Com a fila da vacinação caminhando, autorização da ANVISA para uso da Pfizer até os 12 anos e a ampliação das aulas presenciais para agosto, chegou a hora de incluir adolescentes no Plano de Vacinação

A passos lentos o Brasil tem caminhado na vacinação contra a COVID-19 contando, principalmente, com o empenho e esforços locais de prefeitos e governadores. O calendário de vacinação já alcançou a faixa dos 18 anos, o que permite planejar algumas possíveis aberturas e retomadas, como a ampliação das aulas presenciais nas escolas para agosto. Não será hora de pensarmos sobre a imunização de adolescentes e crianças de até 12 anos?

Já vacinamos idosos, inúmeros grupos prioritários, professores e profissionais da educação, portadores de deficiência, comorbidades e começamos a geração dos 40 anos – muitos, pais de crianças e adolescentes que frequentam as escolas. À medida que a fila avança e as prioridades são cuidadas, é preciso olhar para esta parcela da sociedade quase que esquecida neste tempo presente ao qual lutamos para viver – e sobreviver.

Ainda que não tenhamos vacinado, com as duas doses, nem 20% da população brasileira e com o envelhecimento crescente da mesma, crianças e adolescentes representam um percentual que supera 41% dos habitantes deste país, segundo dados da Fundação Abrinq de 2019.

Foto: Roberto Jimenez Mejias (Getty Images)

São 68,8 milhões de meninos e meninas que precisam ter de volta seus direitos garantidos, como escola, desenvolvimento físico e mental, e saúde, e para isto também precisam estar vacinados. E só teremos mais segurança para avançar quando o Governo entender que eles também devem fazer parte do Plano Nacional de Vacinação, por uma razão muito simples e óbvia: são cidadãos como quaisquer outros.

“A vacinação é certamente uma das formas de atenuamos o dano trazido pela pandemia para esse grupo, que talvez seja o que sofreu mais seus efeitos”, alerta o pediatra e sanitarista Daniel Becker. “Até o momento, a vacinação tem sido bem sucedida em gerar anticorpos com grande segurança, mas precisamos estar atentos ao surgimento de efeitos colaterais nos próximos meses. E devemos pensar também em outras formas de enfrentar o problema, como promover contatos sociais e aulas ao ar livre”.

Culturalmente, somos uma sociedade que olha para esta parcela da população como um grupo que não ocupa espaço nas decisões e nem exerce uma função social. Existe uma invisibilidade social até que esta criança cresça, se torne um adolescente que se tornará um adulto que irá ser “útil”. Vai poder trabalhar e produzir algo, agora como parte da engrenagem socioeconômica.

O fato é que estamos em 2021, enfrentando uma pandemia que perpetua no calendário e na existência de milhões de brasileiros e é preciso começar a recuperar as expectativas da vida – de vida. Não somos nenhum país da Europa e nem os Estados Unidos, que já estão vacinando crianças e adolescentes, mas o Chile e o Uruguai, nossos vizinhos, começaram a imunização desta faixa etária semana passada. Vizinhos, hermanos, como se diz.

O presidente uruguaio Luis Lacalle Pau, disse em anúncio em rede nacional que “é só através da vacinação em massa que o país alcançará uma forte redução na circulação do vírus”. No mais, Estados Unidos, França, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Itália, Espanha, China, Japão, Hong Kong, Cingapura, Israel, Hungria, Dubai, Emirados Árabes, Áustria, San Marino, Estônia, Suíça, Filipinas, Nova Zelândia e Noruega, já estão vacinando – ou vacinaram – crianças e adolescentes entre 17 e 12 anos.

Em entrevista a rádio CBN, Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), disse que as crianças devem ser incluídas no cronograma de vacinação após a imunização dos adultos porque representam um número menor de hospitalização e óbitos. O que as coloca num segundo momento que é o de reduzir a circulação do vírus – hoje, o objetivo é prevenir o desenvolvimento de doenças graves.

E como temos falta do imunizante no país, a fila caminha conforme a oferta, ou seja, a passos lentos. Mas a iniciativa de vaciná-los deve ganhar esforço – e força – no país uma vez que tem se mostrado eficiente e este é um grupo que foi extremamente afetado pela pandemia até agora.

Para Becker, a vacinação deste grupo vai contribuir não só para uma maior segurança na volta às aulas e na retomada do convívio social, tão importante para eles, quanto para reduzir a circulação do vírus através de uma cobertura vacinal ampliada. “Isso é fundamental. Mas antes, precisamos garantir a vacinação das faixas etárias mais velhas e das pessoas com comorbidades, e assegurar que a vacinação chegou aos mais pobres”.

Privados do convívio social justamente na fase em que é este que impulsiona crescimento e desenvolvimento, crianças e adolescentes provaram, em larga escala, o gosto amargo da ansiedade, depressão e outros distúrbios. Não temos ideia das sequelas que vão carregar, mas os efeitos colaterais de um ano e meio de pandemia estão aí.

“Não é fácil ser adolescente nos dias de hoje”, fala Becker. “De 2007 a 2018, houve um aumento de cerca de 60% na depressão e suicídio de adolescentes. Isso acompanha o surgimento das redes sociais e a disseminação do uso maciço de celulares. Mas também estão implicados aqui questões sociais mais amplas, como a desconexão familiar, o confinamento entre quatro paredes, o exílio do ar livre e da natureza, o aumento da desigualdade, a competitividade extrema, consumismo e futilidade, a violência e a polarização política, e claro, as questões do desemprego alarmante e da crise climática iminente”.

“A pandemia agravou muito esse problema”, afirma o pediatra e nunca a vida de um adolescente foi tão marcada pela morte. Um hospital do Colorado recentemente declarou emergência médica devido ao aumento de 90% dos casos de tentativa de suicídio em adolescentes. “Certamente o isolamento afetou muito a saúde mental e emocional deles e precisamos de estratégias para superá-lo”.

A vacinação seguramente é uma delas e integrá-los ao Plano de Vacinação Nacional já poderia ser parte da política pública de combate a pandemia deste momento em diante. Já é possível pensar nas crianças e adolescentes de 17 a 12 anos, e poder vislumbrar esta faixa etária no cronograma de imunização dá lugar a eles de uma real possibilidade para romper este ciclo tão dolorido que a pandemia colocou todos nós.