Há quem acredite que periferia vive apenas do funk e do tráfico. Há quem diga que Paraisópolis não tem biblioteca, muito menos parques ou praças. #sqn

Para conhecer uma Comunidade é preciso estar nela. É preciso viver nela – ou dela. Dia 1º. De dezembro, Paraisópolis ganhou os holofotes da mídia e da sociedade. Por um instante, lembramos que existe favela em São Paulo e que ela vive questões muito semelhantes a outras tantas Brasil afora. Lembramos que não estamos isolados de problemas sociais e que o tráfico e o funk são questões, também, paulistas.

Nas reportagens que saíram, em mídias diversas, numa delas a chamada: “Nenhuma biblioteca”. Nenhuma biblioteca. Mas como assim? Tem certeza? Com 100mil habitantes será que não tem uma só biblioteca, em Paraisópolis? “Vamos ligar lá e contar pra eles”, uns diziam – indignados.

Fachada biblioteca

Para conhecer uma Comunidade é preciso estar nela. A reportagem seguiu numa linha comparativa entre cá e lá, o Morumbi. Esqueceu que a melhor investigação seria in loco e não pelo Google.

Há dois meses, tenho subido as ladeiras de Paraisópolis, duas vezes por semana. Um trabalho me levou até uma das maiores favelas do Brasil. São apenas 5 ladeiras. As 5 primeiras de uma possibilidade imensa de Comunidade que se adentra por ruas e vielas. Mas são 5 ladeiras que fazem meu coração bater forte. E não é de medo não. Não se engane. É porque estar ali me faz, de alguma maneira, ser mais humana. Estar mais próxima daquilo de acredito como valor e contribuição que a gente tem de dar ao mundo.

Quase com 45 anos, tenho a certeza de que, um dos papéis sociais do meu trabalho, é poder usá-lo como voz a tanta gente que não tem voz. Escolhi contar o mundo pelas palavras. Escolhi olhar o mundo através delas. Esse é meu recorte e é por ele que trabalho parte dos meus dias hoje. Posso retribuir. Subir 5 ladeiras de Paraisópolis me fazem sentir gigante. Gigante de poder estar mais perto do que é o mundo, do que é o Brasil que a gente vive – ou vê através de tantos filtros.

Gosto do pisar no concreto. De sentir o cheiro, de observar as pessoas, escutar as conversas, espiar o comércio. Saber quanto custa o sofá, na loja de móveis ou quais modelos de geladeira eles vendem na loja ao lado. Gosto de saber o valor das frutas do mercadinho. De sentar no meio fio e fingir que estou arrumando o tênis só pra ficar um pouco mais. De parar e tomar uma água de coco antes de dobrar a última rua e ir embora. Não tenho medo de andar com meu Mac na bolsa pra cima e pra baixo. Não tenho medo de pegar o celular e tirar uma foto. Tenho medo do que tem lá fora. Dos camburões da polícia militar que fazem a espera.

Ah! Mas eu já ia me esquecendo de contar. Sabe o que tem depois dessas 5 ladeiras? Uma biblioteca. Sim! Tem biblioteca em Paraisópolis e ela é linda de morrer. O espaço, faz parte do Pró-Saber SP, Instituto que atua na Comunidade há 13 anos. E ele merecia ganhar título de “Biblioteca do Ano”. Mesmo. Porque não é todo dia, nem qualquer lugar, que pode encher a boca pra dizer que tem 3mil leitores. Sim, 3mil leitores crianças.

crianças lendo biblioteca Pro-Saber SP

São 15427 livros em acervo. Foram 43614 empréstimos feitos até novembro. 43mil! Olha o tamanho desse número. É o tamanho da grandeza de importância que esse espaço tem, não só dentro da Comunidade, como possibilidade de convivência e socialização, mas como possibilidade formativa de leitores e oportunidade de educação.

Aos sábados, tem contação de história. Foram 13 contadores este ano, pelo menos 1 a cada mês. Sem falar nos escritores e escritoras que passaram pelo Pró. Teve Antônio Prata, Ricardo Azevedo, Blandina Franco, Ivo Minkovicius e Patricia Auerbach, entre tantos outros. Dizem que criança não gosta de ler, #sqn. Eu já assisti a cena das crianças pedindo autógrafo a Blandina, dizendo ao Ricardo que ficasse mais e ao Antônio que contasse só mais história.

Uma biblioteca que carrega como eixo o de diminuir a desigualdade social. Porque quem trabalha ali acredita “que a leitura e a brincadeira tornam os seres humanos mais felizes”. E sabe quem trabalha ali? Jovens da própria Comunidade. “Acreditamos que histórias lidas diariamente fazem com que as crianças elaborem o mundo em que vivem”, fala Maria Cecília Lins, diretora do projeto.

Crianças, jovens e adultos. Porque a cada criança que entra pela porta da biblioteca, entra também uma família. A literatura tem essa força de se espalhar, se alastrar e entrar pelas vielas. Aquelas mesmas que dizem só rolar funk e tráfico de drogas.

O projeto Vielas do Pró-Saber leva livros para essas pequenas ruas que pouco se tem acesso. E os próprios jovens da Comunidade, que eles chamam de Multiplicadores, é quem fazem a contação de história às crianças. “Temos a convicção de que isso encharca a infância de palavras, poesias, viagens, encontros, espantos, alegrias e muitas possibilidades”.

Porque tem gente que acredita na infância. Numa possibilidade de ser humano bem mais humano do que aquele que a gente imagina morar na favela. Tem gente que não desiste do ser humano. Dai faz sentido trocar a palavra favela por Comunidade. Sim, com letra maiúscula pra ser substantivo. Porque somos a total tentativa de co.existir nessa vida. E isso é imenso.

E se você não puder subir as 5 ladeiras que eu subo, mas quiser conhecer o projeto e contribuir pra espalhar mais possibilidades de mundo por ruas e vielas, acesse aqui. Existe biblioteca em Paraisópolis, sim.