Dados da UNICEF acendem sinal vermelho para a saúde alimentar de crianças no mundo. No Brasil, em especial, o sobrepeso é a maior preocupação, consequência da má alimentação

Faça pratos coloridos, procure colocar pelo menos um verdinho, faça acordos, faça carinhas… Faça, faça, faça. A internet está cheia de matérias com dicas e ideias de como fazer crianças comer mais e melhor. Mas a realidade é que elas têm comido cada vez pior. Mais baratos e práticos, os alimentos altamente processados, fast food e trash food são os mais consumidos.

Experimente dar um Google na internet com “dicas de alimentação infantil” e você verá as muitas páginas que aparecem com ideias e soluções mágicas para fazer seu filho comer. Mas antes de criar estratégias para a criança comer mais e melhor, é preciso olhar para o que se põe à mesa. O que você tem servido a seu filho? Como escolhe os alimentos? Você cede às vontades e desejos de lanchinhos fora de hora e aos trash foods?

Segundo dados do Ministério da Saúde, o país tem uma a cada três crianças com sobrepeso, muitas já consideradas obesas. Em 2015, era uma para cada quatro. Relatório da UNICEF revela que 250 milhões de crianças no mundo estão desnutridas ou com sobrepeso. E apesar de sermos o país da fruta, do sol e da água de coco, as tendências globais se confirmam por aqui.

Uma a cada três crianças estão com sobrepeso

Uma a cada três crianças estão com sobrepeso

Nas últimas décadas, o Brasil reduziu significativamente a taxa de desnutrição crônica entre menores de 5 anos (de 19,6% em 1990 para 7% em 2006), atingindo, antes do prazo, a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Entretanto, a desnutrição crônica ainda é um problema em grupos mais vulneráveis, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2018, a prevalência de desnutrição crônica entre crianças indígenas menores de 5 anos era de 28,6%. Os números variam entre etnias, alcançando 79,3% das crianças ianomâmis.

Ao mesmo tempo, aumenta progressivamente o consumo de alimentos ultra processados (alimentos com baixo valor nutricional e ricos em gorduras, sódio e açúcares) e a prevalência de sobrepeso e obesidade no Brasil. Uma em cada três crianças de 5 a 9 anos possui excesso de peso, 17,1% dos adolescentes estão com sobrepeso e 8,4% são obesos. E estes números cresceram com a pandemia.

Muitas crianças e adolescentes fora da escola perderam a possibilidade de fazer a única refeição nutritiva no dia e aumentaram a quantidade de “lanchinhos”. E são exatamente estes lanches que, apesar da Política Nacional de Alimentação Escolar, ainda fazem da escola um ambiente obesogênico, com lanches de baixo teor de nutrientes e alto teor de açúcar, gordura e sódio.

E muitas famílias viveram o crescimento da má alimentação na pandemia. Sem dados oficiais da Saúde, mas com a coleta de dados em pesquisas, mães relatam o aumento excessivo de guloseimas, doces e salgadinhos dentro de casa. O tédio, a falta do que fazer e a inércia abriram espaço para as gulodices e desejos desenfreados. Claramente, uma maneira de compensação que crianças e adolescentes encontraram para suprir a falta de amigos, a escola e tantos outros pontos.

“Meu filho de 2 anos passou a comer mais e acabamos liberando mais bobagens: salgadinhos, balas de goma, bolachas durante a tarde”, conta Isa Martin. “Ele passou a pedir mais comida durante o dia também. Ele é filho único e está sem contato com nenhuma outra criança há mais de 3 meses. Alguns dias fica nervoso porque está dentro de casa sem poder passear. Penso que a comida é uma recompensa pelo que estamos passando”.

