Em dias que a vida volta a rotina, a gente revisita as memórias das férias. Daquelas em que os filhos têm tempo com os primos e os avós, quase feito antigamente

Desde bem pequenina, férias sempre foram família. Primos, de segundo, terceiro grau, tios e tias, os distantes e avós. Sempre avós. Era tempo intenso e cheio de calor – de caloroso. Em família. Do tempo de maior espera que se tinha. Dava angústia para chegar o tempo em que a gente ia poder brincar na rua de taco ou ajudar a colher café na fazenda. Subir nos enormes pés de manga, colher jabuticaba do canteiro da minha avó. Tomar sorvete no final do dia. Todo final do dia tinha casquinha com meu avô. Terminar o dia de terra e ter que tomar banho fora da casa porque os pés estavam tão vivos que o chão branco não dava conta das marcas.

Marcas. Um tempo cheio delas. Um tempo de férias capaz de resgatar cheiros, toques e sorriso suave de quem re.vive a lembrança interna. Das mais vivas e livres que eu tenho. Das que ficaram feito marcas em mim. Que contam sobre minha linha do tempo. De quem eu sou e de quem meus filhos também são. Da vontade de que eles possam, ao menos um pouco, terem marcas também.

Ainda que não tenha mais a fazenda, os dias no alpendre da casa dos meus avós e a rua sem perigo, eles têm tempo de família pra contar. Poder con.viver o descanso da escola perto dos primos e dos avós acredito que ainda é das melhores maneiras de se entender de onde a gente vem e porque a gente é quem é. Feito a origem do mundo, mas o mundo da gente. Aquele que a gente conta olhando pra dentro.

O brincar na rua de uma pequena cidade italiana

Lembrei do filme A Vida no Paraíso. De quando o maestro sueco volta a sua cidade de infância para resgatar algo que estava desamarrado. Perdido no fio. Algo que foi-se esvaziando de sentido pela pressão social. O retorno a pequena cidade do norte da Suécia traz encontros com ele mesmo. Com quem ele era e com quem se tornou. Algo que me trouxe cheiros sobre o que significa buscar raízes.

Estávamos na Itália. Onde meu bisavô nasceu, onde temos parte das raízes. Daquelas que a gente desenha em árvore genealógica quando é criança na escola. Daquelas que contam sobre a gente. Dai a memória do filme que tem a sutileza de dar sentido hoje pra algo de ontem. Porque fica distante demais falar de um bisavô que você não conheceu, de um navio que você nunca viu ou de histórias que mais parecem fazer parte dos livros de história que da sua própria vida. Quase como uma memória ausente dela mesma. Porque ela apenas existe, mas não pertence.

Estávamos de novo na Itália, agora em família. Éramos 12. Doze a decidir pelo tempo. Doze a se mover. Doze a sentar-se numa mesa de café da manhã ou a fazer longos almoços de intermináveis domingos. Doze em férias. Férias em família – o que é um acumulado da gente junto.

O filme me dá pistas de novo. “É preciso saber de onde veio para saber para onde vai”. A frase que amplia sentido entre nós doze a caminhar pelas pequenas cidades da Itália. Feito vida em família. A que alarga o sentido de pertencer a árvore genealógica. Mais do que entender de onde se veio, é ganhar raízes. Fincar os pés na terra e ser capaz de espalhar-se sem tombar, sem enfraquecer, sem estar só. De quem mergulha fundo e também cresce ao sol. Ao calor, de caloroso.

Ainda que na Itália fosse inverno, as férias foram calorosas. Teve “calore”, como se diz em italiano. Tão intenso que dessa vez foi difícil se despedir. Como quando eu era criança e tinha que ir embora. Dava nó no peito. Dava silêncio. Silêncio de vazio de viagem que acaba. Feito quem tem saudades no dicionário pra dizer das coisas que sente. Feito marcas que a gente ganha nas férias. Gosto das marcas como memórias do tempo. Desses em família. Um lembrete pra carregar pelo tempo da gente. Como fotografia em porta-retrato.