Com a retomada das atividades presenciais, escolas reforçam a importância do acolhimento entre adolescentes, famílias e professores

Muitas escolas já retomaram as atividades na capital, mas o Ensino Médio ainda se prepara para abrir as portas. O momento tem sido chamado de “acolhimento” pelas escolas e órgãos do setor. Não à toa a escolha foi feita. Depois de sete meses de portas fechadas, voltar a circular pelo pátio e caminhar pelos corredores exige, não só uma nova adaptação de todos, como muito amparo e acolhimento. E será que os jovens estão prontos?

“Ninguém está pronto para o retorno”, afirma Ana Bergamin, coordenadora pedagógica do Ensino Médio, da Escola Vera Cruz. “Estamos todos – alunos, educadores e famílias – nos preparando para isso”. Segundo Ana, o momento exige muita escuta e rodas de conversa. “Há uma elaboração de medos, desejos, saudades em curso, ao mesmo tempo que há um preparo objetivo para o cumprimento de protocolos restritivos muito necessário para que se possa voltar a viver na convivência com grupos maiores”.

Tudo isso em meio a grandes incertezas, muitas perguntas, informações contraditórias e posicionamentos variados. “Para os jovens, essa polifonia representa um enorme desafio! E os sentimentos também são polifônicos. Precisamos ainda considerar que os jovens são diversos, as famílias em que vivem são diversas. Temos jovens encorajados para voltar, sentido que estão prontos ou com a coragem necessária; temos outros jovens que já declararam que não voltam, muito assustados, entendendo que sua segurança está em casa. Vamos precisar lidar com essa diversidade. Acolher a diversidade”, fala Ana.

Pátio da escola Vera Cruz vazio, à espera da volta dos alunos

Pátio da escola Vera Cruz vazio, à espera da volta dos alunos

Voltar à escola significa retomar um aspecto importante da vida desses jovens. A escola é o principal lugar de sociabilidade de crianças e jovens. A escola, de certa forma, é um mundo em si, onde o cotidiano das relações familiares fica suspenso para outros exercícios de convivência. É o lugar do exercício da alteridade, fundamental para a convivência em sociedade. “Voltar é recuperar parte da vida social que ficou suspensa com o isolamento. É, justamente, sair do isolamento. A escola é fundamental para esses jovens!”, reforça Ana.

Ana Bergamin, coordenadora do Ensino Médio, da Escola Vera Cruz em conversa com alunos

Ana Bergamin, coordenadora do Ensino Médio, da Escola Vera Cruz em conversa com alunos

O mesmo acredita Eliane Leite, diretora da ETEC Pirituba que, há meses, prepara todo corpo docente da escola para receber os jovens este mês. “A escola tem um papel fundamental de socialização, construção de vínculos e afetos, principalmente neste ano tão atípico que afetou muito os jovens”. O acolhimento desses jovens será fundamental para tornar o ambiente escolar mais acolhedor e seguro.

A pandemia trouxe oportunidades para as escolas trabalharem as competências socioemocionais dos jovens e promover aprendizados de como lidar com os medos, inseguranças e frustrações. “Os jovens passarão por um processo de adaptação a uma nova rotina, como levantar cedo, usar transporte coletivo, assistir aulas sem mexer no celular, enfim, retomar uma dinâmica que vai demandar mais resiliência”, retoma Eliane. “Nessa fase de adaptação é comum eles ficarem ansiosos, irritados e eufóricos. E sempre questionadores porque vão ter que lidar com mais normas, protocolos e regras. A equipe escolar estará atenta aos sinais e preparada para ouvir e acolher”.

Eliane Leite, diretora da ETEC Pirituba, durante conversa com alunos do técnico

Eliane Leite, diretora da ETEC Pirituba, durante conversa com alunos do técnico

Mas os jovens adolescentes estão desejosos de tudo isso. Há uma alegria e ansiedade perceptível de volta nas falas dos alunos durante conversas com orientação e professores, no ambiente virtual. “Não é uma alegria tranquila, leve. Voltar é reapropriar-se. Numa condição ainda difícil, ainda temos o vírus circulando na sociedade”, relembra Ana Bergamin, da Escola Vera Cruz.

Esse momento é o que as escolas chamam de “desisolamento”, quando será preciso enfrentar o medo e o risco de voltar e deixar o ambiente seguro das casas. “Criamos na escola uma comissão de retomada formada por professores, psicólogos e funcionários para preparar esta volta às aulas”, conta Eliane, da ETEC Pirituba.

Para ajudar nesse processo de adaptação, a escola continuará com o suporte de profissionais de psicologia dirigido aos alunos e professores, pois acredita ser fundamental manter o espaço de escuta sobre os anseios e medos que podem surgir. “Vamos desenvolver também um projeto com os educadores físicos para estimular a prática de atividade física e combater o sedentarismo. Sabemos o quanto a atividade física pode contribuir para a saúde mental”.

A Escola Vera Cruz também conta com uma equipe de acolhimento. Um grupo de psicólogos escolares tem feito um trabalho intenso de acompanhamento de toda experiência do isolamento. “Temos professores muito atentos aos sinais, às palavras dos alunos nas aulas diárias. Vamos todos lidar com esses sentimentos e as demandas que eles possam originar, com as ferramentas que usamos sempre na escola: escuta, sensibilidade, diálogo. Acolhimento é a palavra que escolhemos para nos guiar”, fala Ana.

Biblioteca da Escola Vera Cruz pronta para o retorno dos jovens

Biblioteca da Escola Vera Cruz pronta para o retorno dos jovens

“Sabemos de nosso papel de referência para os jovens. Temos buscado olhar para o sentimento coletivo, que nos une planetariamente: não estamos vivendo tudo isso sós, apesar do isolamento. Essas emoções atravessam hoje todos os jovens do mundo, que foram privados de suas escolas, da convivência com seus pares, das trocas diretas para a aprendizagem. E porque não estamos sós, podemos enfrentar os desafios de modo calmo, devagar. Não é hora de ter pressa”, reforça.

Até porque o momento também exige uma série de cumprimento de novas normas. A apropriação dos protocolos e a construção de guias para a convivência também tem sido uma etapa importante nessa preparação. E as escolas têm um papel a cumprir ao receberem os jovens. Segundo Ana, “um lugar de adulto que oferece referências para que juntos possamos recuperar nosso espaço escolar”. Isso demanda uma preparação emocional também da equipe de profissionais que trabalha em conjunto, colabora e cria.

Do ponto de vista dos professores, o principal acolhimento se dá por meio do planejamento do trabalho pedagógico. A escolha das atividades que serão feitas dentro da escola é importante para que o encontro favoreça a troca, a escuta. Tanto com a equipe pedagógica quando entre os jovens. “Estaremos atentos, disponíveis, dispostos ao diálogo. E intensificamos as trocas entre nós, essenciais para o acolhimento e o acompanhamento dos alunos que voltarão aos poucos, para que possamos melhor acolher no primeiro momento de adaptação do coletivo da escola a essa nova condição”, reforça Ana.

De fato, a retomada às aulas exigirá de todos os profissionais das escolas, das famílias e dos adolescentes, resiliência, empatia, solidariedade. “E tudo vai passar”, relembra Eliane Leite.