Pesquisa revela que abuso de telas e uso excessivo das redes sociais provoca, além de doenças mentais, o que especialistas chamam de ‘auto distorção digital’

Se escondermos a palavra “pandemia” do título desta matéria, provavelmente, estaremos diante de algo sabido e conhecido por muitos pais. Mas ainda assim, muito difícil de ser administrado no dia a dia. O uso excessivo de telas e redes sociais, tanto por crianças quanto adolescentes, é uma das lutas mais duras da contemporaneidade entre pais e filhos.

Agora some a este contexto a pandemia e você terá um exponencial alarmante de casos e causos como revela pesquisa UFMG, Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com outras universidades do Brasil e coordenada pela neuropediatra Liubiana Arantes.

Mais de 6 mil pais de crianças e adolescentes foram ouvidos e uma das conclusões é que o uso durante a pandemia aumentou, extrapolando muito mais do que o tempo recomendado pela SBP, Sociedade Brasileira de Pediatria. Esta, recomenda, por exemplo, o tempo máximo de uma hora para crianças pequenas que ficaram, em média, quatro em frente a tela assistindo a desenhos e filmes no YouTube.

O mesmo aconteceu com os maiores que têm recomendação de duas horas diárias. Segundo 51% dos pais entrevistados, o tempo foi extrapolado excessivamente. Outros 24% responderam que os filhos tiveram entre duas e três horas de uso.

Uma outra pesquisa, Panorama Mobile Time/Opinion Box – Crianças e smartphones no Brasil, revelou um aumento de uso de telas entre a parcela de crianças de sete a nove anos durante a pandemia. Em um ano, o índice passou de 30% para 43%. Segundo os resultados da pesquisa, 19% das crianças dessa faixa etária utilizam smartphones diariamente por três horas, e outros 24%, por quatro horas ou mais.

Sabemos o quanto estes números, recomendamos pela SBP, já são difíceis de serem cumpridos em tempos normais, o que dirá ao longo do isolamento social em que crianças e adolescentes foram solicitados a passar ainda mais tempo de frente a tela por conta da migração das escolas para o ambiente remoto.

Sem dúvida esta foi a melhor forma de manter escola funcionando e as relações sociais relativamente vivas, mas ela mascarou contornos que eram bem delimitados dentro de casa. Muitas famílias impõem não só limite de tempo para uso, como restrições de navegação, e com a demanda por atividades escolares, trabalhos em grupo e ambientes de conversa, boa parte dos combinados foram derrubados.

O problema é que mesmo com o fim do isolamento social e retorno das escola às atividades presenciais, crianças e adolescentes continuam fazendo uso excessivo das telas e das redes sociais, o que tem causado dependência e vício, além de agravar e disparar problemas como depressão e ansiedade. Os especialistas também chamam atenção para a ‘auto distorção digital’.

“Meu filho tem 10 anos e percebemos que o problema era mais grave quando ele teve um ataque por conta do celular”, fala Sofia Almeida, mãe de um casal e arquiteta. “Ele passa o dia jogando com amigos e desconhecidos e quando dou limite e peço para desligar, ele fica completamente descontrolado. A última vez chegou a jogar coisas dentro do quarto e foi quando me dei conta de que algo estava errado”.

Segundo a neuropediatra Liubiana Arantes, quando estamos diante da tela o cérebro libera uma substância química chamada dopamina, a mesma liberada pelo uso de álcool e drogas.

“O cérebro nessa idade ele está amadurecendo, e esse amadurecimento vai depender tanto da genética da criança, quanto das experiências que ela vive no dia a dia. Se essas experiências estão restritas a um aparelho de telefone, esse cérebro não vai conseguir amadurecer de forma plena e saudável. As áreas do cérebro que não serão formadas no período que precisariam ser formadas, elas não vão formar posteriormente. Então, vai ter um prejuízo irreversível nesse amadurecimento cerebral”, explicou em entrevista concedida ao Jornal Nacional, semana passada.

