Isso aqui não é show de calouro do Silvio Santos, mas resposta certa conta – e muito – pra mudar o rumo das coisas. Lá fui eu para uma palestra sobre infância. E como boa jornalista, sempre levo meu tradicional caderninho para tomar nota do que acho relevante e importante. Nesta, em especial, fui de mãos vazias. Achei que o que elas, Ana Lucia Villela do Instituto Alana e Estela Renner, da Maria Farinha Filmes, tinham a dizer não cabiam num caderninho de notas. Precisava ir com a alma. E lá fui eu. De alma.

Sai cheia. Cheguei em casa cheia. Dormi cheia. Acordei curiosa. 6h da manhã como de costume numa casa com 3 filhos que vão pra escola logo cedo. A gente se troca, toma café da manhã, tem o momento de fazer a lancheira e carro, pronto. Entre um sono e uma preguiça, eu pergunto aos meninos se sábado eles querem ir ao parque andar de bike ou ao shopping fazer alguma coisa. Resposta certeira: ir ao parque. Ufa! Eu respiro aliviada no meu silêncio interior.

Tive loja de confecção infantil por 5 anos. Vivia o varejo de sol a sol, de domingo a domingo. Levei-os pouquíssimas vezes ao shopping, ao meu trabalho. Escolhi levá-los mais ao atelier que era uma casa gostosa, com quintal, que tinha rolos de tecidos, uma mesa cheia de lápis, moldes e roupas penduradas. Inconscientemente, achei que era mais legal aprender como se fazia roupa do que como se vendia roupa. Até oficina de tie dye fui fazer na escola.

Paramos em outro farol. O caminho pra escola é longo. Eu pergunto se por acaso depois do parque eles querem tomar um lanche. “Sim!”. Onde? Querem escolher uma lanchonete que a gente ainda não conhece ou querem ir no Mc (Donalds)? “Mc Donalds???”, indagam horrorizados. Sabem que eu nunca faria uma pergunta dessa (séria). Estranham e respondem “uma lanchonete nova”.

Não pense você, que está lendo esse texto, que eles não gostam de Mc Donalds e que eu nunca os levei porque é tudo mentira. Mas eu fui me informar. Li a respeito, assisti a inúmeros documentários e ensinei os meninos a ler rótulos, a saber o que eles estão comendo e, por consequência, a fazer escolhas. Eles assistiram Muito Além do Peso, um dos documentários das meninas da palestra. Ficaram chocados com a quantidade de açúcar que tem dentro de uma latinha de DelValle. Descobriram que a batata frita do Mc é gostosa porque fica mergulhada numa água açucarada para inchar.

Mérito meu? Não. Mérito da vida. Que numa mudança de escola, anos atrás, me fez entender que não se coloca qualquer coisa na lancheira de uma criança. Mérito das inúmeras pessoas que trabalham com alimentação infantil e começaram pequenos movimentos de conscientização da sociedade. Mérito da maternidade que te desperta pra um mundo até então desconhecido. Você sai do seu umbigo e olha pro umbigo do outro.

Mais um farol e estamos já num último trecho até a escola. Pergunto pra eles se querem convidar alguém pra jantar conosco. Ou, se pudessem escolher quem quisessem pra jantar, quem escolheriam. Pergunta inspirada num desses vídeos que viralizam na internet onde crianças que veem pouco os pais, no dia a dia, são questionadas com a mesma pergunta que eu fiz. Resposta unânime delas é dizer que convidariam os próprios pais pra sentarem à mesa com elas e fazer uma refeição. Ufa! Os meninos não nos escolheram. Certamente porque estamos bem presentes no dia a dia deles. Mérito nosso? Não. Privilégio da vida. Que nos dá a possibilidade de poder barrar a vida profissional em momentos que a gente julga serem importantes. Que nos dá a possibilidade de viver com eles a infância.

E dai entram de novo as duas mulheres da palestra. Porque um dia sentei no sofá e fui assistir, despretensiosamente, o documentário O Começo da Vida. Achei que fosse ver algo bem maternal. Pah! Primeira infância tem impacto econômico. Uau! Essas meninas conseguiram ligar cuidados com bebês a economia mundial. Tirei o chapéu. Me rendi de alma a elas ali. No sofá, num dia qualquer, com o Netflix. Do sofá, despertei pra uma consciência maior do meu papel como jornalista que escreve sobre infância. Era eu, Carolina; era eu, mãe de 3 meninos; era eu, casada com o Daniel; era eu, parte da sociedade. Profissional, maternal, pessoal e social. Porque cada um de nós tem responsabilidade sob qualquer e toda criança da nossa sociedade e do nosso planeta.

Entendi aqui que o tamanho do abraço tem que ser maior. Entendi que pra algumas perguntas terem respostas “certas” a gente precisa ir com a alma. As perguntas que eu fiz aos meus filhos, elas, Ana Lucia e Estela, fizeram a centenas de crianças em seus documentários. Algumas respostas doem. Algumas respostas te arrancam sorrisos. Algumas respostas você enxuga a lágrima. Mas de todas elas, e por todas elas, você sai cheia. Fica cheia, dorme cheia, se sente cheia. Elas preenchem. Tanto as dúvidas quanto a esperança de que sim dá pra mudar. Só seguir em frente. O caminho está certo.