Tem uma frase do austríaco Rudolf Steiner, percursor da antroposofia, que diz assim “todo educador deveria ser médico e todo médico deveria ser educador”. A frase está num dos seus pequenos livros de palestras. E é intrigante. No mínimo, coloca para pensar. Talvez porque nossa cultura ainda tem pouco do pensamento e do olhar do educador como um agente de saúde também. Talvez seja preciso se aproximar do conceito do cuidar para entender algo que estava lá no século 19, mas que é tão dos nossos tempos.

O que você, como pai ou mãe, busca numa escola de educação infantil ao colocar seu filho? Não existem dados do MEC para isso, mas existem os círculos de conversa. E em 90% deles, a primeira preocupação é que a criança ou bebê seja bem cuidado. Optar por tirar a criança de dentro de casa, do seu ambiente seguro e cheio de conforto e carinho exige muita segurança dos pais. Segurança esta depositada no verbo “cuidar”. Que escola vai cuidar tão bem do teu filho quanto você? Essa resposta não existe, mas a procura é por esta certeza.

Certeza também de que o filho não vai ficar doente, mesmo sabendo que esta será uma das condições. Quem nunca ouviu dizer que é só entrar na escolinha que fica doente? Pois é, acontece mesmo. Eles entram e muitos adoecem. E por diversas razões – nem todas médicas.

Mas a ideia de colocar um filho numa escola é ter um lugar em que ele será bem cuidado e irá aprender. Quando levamos esse mesmo filho ao médico, procuramos um lugar onde ele será cuidado e irá ficar bem. O verbo cuidar é transversal a educação e a saúde. Porque quem cuida, cuida do bem-estar de alguém. Quem cuida, cuida para a saúde. Para o ser saudável. É um ambiente escolar precisa ser saudável para proporcional o aprendizado e cabe ao professor essa missão. É o cuidar integrado ao educar.

Mas o que é um ambiente escolar saudável? Não quer dizer apenas ambiente claro, confortável, com brinquedos adequados, sala de descanso, espaços organizados e área externa apropriada aos pequenos. Ambiente escolar saudável é a garantia de que após fazerem uma atividade, o professor irá conduzi-los ao banheiro para lavarem as mãos e cada um vai usar sua própria toalha para enxugar. Quer dizer que na troca de fralda, a professora irá lavar suas próprias mãos entre uma criança e outra. Assim como irá limpar o trocador e garantir que bumbuns fofinhos não deitem no mesmo ambiente de bactérias.

Agora esse mesmo ambiente escolar saudável, deve garantir que os pequenos andem descalços, que brinquem no chão, que usem as mãos para experimentar tintas ou massinhas, que eles sujem as roupas ou uniformes. Roupa limpa e ambiente esterilizado não é sinônimo de saúde. O conceito é bem distante dessa versão que muitos pais e mães têm na cabeça. Quem lembra daquele vídeo que circulou na internet com uma mãe americana que deixou o bebê no chão do aeroporto? Ela foi massacrada pelo julgamento alheio. Assim como muitas escolas são massacradas quando terminam o dia com crianças “sujas” de brincadeiras e atividades. Afinal, são crianças pequenas e criança pequena não se suja, não é mesmo? Vamos manter todos limpos e esterilizados afim de garantir saúde.

Este tipo de comportamento chega a ser involuntário se a gente levar em conta a história da humanidade – e até dos animais. Como proteger um filhote de um animal maior com ele no chão? O erguer nos braços, o pegar no colo, está associado ao cuidar. Tira do chão para algum bicho não o comer. Mas isso nos tempos em que florestas eram florestas. Um senso comum que precisa ser desconstruído e repensado.

Porque promover a saúde num ambiente escolar exige que escola e educadores promovam mais embates. Internos e externos. E com a coragem e a certeza de quem sabe o que está fazendo e o faz para o bem do outro. É pensar no cuidado como base da saúde e da educação. “Saúde é o cuidado no cotidiano, individual e coletivo. Isso depende de uma política publica e de uma mudança de comportamento da sociedade”, explica Damaris Gomes Maranhão, Doutora em Ciências da Saúde e Mestre em Enfermagem Pediátrica, durante nossa aula de pós-graduação. Porque quem cuida, educa e quem educa, cuida.

obs. Pra terminar, tem um poema falsamente atribuído a Jorge Luiz Borges, famoso, chamado Instantes que cabe aqui e diz assim:

“Se eu pudesse viver novamente minha vida,
Na próxima, trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais,
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas
/levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais /entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares aonde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
/teria mais problemas reais e menos problemas imaginários
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada
/minuto da vida: claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
/não perca o agora
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
/uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse
/a viver viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da
/primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria
/com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo”.