Sábado, dia 6 de janeiro. Dia de Reis. Dia do embarque. São Paulo estava vazia e cinza. O cinza é habitual, eu sei. Mas quando SP está vazia perde ainda mais cor. Uma imensidão silenciosa que não sei me relacionar.

Mas lá estávamos nós. Era hora de arrumar a mala. “Pedro, coloca tudo que você separou em cima da cama e vamos conferir juntos”. Lá foi ele. Em cima da cama, meia dúzia de roupas pra um mês. “Isso é pouco Pedro. Abre a gaveta e pega mais calças e camisetas. E vamos montando os looks já pra você ter noção do que está levando”. “Montando o que mãe??? Look??? Aí não né!!!”. É…aí não… a mamãe exagerou. Look é coisa de mãe que trabalha com moda. Dá nisso. Esquece os looks. Vamos terminar essa tua mala.

Está na hora. Aeroporto. O caminho é longo e a angústia persiste. Puxo assunto no silêncio pra ver se o choro não me atropela no meio da Dutra. Meio sem jeito, caminhamos. Ele a olhar o vazio e eu o retrovisor.

Aeroporto lotado. É o 1o final de semana pós reveillon e início de temporada das aulas internacionais. Está cheio de adolescentes com cores diversas de camisetas de suas escolas de intercâmbio. Cada cor uma escola. Cada cor um destino. Um aprendizado. Gostoso de ver como chegam. Como são as famílias, o que trazem na mão (o que não trazem também), o tamanho das malas e o susto que todos levam quando a mocinha da companhia aérea diz que só o passageiro pode entrar na fila do check in. Ali se instala o primeiro desafio da viagem: fazer o próprio check in sem ajuda dos pais. Crescidos e cheios de coragem, eles vão. Ganhar experiência.

Pedro foi também. A gente só a observar e a acompanhar. “Qualquer coisa, estamos sempre aqui. Pode ir seguro”. Não dissemos a frase, mas nossa figura de pai e mãe estava lá fazendo este papel. E entre olhares de certeza de que estávamos ali, a fila ganhou conversa. Logo quer saber quem são aqueles com camisetas da mesma cor que estavam a sua frente. Pedro já conheceu dois de seus colegas. Aliviou. Um vinha de São Luiz do Maranhão, outro de Brasília. Assim tinha também o menino de Campo Grande e as meninas que vieram de Minas. Um Brasil inteiro pra um mundo inteiro.

Hora de entrar. E a hora que me atropelou. Não teve jeito. Essa hora eu não podia mais atrasar. Não dava pra perder esse momento. Eu tinha que ser pontual. Um tempo que me venceu rápido demais. Do filho que cresce. Do filho que voa. Como passarinho mesmo. Quando a gente menos dá conta, eles foram. E foram porque educamos e os incentivamos pra que vão. É quando aquela frase de “educar para o mundo” se concretiza e você percebe que não tem preparo algum para lidar com tanta realidade. Até a incerteza do parto parece mais simples. Juro. Não é drama não. É choque mesmo.

Meu filho foi. Com seus 13 anos atravessou a catraca e caminhou rumo a Polícia Federal. Com sua mochila nas costas e infinitas possibilidades pelos próximos 30 dias. Porque assim é a vida. É quem nos oferece as oportunidades, os caminhos, os trajetos. O que vamos fazer deles, ou com eles, cabe a nós – eu diria que um tiquinho ao destino também.

À mim e Daniel, restou a volta pra casa. Num silêncio ainda maior do que o da ida. Agora o coração doía mais forte. Inexplicável o sentimento. Uma alegria e um orgulho monstruoso desse meu menino. Que em tão pouco tempo de vida já tem recebido tanta generosidade da mesma vida. E que com toda sua gentileza e delicadeza tem sabido receber e agradecer. À você Pedro, voa passarinho, voa.