhões de estudantes, 80% deles matriculados na rede pública. Destes, 52% não voltou à escola até agora. Um ano e meio de pandemia e 52% dos alunos não retornaram, nenhum dia, ao espaço físico que frequentavam.

Está na hora de voltar e com autorização do Estado para que as escolas possam receber 100% dos alunos no presencial, respeitando distanciamento e seguindo os protocolos, rede pública e instituições privadas se preparam para reabrir os portões esta semana na busca de ampliar o percentual de crianças e adolescentes atendidos.

Depois de um ano e meio de aulas essencialmente remotas, é possível vislumbrar uma possível normalidade na vida escolar, mas que deve exigir esforços de todas as partes para que dê certo – e perdure. Juliana Fures, analista de sistema e mãe de dois meninos, conta que a expectativa dentro de casa é grande. “Nunca vi meus filhos torcerem pelo fim das férias. Estão ansiosos, com saudade da escola que conheciam, mesmo sabendo de todas as mudanças que vão existir e os protocolos adotados”, conta.

A escola em que os filhos da Juliana estudam estava atendendo com 35% da capacidade, o que era permitido pelo Governo do Estado até o momento, só que ela e o marido optaram por não os mandar até então. “Achamos mais seguro aguardar a vacina. A espera já tinha sido tão grande que mais alguns meses pareceram não fazer tanta diferença”, revela.

Juliana é uma das quatro em cada dez famílias entrevistadas pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Tecnologia), para um estudo recente lançado pela UNICEF que mostra os impactos primários e secundários da pandemia da COVID-19 vividos por crianças e adolescentes, no Brasil.

A pesquisa, que entrou na 3ª. rodada, aborda temas como moradia e renda familiar, saúde mental, alimentação, medidas de prevenção e educação. E é na educação que se encontra um dos maiores prejuízos. Razão pela qual o retorno às escolas, neste momento, se torna ainda mais vital para crianças e adolescentes que passaram a ocupar lugares indesejáveis nas estatísticas.

Desde outubro passado, as escolas tinham permissão para operar com 35% da sua capacidade e neste período apenas 48% dos alunos retornaram ao presencial da rede pública. Por razões diversas, outros 52% não compareceram à escola física até final de junho agora. Um número expressivamente grande – e grave. O desafio das escolas e dos órgãos públicos está em elevar o indicador.

Mas, segundo estudo da UNICEF, 74% das 1516 famílias entrevistadas, disseram que os filhos voltarão às atividades presenciais quando a família considerar que não há risco de contaminação e apenas 23% disse que retorna esta semana. Ao contrário das famílias onde os filhos estão matriculados na rede privada e 98% já aderiu ao presencial.

Segundo Fernando Padula, Secretário de Educação da cidade de São Paulo, a busca por alunos é um dos grandes pilares para recuperação e ampliação do atendimento presencial. “O trabalho está sendo implementado em várias frentes com o objetivo de oferecer condições e oportunidades para todos os estudantes da rede municipal solucionarem déficits educacionais ocasionados ou agravados por conta do período pandemia”, conta o Secretário.

Dentro da rotina escolar, uma série de iniciativas foram implementadas e entre elas está o atendimento às crianças em vulnerabilidade educacional realizado pelo NAAPA, Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem, que contou com a parceria do Instituto Liberta. Uma equipe de 83 profissionais, entre psicólogos, psicopedagogos e coordenadores já atendeu 17,4 mil estudantes, um número expressivo e importante uma vez que mesmo fora da escola estes alunos continuaram a receber algum tipo de apoio.

“Essa é uma política pública da Rede Municipal. Os profissionais do NAAPA, estão na linha de frente no suporte psicopedagógico para alunos e suas famílias, que recebem atendimento online, por telefone e, em alguns casos, presencial”, fala o secretário.

Busca incessante por alunos
Tanto este programa, como alguns outros implementados pela rede fazem parte do que se chama “busca ativa”, um termo usado na educação para designar qualquer ação de procura e localização do estudante e sua família. Uma vez que a escola constata que existe uma dificuldade ou resistência do aluno em estar presente, seja ela remota ou presencial, ela entra em ação para resgatá-lo, muitas vezes indo até a casa e batendo na porta.

“Num primeiro momento fomos entregar as atividades nas residências dos estudantes que não apareciam pra buscar e fazer uma conversa no sentido da importância da tentativa de realizar as mesmas. Ali começou a busca ativa sem que ainda tivéssemos consciência da importância do que estávamos fazendo”, conta Maria da Cruz Sousa Santos, gestora escolar da EMEB Demétrio Rodrigues Pontes.

Na maior parte dos casos, o problema estava relacionado a falta de acesso a internet e a falta de aparelho ideal para acompanhar as aulas ou orientações, além de algumas famílias relatarem que não tinham ninguém para ajudar na realização das mesmas. “Os pais, geralmente, trabalham fora. Eles não têm tempo ou condições de orientar os filhos. Em poucos casos identificamos a falta de vontade do aluno em realizar as atividades”.

