Já pensou num espetáculo para uma plateia de 6, 8 ou 12 meses? Ele existe! E, acredite, os bebês ficam mais vidrados do que por telas de smarthphones

Se você é do time que acha a maior esquisitice levar um bebê de colo ao teatro sente para ler essa matéria. Embora já sejam encenados há, pelo menos, 10 anos nos palcos brasileiros, ainda é uma novidade para a público em geral. Ainda é um hábito a ser alimentado. Pais ou familiares de bebês não têm o costume de leva-los ao teatro por diversas razões. Acham que os bebês não vão ficar quietos, não vão prestar atenção, vai ser desinteressante e, até, pouco estimulante. Para quem está acostumado a telas de smarthphones pode mesmo parecer pouco o que acontece no palco. Mas é aí que a porca torce o rabo e a história muda por completo.

Era sexta-feira, 11h da manhã, no Sesc Av.Paulista. O espetáculo CUCO- A Linguagem Dos Bebês No Teatro, do grupo Caixa do Elefante, começaria em breve. O hall de espera estava lotado de carrinhos, bebês de colo, alguns irmãos um pouco maiores, mães (algumas amamentando), avós, amigas e alguns pais. O diretor Mário Ballentti recebe a plateia e pede atenção de todos para alguns avisos. Dos burocráticos a delicadeza dos sensíveis e necessários avisos. “Aproveitem para observar o que os filhos de vocês estão atentos”. “Pelo que eles se interessam no palco; como o corpo reage; quais sons que chamam atenção e procurem, quando for interagir, não pegar o celular. Aproveitem o momento para sentar junto com seus filhos. É uma oportunidade”.

Teatro para bebês é uma oportunidade – e das grandes. Oportunidade de esquecer o tempo do relógio e viver o tempo do bebê. Pela intensidade da experiência e não pelo tempo marcado do espetáculo. Priscila Hirata, mãe da Olivia de 8 meses estava impressionada com a atenção da filha durante o espetáculo. “Nunca pensei em trazê-la e nem achei que ela fosse gostar”, conta. “Quando vi as duas atrizes de branco no palco logo pensei que não seria nada estimulante para ela. Foi uma surpresa! Eu quero trazê-la novamente, com certeza!”, revela admirada. E não é para menos tanta admiração. O espetáculo é todo guiado pelo olhar dos bebês. Ele propõe um diálogo com a linguagem dos bebês, colocando-os como protagonistas e centro do processo de criação, mesmo quando na condição de espectadores junto a seus pais.

Uma experiência artística que nasce para aproximar bebês e crianças pequenas com as formas comunicativas da linguagem teatral e que, na investigação dessa linguagem, possibilita processos e relações com o mundo. A poética do espetáculo é motivada por aquela que parece ser uma das primeiras experiências lúdicas e estéticas dos bebês, o jogo entre esconder e achar, o Cuco, um universo em que a surpresa do começo, da primeira vez, transforma a manipulação de objetos do cotidiano em pequenas histórias.

Tem cor, tem sons, tem texturas e tem sentidos. Tem todo o contexto de descobertas que faz parte das vivências dos bebês na Primeira Infância. Ali é pra sentir, experimentar e vivenciar. Uma descoberta e uma possibilidade incrivelmente delicada e sensível. Onde cada gesto propõe aos bebês interações e sinapses. Basta olhar primeiro, pra depois tocar. O espetáculo, faz um convite, gradual. E é visível como eles compreendem esse jogo. Aquele bebê que você achava impossível de manter quieto e sentado assistindo algo, está ali quieto e atento a cada gesto em cena. Pequenos movimentos corporais, lentos e algumas vezes repetitivos chamam a atenção dos que estão na plateia. Existe uma identificação do que acontece ali com o que acontece com o próprio corpo. O que ele vê em cena é também o que ele faz.

Atrizes em cena cobertas por colchas enormes e coloridas

Cuco traz 3 mini-contos em seu roteiro e o primeiro deles é justamente uma reprodução das descobertas corporais e sensoriais que os bebês fazem. Um estudo que se baseou em Emmi Pikler, a pediatra húngara que introduziu novas práticas e teorias na Educação Infantil. Isso porque quando Mário estava pensando sobre a concepção do espetáculo, fez questão de cercar-se de uma equipe multidisciplinar e pedagógica. Uma das pessoas chaves nesse trabalho, foi o pedagogo Paulo Sergio Fochi. “Viajamos para Itália e Espanha para assistir vários espetáculos e sua larga experiência e conhecimento na pesquisa acerca de bebês e de crianças pequenas nos asseguraram a realização de um trabalho sério e responsável”.

E é essa primeira parte do espetáculo em que os bebês se reconhecem no palco por meio dos movimentos corporais das atrizes que eles se sentem seguros e elas, as atrizes, ganham a confiança deles. “Eles as olham como alguém parceiro”, revela Mário. “Isso porque elas não são personagens e sim atrizes em estado de jogo com os bebês”. Um jogo que começa quase que em branco e com uma música suave. Aos poucos, as atrizes vão revelando cores e o palco ganha novos objetos. Tudo muito simples, mas tudo no tamanho que deve ter. São boias, triângulos, túneis, bolas, bolinhas e bolonas num enredo de “sumiu…achou”, das brincadeiras preferidas dos bêbes. “Essa brincadeira ficcional, de criar e dar sentidos, toma forma num ninho, numa cama acolchoada. Espaço que acolhe fantasias, surpresa e tudo o que é possível a uma criança colecionar”, conta Ballentti.

Os bebês agora falam, “gritam” e se manifestam pelos sons. Mas só eles. A palavra no espetáculo é guardada. Não porque se duvide que os bebês consigam compreender, mas pela crença de que a criança se comunica por diversas linguagens, por cem, como diria Malaguzzi. São variadas as formas como os bebês entram em interação e, por isso, compõem a complexa gramática que significa adentrar na produção do espetáculo.

Os bebês agora querem tocar. Querem sair dos colos e experimentar. Começa a 3ª parte do espetáculo, depois de 20 minutos passados, onde o convite é feito a experiência sensorial com o corpo todo. É hora então de avançar nas descobertas. O enredo se encarrega de estimular a curiosidade dos bebês e é por conta deste convite que eles vão elaborar hipóteses para testa-las através dos sentidos. Os bebês entram em cena junto com seus familiares. Tocam bolas, bolinhas e bolonas. Alguns já sabem que bola é pra jogar e jogam. Outros ainda estão na descoberta daquela esfera. Testam o material com o corpo. Rolam por cima, deitam e escorregam. Um aprendizado que acontece inteiramente com o corpo, enquanto o cérebro faz sinapses. “Porque é assim que os bebês aprendem nessa fase e o teatro é uma garantia desse conhecimento. É uma das possibilidades”, revela Mário.

Bebês e crianças entram no palco e interagem com objetos de cena

O espetáculo é uma plateia cheia de perguntas com muitas respostas que o palco entrega. Uma experiência de dar e receber entre teatro, arte, bebês e adultos/ famílias. Ao qual propõe aos pais que abram mão das suas certezas para criar novos horizontes e novas possibilidades. Eles saem surpresos do teatro. De olhos grandes e arregalados, assim como os bebês. O convite aos adultos também é intenso em descobertas e que delícia poder ver pais e filhos brilharem juntos, num só palco. Teatro para bebês enche plateia. Enche a vida de memórias. Enche o educar de sentidos. Um viva ao teatro!