Outra preocupação entre pediatras e neurologistas é quanto ao conteúdo que crianças e adolescentes têm acesso. Nesse período da vida, eles ainda precisam desenvolver funções executivas do cérebro, como controle dos impulsos, autorregulação e pensamento futuro, explica o psiquiatra Nagib Demes, diretor-presidente da Sociedade Cearense de Psiquiatria (Socep).

“O uso abusivo pode afetar funções relacionadas a planejamento e raciocínio e aumentar o risco de impulsividade, levando a perda do controle sobre o uso de internet”, aponta. “É a idade da autopercepção e da autocrítica”, complementa. E como se auto perceber e desenvolver uma autocrítica saudável diante de tantas imagens construídas nas redes sociais?

O REFLEXO DAS REDES SOCIAIS
Adolescentes têm enfrentado o reflexo da tela, que pode ser chamado de espelho, a duras penas. Seja pelo Tiktok, Ask,fm ou Instagram, as mais acessadas por eles, é possível maquiar a realidade e num momento em que está tão difícil viver o presente, nada melhor do que jogar um filtro sobre ele. Aplicativos de retoques em imagens, mudanças de fundo e cenários são algumas das ferramentas mais usadas.

“Minha filha tem um canal no TikTok com mais de um milhão de seguidores onde ela é outra pessoa”, conta David Bresser, advogado e pai de dois adolescentes. “Quando eu descobri, fiquei assustado e com medo porque eu não sabia como ela estava se apresentando fisicamente nas redes e não sabia como os comentários poderiam estar afetando o psicológico dela”, comenta.

O relato chama atenção para algo extremamente importante e que muitas vezes passa despercebido pelos pais. A preocupação é tão grande com o tempo de uso que se esquece do conteúdo apresentado e a relação que se estabelece com ele. E para uma criança ou um adolescente essa relação pode causar danos irreparáveis, como o suicídio. Sim, o cyberbullying não é causa de suicídio, mas é um disparador.

Os comentários de uma postagem são capazes de desestruturar por completo um adolescente. Lembrem que eles buscam aprovação e uma vez não aprovados, a retaliação pode caminhar para uma depressão profunda, ansiedade e crises. O não saber lidar com todo este contexto é preocupante.

Soma-se ao conteúdo, as imagens inatingíveis e temos o que se chama de “auto distorção digital” que é uma tentativa irreal e constante de atender a padrões de beleza e é aqui que os filtros entram como recurso.

Imagem modificada por aplicativo e filtro, utilizada por estudo da multinacional Dove

Imagem modificada por aplicativo e filtro, utilizada por estudo da multinacional Dove

Eles projetam padrões inatingíveis e não à toa, em julho deste ano, a Noruega tornou lei a obrigatoriedade de comunicar o uso nas redes. No Brasil, a pesquisa Dove Pela Autoestima, realizada pela empresa em dezembro de 2020, revelou que 35% das 503 meninas entrevistadas já se sentiram “menos bonitas” ao verem fotos de influenciadores e celebridades nas redes sociais.

A pesquisa também mostra que 84% das jovens brasileiras com 13 anos já aplicaram filtro ou usaram aplicativo para mudar a imagem em fotos. Além disso, 78% tentam mudar ou ocultar pelo menos uma parte ou característica de seu corpo que não gostam antes de postar uma foto de si nas redes.

A consequência disso não poderia ser pior. Meninas – e eu incluo aqui, meninos e transgêneros – não conseguem se reconhecer em imagens reais através das redes e acabam por provocar uma auto distorção da própria imagem. O que para um adolescente que está em fase de construção da própria imagem o efeito é devastador.

Na fase da vida em que eles buscam pelo reconhecimento da própria identidade e da aceitação em grupos e rodas, enfrentar tantos recursos disponíveis nas redes sociais acaba provocando baixa autoestima corporal. Dado comprovado pelo estudo da Dove onde 60% das meninas que passam de 10 a 30 minutos editando as imagens dizem ter baixa autoestima.

