Já parou para pensar que levar uma criança ao teatro tem um caráter formador e pedagógico enorme? Muito maior do que o simples entretenimento. Nunca tinha refletido sobre o teatro na educação infantil até entrar numa aula de Corpo, Dança e Movimento, na minha pós-graduação. Obra da professora Maria Paula Vignola Zurawski, graduada em Artes Cênicas pela USP e atriz do Grupo Furunfunfum para Crianças, que nos provocou a olhar o teatro como linguagem em que o corpo está muito presente e que pode ser reconhecido, também, como expressão corporal pedagógica. Por que temos nas escolas aulas de música, artes e não teatro? Onde fica o corpo da criança na educação quando ela é só corpo?

O filósofo fenomenólogo francês Merleau-Ponty, observa que na infância o corpo é o veículo do ser-no-mundo, veículo da própria existência, por isso tem uma centralidade e define uma forma de se relacionar em que o corpo e a mente são vividos de forma integrada. Como provocar o autoconhecimento do corpo numa criança para que ela chegue na adolescência sendo capaz de conhecer seu próprio corpo e, principalmente, sendo capaz de lidar com todos os incômodos que aparecem com a idade?

São inúmeras provocações que nos colocam em contato com uma arte, uma expressão de linguagem, tão pouco explorada pelas famílias e pelas próprias escolas. Seja de forma curricular, seja pelas saídas. O que significa colocar um monte de crianças num ônibus e ir assistir a um espetáculo? É puro entretenimento ou é construção de conhecimento? Quantas escolas não colocam na mesma balança o “programa” teatro, zoológico e lanche no Mc? “Teatro está no rol de passeios da escola”, alerta a professora Paula. “É legítimo ir ao Mc, mas é papel da escola?”. Certamente não. Não num contexto pedagógico. Porque professores e escola são curadores dessas escolhas.

“Sendo arte da palavra, teatro é instrumento de conhecimento”, escreve o dramaturgo Aimar Labaki, no texto Teatro e Cidadania – da atualidade da arte cênica, 2002. “No momento em que a Educação vive uma grande crise de identidade e de valor, uma arte que permite a redescoberta das possibilidades da palavra exercitada em público, na reflexão dialógica, pode ser um instrumento estratégico para a construção de uma pedagogia de resistência”. E isso, por si só, já é um ato político de existir – ou existência. E há quem leia essa parte do texto e se choque, estrebuche com a palavra “política”.

Teatro infantil pode ser um ato político. E isso não significa apresentar um texto com frases e contexto político, mas falar de temas pungentes. Um espetáculo político é aquele que te faz refletir, te põe pra pensar, te convoca, traz questões e usa a experiência da criança na plateia – ou como plateia – para estabelecer esse diálogo. É a plateia como alguém que compõe a peça, mais do que o ato de participar. “Espetáculo que fala sobre o perguntar e que traz possibilidades de respostas”, comenta Paula.

“Perguntar é uma forma de relembrar aquilo que a gente esqueceu”, fala a atriz Juliana Sanches, do Grupo XIX, que apresenta o espetáculo Hoje o Escuro Vai Atrasar Para Que Possamos Conversar, inspirado no romance “De Repente, Nas Profundezas do Bosque”, do escritor israelense Amós Oz. – o primeiro infantil do grupo depois de 17 anos. A história se passa em um vilarejo onde os animais desapareceram. Algo aconteceu no passado que provocou a fuga dos bichos, mas ninguém gosta de tocar no assunto. Ali vivem os colegas Santi, Clara e Luna, que, depois de sofrer bullying, também desaparece. Desconfiados de que Luna teria sido raptada pelo Espírito do “não-sei-o-quê” do bosque, Santi e Clara partem para a floresta em busca da amiga. Uma metáfora para falar sobre algo que é político, o bullying entre crianças. Um teatro capaz falar sobre as relações de forma não explicita, mas em contexto social. Em algo que as crianças são capazes de se reconhecer como parte daquele enredo e questionar suas posições frente a essa questão.

“A peça, e o bom texto dramatúrgico, é capaz de sugerir uma conversa e a gente pode qualificar essa conversa”, aponta. Teatro como linguagem pedagógica exige boas perguntas e preparo – antes e depois do espetáculo. “Como eu, professor ou escola, posso preparar a ida das crianças ao teatro? E depois, como posso estender essa experiência para outros contextos?”, indaga. Certamente não é pedindo que a criança faça um desenho da cena que mais gostou. Assim como na literatura é raso pedir que se faça um resumo do livro após sua leitura.

Mas o que tem o teatro afinal que merece tanta atenção? Teatro tem jogo. Jogo de atores diante de uma plateia. Tem linguagem. Tem expressão. Teatro é corpo, ação e poética. Criança é corpo e eu só posso aproveitar essa possibilidade de corpo para me expressar e comunicar. “Sendo uma arte do corpo, o teatro é forma de resistência a uma virtualidade que impede o pleno desenvolvimento do ser humano. Sair de casa e comparecer a um evento ao vivo já é em si uma forma de resistência. Se for para partilhar uma palavra que permite uma reflexão, ainda que indireta, sobre a vida em comunidade, mais ainda. E os jovens resistem sempre, nem que seja por desarranjo hormonal”, escreve Aimar Labaki em seu texto.

Para fazer teatro, e também infantil não é preciso ter palco, nem texto decorado, nem papéis pré-definidos. “Teatro implica numa escuta, num respeito à palavra do outro. Palavra essa que é corpo”, fala Paula. “E se corpo é um mistério inacessível, uma incógnita, como chegar na adolescência sem conhecimento dessa linguagem?”. Certamente é um desafio, mas a linguagem do teatro pode ser de aprendizado e autoconhecimento sobre este corpo. Para um corpo potente. Um corpo político.

O teatro é necessário. Como linguagem pedagógica e social. Porque na vida – ou para a vida, é essencial saber se expressar. Teatro para crianças é muito mais do que entretenimento. A gente pode dizer o que pensa de diferentes formas e, certamente, o corpo é uma delas. Potente. E que deve ser qualificada. Para ser corpo expandido. Aquele que sai e extrapola. Assim como o espetáculo que deixa o palco e invade a plateia. O diálogo que constitui uma poética de um corpo integrado. Potente e político.

Viva o teatro!