“A minha filha almoçava e jantava na escola, sou uma negação na cozinha”, fala Iris Ramirez, mãe de uma menina de 6 anos. “Está comendo pior e já dá pra ver na pele dela. Muito delivery de arroz, feijão e uma carne. Quando faço é massa, ovo e miojo”. E não para por aí. Os lanches que antes eram frutas, na escola, passaram a ser pizzinha, esfiha ou kibe. E a maior parte deles, Iris compra congelado. “Já tentei aplicativos de receita, mas só gasto dinheiro e não faço nada! Sem tempo, paciência e não gosto. O Ifood tem salvo por aqui”.

Rosa, filha da Iris em uma de suas refeições de quarentena

“No Brasil, como na maioria dos países da América Latina e do Caribe, crianças e adolescentes estão comendo muito pouca comida saudável e muita comida pouco saudável”, afirma Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil. “Por causa disso, hoje há uma tripla carga de má nutrição, em que desnutrição e deficiência de micronutrientes coexistem com o sobrepeso e a obesidade, associados a doenças crônicas não transmissíveis. Temos de capacitar crianças, adolescentes e suas famílias para que exijam alimentos saudáveis e, por outro lado, exigir a regulamentação da informação nutricional dos alimentos. A UNICEF defende o direito do consumidor de saber o que está comendo por meio de uma rotulagem frontal de alimentos, no formato de triângulo, que é facilmente compreensível a crianças e adultos”.

Alimentos ultra processados são mais baratos e práticos e não podemos desconsiderar a situação econômica das famílias para olhar os dados. Este é um problema sério que as autoridades precisam querer olhar. Mas existe outro fator que cabe as famílias brasileiras: a educação alimentar dentro de suas casas.

Ceder às vontades das crianças pode parecer um recurso mais fácil. Entregar o pacote de bolachas ou deixar com que troquem o almoço por um lanchinho pode aliviar a tensão momentânea da birra ou do ataque da criança. Mas a médio e longo prazo, os estragos aparecem não apenas na educação como também na saúde.

À medida que as crianças crescem, sua exposição a alimentos não saudáveis se torna alarmante, impulsionada em grande parte por marketing e publicidade inadequados, pela abundância de alimentos ultraprocessados nas cidades, mas também em áreas remotas, e pelo aumento do acesso a fast food e bebidas altamente açucaradas.

O relatório da UNICEF mostra, por exemplo, que 42% dos adolescentes em idade escolar em países de baixa e média renda consomem refrigerantes com açúcar pelo menos uma vez por dia e 46% comem fast-food pelo menos uma vez por semana. Essas taxas sobem para 62% e 49%, respectivamente, para adolescentes em países de renda alta.

Como resultado, os níveis de sobrepeso e obesidade na infância e adolescência estão aumentando em todo o mundo. De 2000 a 2016, a proporção de crianças e adolescentes com excesso de peso entre 5 e 19 anos praticamente dobrou, passando de um em dez para quase um em cinco. Dez vezes mais meninas e 12 vezes mais meninos nessa faixa etária sofrem de obesidade hoje quando comparados a 1975.

“Estamos perdendo terreno na luta pela alimentação saudável”, disse Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF. “Essa não é uma batalha que podemos vencer por nós mesmos. Precisamos que os governos, o setor privado e a sociedade civil priorizem a nutrição de crianças e adolescentes e trabalhem juntos para abordar as causas de uma alimentação não saudável em todas as suas formas”.

Para reverter este cenário, o Brasil precisa focar em políticas públicas para a prevenção do sobrepeso e da obesidade. Incentivar o aleitamento materno; a regulação do marketing para crianças (veja o Programa Criança e Consumo, do Instituto Alana); melhoria na rotulagem nutricional; e a promoção da alimentação saudável nas escolas, entre outras.

E precisa também da responsabilidade compartilhada. Cabe às famílias cuidar do que se põe à mesa. Um bebê gordinho não é sinônimo de saúde. Uma criança gordinha não é sinônimo de saúde. O sobrepeso tem consequências seríssimas pra saúde física e mental da criança e do adolescente. É preciso cuidar. Porque antes de serem crianças com sobrepeso são, apenas, crianças.