O estudo da UNICEF apontou que 35% das famílias não tinham tempo de auxiliar os filhos, os mesmos 35% não tinham acesso a internet e só 31% tinha o equipamento adequado para as aulas. 71% dos alunos realizou as atividades pelo whatsapp e 69% foi até a escola buscar material para conseguir acompanhar. “Agora ampliaremos o monitoramento e a busca ativa nas escolas e uma ação em parceria com a UNICEF, Saúde e a Assistência Social da cidade vai buscar reforços”, fala o Secretário Padula.

Lívia dos Santos, operadora de caixa e mãe de quatro filhos, conta que passou aperto para conseguir que os filhos estudassem durante este período. “Eu deixava meu celular em casa para uma das minhas filhas ter aula. Uma amiga recebeu uma doação e meu filho ganhou um celular. O mais velho me ajudava indo até a escola buscar o material que os professores separavam. Foi muito difícil e acho que se eu não tivesse contado com a ajuda da escola, eu tinha desistido”.

Desistir foi o que aconteceu com muitos estudantes, principalmente adolescentes e jovens que não conseguiram se manter vinculados à escola. As razões são diversas e todas muito cruéis. Ninguém desiste de estudar porque quer, porque “deu a lôca na cabeça”.

“A distancia que se estabeleceu entre a escola e os estudantes nos mostrou a potência da presença no ambiente escolar e nossos limites enquanto escola para o ensino à distância”, fala Maria da Cruz Sousa Santos. “O ensino remoto não atende as necessidades da nossa comunidade e tem sido um imenso desafio continuar a acreditar que o conhecimento pode sim estar ao alcance de todos”.

Na escola em que Maria é gestora, estratégias de diálogo com as famílias e estudantes foram lançadas na tentativa de manter aceso o desafio e o interesse pelo conhecimento. Ela conta que no primeiro bimestre de 2021, 31 dos 195 estudantes não participaram de nenhuma atividade. Destes, 22 foram buscados e encontrados pela escola e seus pais autorizaram a sua participação em um atendimento presencial na Unidade durante todo o segundo bimestre do qual 18 participaram.

“No processo de busca ativa conseguimos o contato com todos os pais e neste momento estamos fazendo os encaminhamentos necessários para que possam retomar a participação nas atividades escolares de alguma forma”, revela.

Plano de Retorno
Prefeitura e escolas, tanto da rede quanto as privadas, traçaram um plano efetivo de combate à evasão e recuperação de alunos. O empenho em garantir que esta volta seja segura e eficaz, claramente, é um movimento e um desejo de todos. Os esforços são visíveis e parecem nos dar sinais de que sim, estamos prontos.

Estruturalmente algumas escolas conseguiram fazer melhorias, ainda que longe do desejável. Mas emocionalmente, como me disse Ana Bergamin, coordenadora do Ensino Médio da Escola Vera Cruz, em outubro passado, “ninguém está pronto para o retorno”. Não vai ser fácil enfrentar o medo da contaminação ainda mais de perto, mas os protocolos e as escolas já se mostraram ambientes seguros e de baixa contaminação.

Na rede e nas privadas, crianças e adolescentes serão atendimentos em sistema de rodízio de acordo com a capacidade física de cada escola e elas têm autonomia pra redefinir horários de atendimento. Estudantes com comorbidades permanecem em casa por enquanto e a permanência dos protocolos sanitários são vitais às escolas. “Em julho, iniciamos a entrega de 81.785 face shields e 1.650.400 máscaras do tipo PFF2 para professores e funcionários”, conta o Secretário.

R$200 milhões foram investidos em manutenção e aquisição de itens de higiene e garantia da segurança na rede, através do Programa de Transferência de Recursos Financeiros. Para as unidades parceiras serão repassados mais R$ 23,4 milhões para compra de equipamentos de proteção. No Estado, R$1,5 bilhões de reais entraram pelo PDDE, Programa Dinheiro Direto na Escola, para investimento em melhorias. Com o recurso, segundo Rossieli Soares, Secretário de Educação do Estado de SP, 96% da rede realizou melhorias na infraestrutura e mais R$25 milhões foram liberados para aquisição de materiais.

Para quem não conhece o Programa, ele é de extrema importância para as escolas porque são elas que decidem, junto às famílias e comunidade escolar, onde e como o dinheiro será aplicado. A autonomia e gestão não ficam à cargo do poder público e sim para quem enfrenta o “chão da escola”.

“É realmente preciso investir em educação, investir na escola pública, estejamos em pandemia ou não”, enfatiza Maria da Cruz Sousa Santos. “Seja como for, a lição maior que tivemos é de que o ser humano pode sim se tornar mais humanizado, mais conhecedor da história e da produção humana, se lhe garantirmos o acesso à educação”.

Os investimentos precisam ser constantes e massivos. Não é de hoje que a educação brasileira precisa de investimentos e isto a pandemia também deixou claro, tão claro como a luz de um abismo. Crianças e adolescentes precisam retornar às aulas e reabitar o pátio e os corredores das escolas. O lugar é deles. E pra além de ser um direito, é uma urgência.