Minha geração (tenho 41 anos) praticamente só viajou de ônibus na infância. Não tínhamos voos domésticos como temos hoje. Não existia pegar um avião SP – Votuporanga, por exemplo. Íamos de ponta a ponta de ônibus. E demorava horas a fio. As estradas também não eram duplicadas. Mas era extremamente divertido viajar a noite toda de leito. Quantas vezes meu pai não colocou a mim e minha irmã dentro do ônibus e meu avô pegou às 5 horas da manhã na rodoviária de Votuporanga? Perdi as contas. Assim eram as viagens ao interior. Ou a à Bahia, um pouco mais velha depois. Ônibus sempre foi a primeira opção. Era prático, barato e ia a todos os lugares.

Mas o tempo passa, e com ele as coisas mudam. Natural. Frase óbvia essa minha. Hoje nossa primeira opção é o avião. Ele também vai a todos os lugares, é viável financeiramente (não diria barato) se comparado há 10 ou 20 anos atrás), mas não é prático. Vamos combinar que essa coisa de chegar tantas horas antes, passar por mil infravermelhos e esteiras, check-in, mala, check-out, fila, é um pé!

Último final de semana das Olimpíadas no Rio e lá vamos nós ver os jogos. Família toda, o que significa meus 3 três filhos juntos. Fomos de avião (passagem estava baratinha), e decidimos voltar de ônibus, pois as passagens de avião estavam caras e somos em cinco. Faz a conta. E independentemente de ter ou não o dinheiro, a pergunta era: vale? Vale gastar tudo isso pra voltar do Rio? Não, não vale. Ao busão vamos nós.

E que bacana poder fazer dessa volta uma parte da viagem. Porque, assim como meus filhos, muitos, e muitas crianças, não estão mais acostumados a pegar ônibus, a entrar numa rodoviária, a ficar seis horas quietinhos sentados num banco, e – arrisco a dizer –, descer na parada do ônibus e comer um salgadinho junto da galera. Nossas crianças estão acostumadas a serem servidas no avião. A escolher entre carne ou massa, e não coxinha ou espetinho de frango. Estão acostumadas com a pressa do tempo, com a velocidade. A olhar tudo de cima, ou por cima. E não a ver a paisagem passar pela janela. A esperar pelo tempo que leva tempo a passar. A olhar de igual pra igual.

Viajar de ônibus com criança não é uma experiência antropológica, muito menos um evento. Erra quem pensa pequeno desse jeito. É simplesmente parte da viagem. Como tantas coisas são parte da vida. E é dessa forma que o viajar de ônibus passa a ser enriquecedor. Porque apresenta o mundo mais pé no chão. Como ele é e não como moldamos a eles. Sem ter que apontar o dedo a ninguém e dizer “olha”. Pra que lá na junventude eles saibam pegar uma mochila, por pôr nas costas, e ir. Simplesmente ir. Com a consciência de que o meio é simplesmente o meio. Como disse um amigo, Duda Soutello, “a viagem certamente entrega um pouco de verdade na vida dos pequenos… ademais, a viagem é superdivertida”. Concordo, Duda. Meus filhos também.