Enquanto as escolas não sabem quando retornam ao ambiente físico, famílias se organizam e contratam professores para que filhos possam ter aulas presenciais em casa

Segundo o último pronunciamento do Governo do Estado de São Paulo, “as aulas presenciais devem voltar ainda em 2020”. Mas o incerto é o que se tem de mais certo neste país e enquanto Escolas, Sindicato de Professores e Governo debatem, famílias buscam alternativas para garantir o mínimo do que se tinha na escola, mas agora, dentro de casa e em pequenos grupos.

Preocupados não só em assegurar os benefícios do aprendizado presencial aos filhos, mas principalmente em restabelecer os vínculos das relações que foram rompidos e cuidar da saúde mental das crianças, famílias contratam professores para dar aula em casa. Língua Portuguesa, matemática, atividades recreativas, educação física e alfabetização são as mais procuradas.

Gizele Paulino está há um mês com uma professora para a filha de 5 anos e conta que já percebeu a diferença no comportamento da menina. “A Giovanna é tímida e se incomodava muito com as aulas online. Tem muito barulho e é mais difícil focar a atenção. Ela acabava ficando agressiva e não fazia muitas das atividades propostas. Agora está sempre feliz e fica empolgada com as aulas da Antônia. O caderno está todo caprichado. É outra criança”, descreve.

Giovanna fazendo atividades da professora em casa

Giovanna fazendo atividades da professora em casa

A agressividade e a apatia da Giovanna não são exclusivas a ela. Os índices de estresse tóxico nas crianças têm aumentado uma vez que estamos indo para o sétimo mês de quarentena. As crianças não têm a largueza de recursos emocionais dos adultos para lidar com todas as complexidades do isolamento por tanto tempo. E foi por conta desta preocupação que Renata Morrone se juntou a outras mães e formou um grupo de crianças, todas com 4 anos, para socializarem e restabelecerem os vínculos da escola.

“Não estávamos mais dando conta das aulas online e a interação entre os amigos estava fazendo muita falta”, conta Renata. “As aulas são totalmente lúdicas e estão sendo muito bem aproveitadas. No começo da semana, a professora passa o plano de aula pra gente e vamos atrás do material. No fim da aula, as crianças fazem um lanche como se estivesse na escola mesmo. Estão aprendendo muitas coisas, inclusive conceitos de português e matemática, através de jogos e brincadeiras. A dinâmica está muito mais parecida com a escola normal e as crianças são outras”, reforça.

Luigi, Leonardo, Manuela e Livia fazem parte de um pequeno grupo que tem aulas diárias, mas agora dentro de casa

Luigi, Leonardo, Manuela e Livia fazem parte de um pequeno grupo que tem aulas diárias, mas agora dentro de casa

O mesmo fez Mariana Furtado, mãe de um menino de 5 anos, quando, depois das férias de julho, percebeu que as aulas não voltariam. “Meu filho estava sem rotina e sem vontade de fazer as coisas da escola. Não dava mais. E com a professora mudou 100%”, conta. Jenifer procura desenvolver atividades lúdicas para o Gustavo que está se alfabetizando e além das aulas, “eles também acabam brincando bastante”.

Gustavo fazendo atividade passada pela professora Jenifer, agora em casa

Gustavo fazendo atividade passada pela professora Jenifer, agora em casa

O recurso de contratar uma professora para ir em casa, de fato, tem se mostrado uma saída para muitas famílias e crianças. Uma vez que a preocupação está voltada em reproduzir espaços, atividades e relações que aconteciam dentro de uma escola, mas estão sem perspectiva de retorno. “Sabíamos que, com o tempo, a saúde mental das crianças ia ser atingida e a necessidade de se relacionar com os pares precisaria ser resgatada”, fala Janaina Yoko Nascimento, terapeuta ocupacional no desenvolvimento infantil.

Preocupada com as sequelas emocionais que as crianças poderiam ter, sugeriu a uma turma de amigos que formassem grupos para as duas idades de filhos e contratassem uma professora. “Com a abertura dos parques, começamos a nos encontrar para andar de bicicleta e fiz a proposta a esses amigos com quem já trocávamos carona durante a escola. Depois de 5 meses de pandemia, entendemos que precisávamos formar uma bolha e circular nela”.

