Tem um assunto aí que precisamos lidar. Esse do acesso fácil das crianças e dos adolescentes a pornografia na internet. Essencial quando falamos, também, do respeito a mulher e a seu corpo. Quando falamos do sexo consentido. Porque se continuarmos a permitir essa banalização do sexo vai ser difícil educar essas crianças para o respeito com o outro, com o corpo do outro. Para o que chamamos de intimidade.

 

Quando você tem uma criança que, por curiosidade ou mesmo sem querer, cai em paginas de sexo na internet e ela assiste aquilo, primeiro vai tomar um susto porque vai achar agressivo. Só que vai ser tão agressiva a imagem que ela vai ver de novo. Sabe aquela sensação de filme de terror que dá pânico, mas você não para de ver? Mais ou menos isso. A criança vai continuar a procurar pelo tema na internet e vai assistir diversos filmes. De maneira que aquilo vai se tornar banal. Banal porque não tem sentimento envolvido. Não tem amor. Sabe aquele trecho da música da Rita Lee em que ela fala “Sexo é pagão/ Amor é latifúndio/ Sexo é invasão/ Amor é divino/ Sexo é animal/ Amor é bossa nova”? Então…

 

Acesso muito fácil hoje em dia. A tudo. Qualquer coisa que se quer saber, basta uma busca e está lá. A internet é a enciclopédia virtual dos novos tempos, e com uma biblioteca de consulta vasta e ampla. E quando se trata de relações sexuais, ou sexo, a coisa escancara de uma forma assustadora. A pornografia está ali pra qualquer um. Os meios digitais tornaram muito fácil o seu consumo. Isso leva a uma distorção do aprendizado sobre o que é uma relação sexual, o conceito de carinho, o entendimento de que o sexo não é um ato performático, mas sim um ato de amor. “Os adolescentes acabam tendo uma visão estereotipada do que é sexo”, fala dra Diana Vanni, ginecologista e obstetra. “E acabam construindo uma expectativa muito mais agressiva e perfeita do que seria o sexo. Sem falar que perdem algo valioso que é o aprendizado pela intimidade”, completa. Por terem relações nem sempre com namorados, ou namoradas, acabam banalizando o ato, e o excesso de exposição a pornografia na internet tem grande responsabilidade sobre isso. “No fundo não é o que elas e eles queriam. Perdem a oportunidade de aprender a transar com intimidade e mais conhecimento do próprio corpo”, completa a dra.

 

O que fazer? Porque vamos combinar que vai ser difícil você controlar todos sites e palavras que seu filho coloca na internet. E mesmo com todos aparatos de segurança e bloqueios de sites, ainda se corre o risco. “Conversar sempre, claro, mas é preciso dar exemplo também. O sexo não pode ser um assunto tabu para os pais”, explica a dra. “Tem que falar de masturbação, por exemplo. Tem que ensinar que é normal sim, é prazeroso sim e que dentro da sua intimidade ele pode fazer. Meninos e meninas”. Mas o que a dra Diana ressalta é que normalmente os pais não tiveram esse tipo de educação e, sem perceber, acabam inibindo a criança e o adolescente, o que inibe o diálogo também. Com falas como “ei, não põe a mão ai” ou “não pode ver a mamãe pelada”. Por que não? Pode e deve! É em contato com o mundo real, com os corpos reais, e a realidade que a criança vai formando seus ideais na cabeça. Você não só desmistifica o corpo perfeito como sexo perfeito. Então cuidado com os “não pode fazer isso” ou “não põe a mão aí que é feio”. Ensine. Sempre melhor ensinar dentro de casa do que deixar o mundo ensinar do jeito dele.

 

Já viram a série americana Chelsea Does? De forma descontraída e bem-humorada a apresentadora traz temas polêmicos para serem discutidos. Um programa superengraçado, protagonizada pela comediante e atriz Chelsea Handler. E que recentemente abordou os efeitos nocivos que a pornografia pode fazer surtir, equiparando-a ao vício de uma droga, numa geração de jovens, hoje na faixa dos 30, que cresceu com acesso livre à internet. Uma vez sem filtros, crianças que precocemente acessam esse tipo de assunto ficam viciadas ao ponto de prejudicarem sua saúde. O efeito da dopamina é tanto que estudos da neurociência comprovam a relação direta com disfunção erétil. Pensem o quanto o sexo é banalizado com esse tipo de estímulo. O quanto crianças desprotegidas a esse acesso crescem desvirtuando seus valores. Será que a violência não vem dessa frustração de prazer? Provável que em parte sim, parte sabemos que vem da cultura machista que também esta presente na mesma pornografia. É sempre a mulher que é “comida” e o homem que “dá”. Vejam como as palavras relevam mais que uma ação.  Falar de educação sexual não é apenas importante do ponto de vista educacional, mas, obviamente, do ponto de vista social.

 

Em entrevista recente ao site G1, da Globo, o cineasta Jill Bauer responsável pelo documentário Hot Girls Wanted, que mostra a realidade de meninas novas que deixam cidade e casa para se tornarem atrizes pornôs, deixa claro o fácil acesso ao conteúdo que os jovens podem ter. “Se seu filho tem acesso ao Twitter pode acompanhar essas estrelas do pornô e ver conteúdos explícitos o dia todo”, é a frase dele na entrevista. Veja bem como é fácil e como é banal. Sem contar o uso das redes sociais como ferramentas de marketing. Soma-se a tudo que eu já falei o culto pela aparência. A exaltação daquilo que é visto como algo poderoso. Pra um adolescente que está começando a vida interna própria isso é um tiro na alma. O assunto é sério. O assunto é amplo e abre muitas margens e muitas frentes.

 

Tenhamos consciência que a iniciação sexual de uma criança, ou de um jovem, deve começar com exemplos, modelos e diálogos dentro de casa. A descoberta do corpo é o inicio da vida sexual que a criança terá lá na frente. Se os pais tratarem isso como tabu, como assunto proibido, não vai ter dialogo que dê conta de construir relação na vida adulta. Desenvolver o sentido do sentido do tato, desde pequenininho, é desenvolver a relação com o corpo e com o outro. Pra ter tato precisa de toque, de experimentação. Algumas vezes precisa do outro. Quanto mais desenvolvido e aguçado o tato de uma pessoa, melhor contato ela terá com as pessoas. Sabe a pessoa que tem tato pra lidar com os assuntos e pessoas? É a pessoa que tem o sentido do tato desenvolvido. Tato – contato – o tato com o outro. É o contato.