Sim, queremos. “Então vem por aqui”, disse Joanathan, menino de 11 anos, morador da ilha de Galos, no Rio Grande do Norte. Com cerca de 500 habitantes no vilarejo, Joanathan não quis nos mostrar sua casa. Quis que a gente visse sua escola.

Eu não quis perguntar sobre as coisas que ele aprendia ali. Deixamos que ele falasse apenas o que queria. “Viram. É ali”. Vimos. Cena de Brasil. Daquelas que só estamos acostumados a ver pela televisão e reportagens sobre educação. Daquelas extremamente distantes da realidade de qualquer um que paga uma escola particular.

Felipe, 10 anos, pergunta a Joanathan como ele vai pra escola. “A pé”. Só poderia ser, claro! Um vilarejo minúsculo no meio do nada, onde só o mar e vento se encontram, não poderia ser diferente. O que chega ali é só mesmo pelas ruas fofas de areia branca e macia. Água mineral, mantimentos, tijolos, papel higiênico. Tudo e qualquer coisa, chegam pelos barcos que levam e buscam moradores na cidade. Depois, cabem a eles carregar as sacolas no lombo até suas casas. Mas Felipe, assim como nós, mora numa cidade de 12 milhões de habitantes. Onde é possível ir de carro, ônibus, trem, metro, bike, patinete e, também, a pé para a escola. Daí que vem a dúvida.

A escola municipal de Joanathan não aparece nem no Google quando você faz uma busca. A do Felipe, está entre as melhores de São Paulo, capital que conta com cerca de 15mil escolas cadastradas no Ministério da Educação. Em pesquisa recente da Unicef, publicada em 2018, a ONG apresenta dados que assustam. Embora o País tenha feito grandes progressos em relação à sua população mais jovem, os avanços não atingiram todas as crianças e todos os adolescentes da mesma forma. O Brasil é ainda um dos países mais desiguais do mundo.

De 1990 a 2015, o percentual de crianças com idade escolar obrigatória fora da escola caiu de 19,6% para 6,5% (Pnad). Mesmo com tantos avanços, em 2015, 2,8 milhões de meninos e meninas ainda estavam fora da escola (Pnad, 2015). E essa exclusão escolar tem rosto e endereço: quem está fora da escola são pobres, negros, indígenas e quilombolas. 53% dessas crianças pertencem a famílias que ganham menos de um salário mínimo. Crianças como o Joanathan que vivem totalmente na periferia dos grandes centros urbanos.

“Além do desafio de acesso escolar, há quem esteja na escola sem aprender. O sistema de educação brasileiro não tem sido capaz de garantir oportunidades de aprendizagem a todos. Muitos meninos e meninas são deixados para trás”, revela parte do estudo.

Joanathan pergunta se queremos voltar pela praia ou por dentro da vila. Voltamos por onde passa o vento das praias do nordeste. O calor é intenso e qualquer brecha de ar é preferível. Logo entramos no mar. Os meninos começam a brincar. Mergulham, pegam jacaré, riem, falam e pulam.

Revolvem subir no joelho do Daniel e ver quem pula mais alto e mais longe. Vai um por um. Eram 6 meninos. Chegou a vez do Joanathan que sobe e ao se preparar para pular conta: “um, dois …meia”, e pula. “Um, dois…meia”, e pula. Joanathan tem 11 anos e está no 4ª. Já um ano atrasado. Logo, a gente, o pessoal da cidade grande, se entre-olha e pensa: “ele não sabe contar”. O apelido dele, nos dias em que passamos lá, virou “meia dúzia”. Na vila, ele é conhecido como “10%”. Basta um barco atracar no trapiche para ele aparecer do invisível e oferecer ajuda aos que chegam na ilha.

Partimos de Galos a outra praia do Rio Grande do Norte. No rio Punaú, crianças brincam do mesmo que brincávamos com Joanathan e contam “um, dois…meia”. Repetem “um, dois…meia”. A gente se entre-olha de novo. Joanathan sabia contar. A gente que não sabia que aqui se brinca dessa forma. Brincadeira popular com vocabulário regional. Simples assim. Bonito dessa grandeza. Porque mais bonito que conhecer lugares, é conhecer pessoas. Pessoas e as histórias que elas têm a nos contar.