Em tempos de violência como resposta, filme infantil propõe o amor como solução inovadora

Um cientista inovador. Walter Beckett é funcionário de uma empresa de espionagem. Sua função é inventar soluções tecnológicas para combater o crime. E ele inventa. Mas a grande revolução de suas engenhocas não tem nada a ver com tecnologia. Tem a ver com uma inversão de sentidos. Numa metáfora brilhante de quem propõe aos humanos o fim da luta armada. Como quem carrega a convicção de que fazer o bem ao próximo é capaz de combater o mal.

“Não dá pra salvar o mundo com purpurina”, diz o espião Lance Sterling ao ver o atirador que o menino inventou. “E se desse?”, provoca Walter como quem pede ao outro que considere. Sem antes dizer não. Como quem tem forte um acreditar que parece simples, mas que em tempos de violência como resposta, é revolucionário.

“Só quero unir as pessoas e não fazer com q elas se odeiem”, diz. “Juntos, a gente pode vencer o mal com bondade”. Mensagem dada logo no começo do filme. Eu não precisava nem mais me preocupar se o filme tinha valido a pena. Bem que o Pedro tinha falado que eu ia gostar. “Filme de criança sempre tem uma moral, mãe. Você escreve sobre essas coisas, vai te inspirar”.

Me fez parar para pensar. Refletir. Ressignificar essa coisa de bem e mal. De lutas. Das diferenças que fazem as pessoas se atracarem nas redes sociais e purgarem tanta violência umas contra as outras. Como fazem os inimigos. Aos que querem guerra.

“Tem q usar fogo contra fogo” diz o espião ao olhar o atirador do menino que projeta a imagem de um gatinho fofo envolto de muita purpurina. “Se eu usar isso vou me queimar”. Não! Não vai. Porque “só existem pessoas e elas merecem ser salvas”. As pessoas merecem ser salvas. Escutem: as pessoas merecem ser salvas. A gente precisa entender que é importante salvar o outro. Salvar. Porque a gente precisa de gente pra ajudar outras gente.

E isso me fez lembrar o mandamento de João. “Amai-vos uns aos outros, assim como ama-te a si mesmo”. Parênteses: não, o filme não tem mensagem religiosa e nem eu aqui vou fazê-la. Volta: mas me fez resgatar o sentido histórico da palavra salvação. Não de sua etimologia, mas de sua história. A que ela surge? A que ela exerce função? Ainda que esteja atrelada a um contexto religioso, ela diz sobre gente.

Na teologia, o estudo da salvação se chama soteriologia e é vital para muitas das religiões. Fala sobre a salvação humana como algo que é um princípio de vida. Vital. Como a purpurina do menino que é cientista. Feito o Menino Deus de que canta Caetano. “Ligando os breus, dando sentido aos mundos…”.

Não tão esotérico assim. Só mesmo querendo juntar gente com gente. Pra fazer acreditar – ou re.acreditar – que somos possíveis como uma das espécie de seres vivos. “Que eu, que dois, que dez milhões. Todos iguais”.

Por mais filmes de criança com mensagens aos adultos. Por mais mundos em que a purpurina é capaz de ser salvação. Porque só existem pessoas e elas merecem ser salvas.