Além disso, a pesquisa informa que a baixa autoestima corporal é mais propensa em meninas que editam suas fotos (50%) em comparação com aquelas que não o fazem (9%). E 72% das garotas entrevistadas responderam sentir imensa pressão para serem bonitas. Agora eu pergunto, com tanta beleza diversa e com tanta pressão já existente no mundo, será que é preciso potencializá-las?

Neste cenário, a pesquisa aponta que as ferramentas educacionais, como as fornecidas pelo Projeto Dove pela Autoestima que incluem apostilas, atividades e vídeos online, possuem papel fundamental na construção das futuras gerações e, também, para fornecer novas habilidades para que pais e jovens estabeleçam uma relação mais saudável e positiva com as redes. ”

Educação é sempre uma ferramenta eficiente – além de fundamental. Sofia Almeida, arquiteta e mãe de dois pré-adolescentes fala da importância de conversas que tem acontecido na escola dos filhos. “A orientação preparou um ciclo de roda com os alunos quando percebeu que casos de ansiedade e depressão estavam aumentando na escola e uma das causas eram as imagens projetadas nas redes durante a pandemia”.

Para o bem e para o mal, as redes estavam cheias de imagens fortes e depressivas, assim como de pessoas lindas e maravilhosas durante um momento em que o mundo estava somando mortes. Com pouca maturidade emocional e pouco recurso para enfrentar o mundo, crianças e adolescentes adoeceram.

E a falsa percepção de que dentro de casa estavam bem e seguros, afastou muitos pais da percepção de que a vida diante das telas tinha se intensificado e migrado para algumas novas plataformas. Mas para Rodrigo Nejm, diretor de educação na SaferNet e pesquisador no PPGPSI-UFBA, é preciso desmitificar essa separação entre mundo real e virtual.

“É importante a gente entender que a internet faz parte da nossa vida. Ela é mais um lugar onde a gente vive, convive e encontra pessoas e as coisas que acontecem ali são reais. Os sofrimentos são reais e as alegrias também e é importante desmitificar esse lugar da internet como outro mundo, não só pelas leis, mas pela empatia ao outro, o respeito”.

“Cada vez mais é preciso olhar e entender que ambos, ambiente físico e virtual, fazem parte de uma mesma vida. Muitas vezes, é justamente por separar que os adolescentes acabam se comportando de uma maneira muito violenta na internet. A gente fala do termo de bem-estar e saúde na internet pra reforçar que o que a gente vive ali é real e os impactos são reais e precisamos falar a partir dessas experiências”.

Para Rodrigo, quando você desqualifica a experiência de uma criança ou um adolescente na internet, você está desqualificando um sentimento que é importante, legítimo e real, e também uma experiência de vida que é a experiência digital muito relevante para os adolescentes. “Desta forma estamos perdendo uma boa oportunidade de falar com eles sobre saúde mental, sobre sentimentos e respeito”, alerta.

Conversar com os adolescentes sobre como eles se sentem ao se depararem com o universo infinito de imagens e comentários ainda é a melhor saída para enfrentar o problema. Aprender a usar e se relacionar dentro dos ambientes virtuais é fundamental.

Assim como ensinamos e orientamos sobre comportamentos em sala de aula, festas ou eventos familiares, o mesmo deve ser feito às redes sociais. “É fortalecendo a cidadania digital que se combate atos violentos. Isto é postura ética”, reforça Rodrigo.

Pode parecer missão impossível estabelecer diálogo com adolescentes e jovens, mas existe uma conversa possível – e passível. Respeitar os sentimentos e as falas que eles trazem é um primeiro cuidado na construção dessa relação.

E construir relações seguras, de confiança e respeito são maneiras de manter a porta aberta do quarto para qualquer tipo de questão. Longe de ser fácil, longe de estar ao alcance de todos, mas um primeiro exercício é derrubar as barreiras do que separa pais e filhos quando o assunto são as redes sociais.