Isadora, Aurea, Chico e Pedro têm 5 anos e constituem o que os pais estão chamando de mini-escola em casa

Isadora, Aurea, Chico e Pedro têm 5 anos e constituem o que os pais estão chamando de mini-escola em casa

São quatro famílias, todas com o mesmo perfil de cuidados e gerenciamento. O grupo pediu desconto na mensalidade da escola e com o valor contrataram a professora que dá aula para duas turmas de crianças em diferentes faixas etárias. As aulas acontecem cada dia na casa de uma família e depois de quase dois meses de aulas, todos são categóricos ao dizer que a socialização das crianças tem colaborado muito para o bom humor e pra qualidade do sono. “As crianças estão muito mais espontâneas, mais íntegras e felizes”, reforça Yoko.

Professora Ana Caroline durante aula com turma de crianças de 3 anos

Professora Ana Caroline durante aula com turma de crianças de 3 anos

E há quem tenha demorado pra fazer o movimento e diz ter se arrependido. Foi o que contou Teresa de Paula, mãe de um menino de 3. “Uma amiga está fazendo esse esquema de professora em casa já tem um bom tempo e só relatou benefícios para o filho”. “O meu estava muito sem rotina, querendo ver desenho o dia todo, ficava irritado, impaciente. Isso mesmo a gente estando no interior, com jardim pra ele brincar e as primas para interagir”.

Teresa resolveu contratar uma professora de Educação Infantil para ir em casa e logo passou de 2 vezes na semana para 3 quando percebeu os benefícios. “Ela se baseia no conteúdo da escola dele de São Paulo, onde ele continua matriculado. Ainda chamei um professor de Educação Física. Como nossa renda não foi afetada pela pandemia, não vimos sentido em parar de pagar a escola uma vez que a gente acredita que a educação é fundamental para o crescimento de qualquer comunidade”.

O mesmo já não pôde fazer Patrícia Rocha, mãe do Guilherme, 5 anos. “Eu tirei ele da escola agora e fiz a escolha por contratar duas professoras, que já foram professoras dele, para vir em casa”. As aulas, português e inglês, ocorrem 3 vezes na semana com duração de 1h cada. “Meu objetivo foi mantê-lo em contato com o idioma inglês e com as atividades de português e matemática que fazia na escola. Quero apenas mantê-lo em contato com o aprendizado”. Patrícia diz que o filho não sente falta das aulas online, mas sim do espaço físico da escola e dos amigos, com quem ele segue conversando via chamada de vídeo.

As aulas em casa possibilitaram Guilherme estar ao ar livre enquanto aprende inglês com a professora Natally

As aulas em casa possibilitaram Guilherme estar ao ar livre enquanto aprende inglês com a professora Natally

Com mais ou menos recursos, o que o tempo de pandemia tem mostrado é que crianças e adolescentes estão esgotados dentro de casa e que as aulas online não dão conta de garantir as interações e relações tão necessárias a ambas faixas etárias. É mais do que sabido por professores, educadores e instituições o papel fundamental que a escola tem na constituição de um sujeito. É também sabido por famílias agora.

E ainda que professores estejam fazendo um esforço descomunal para que ninguém atravesse o ano com a sensação de “ano perdido” (porque não tem ano perdido), é impossível dar conta das trocas que acontecem dentro dos contornos de uma escola. É sabido que quando duas crianças sentam lado a lado para fazer uma atividade juntas e podem escutar a voz uma da outra, ter olho no olho, as trocas são muito mais significativas.

Falta o olho no olho. Falta o toque. Falta escutar a voz do amigo bem de perto. Falta tanta coisa. Falta. Sabemos disso. E enquanto o Governo empurra a difícil decisão de reabertura das escolas para depois das eleições municipais e estaduais, pais e mães dão conta de resolver como podem a vida escolar de seus filhos. Parece que quando o incerto é o que se tem de mais certo num país, cabe a cada um tomar as próprias decisões.