As aulas recomeçaram. Volta o trânsito de São Paulo. Voltam os movimentos. Voltam também as filas de pit stop nas portas de escola e as filas de carros fora das filas. Isso. Há carros em fila fora de fila. O que mais há. Há também carros em cima de faixa de pedestre – em frente a porta da escola (isso, em cima daquela faixa que o seu filho atravessa pra entrar na escola). Há carros na porta de casas vizinhas à escola, afinal o que são 5 minutinhos as 7h da manhã na porta dos outros, não é? Há carros que estacionam nas esquinas porque é claro que ninguém vai querer fazer a curva a essa hora da manhã. Há carros também que param “só um pouquinho” na própria fila do pit stop porque precisam “resolver uma coisinha rápida”. Há carros em torno de todas as escolas cheios de pais mal-educados. Isso mesmo = mal-educados.

Não vou soltar a típica frase e dizer que, óbvio, estamos falando de pais de classe média alta, teoricamente educados, pois frequentaram boas escolas particulares e todo aquele blá-blá-blá sexista de classe. Acho preconceituoso – acho mesmo. Agora fica difícil explicar como pessoas com informação – in.forma.ação – são capazes de tamanho desrespeito à leis, normas e direitos da sociedade. O momento em que um pai/ou uma mãe pára o carro de maneira errada, por qualquer uma das situações que eu descrevi acima, ele está infringindo um código de convivência e harmonia social do qual ele faz parte e o filho dele que está ali, no banco, também faz. Como você ensina ao seu filho conceitos de certo e errado? Conceitos de civilidade? Conceitos de convivência, respeito, educação, obediência, honestidade…honestidade! Se pra tudo temos uma explicação egocêntrica, pra tudo temos o direito. Mas isso não é vida. Isso não é senso de sociedade e nem coletividade.

E as escolas tentam! Elas fazem campanha de educação de trânsito com os pais. Colocam cones e faixas para sinalizar o que pode e o que não pode. “Nós, profissionais da escola, temos procurado olhar cada vez mais o cotidiano da escola para identificar, nele, possibilidades para construir espaços e contextos para as aprendizagens das crianças”, fala a orientadora Maria Silvia Carneiro,,da Escola Vera Cruz. Ainda com tanto esforço, quantos pais eu já não vi descerem do carro, tirar o cone do lugar e estacionar!!! Oi?! Como assim você acha que pode descer do carro, tirar um cone e estacionar na maior tranquilidade do mundo? O cone não é enfeite. As leis e as regras não são enfeites. A vida e o respeito não são enfeites!

Que tal se as escolas fizessem um movimento e trocassem cones por crianças? Sério. Trocar objetos frios e feios, que as pessoas nem mais enxergam, por seres quentinhos e cheios de fofuras. Crianças, como os filhos que eles carregam nos carros, que digam “Oi, aqui é proibido estacionar”. Será possível sensibilizar pelos próprios filhos? Porque sabemos que são esses mesmos filhos que dizem aos pais, por exemplo, que não pode dirigir e falar no celular. Ou que não pode avançar no sinal vermelho. Ou que não pode estacionar na porta. Quem nunca escutou uma frase de repreensão do filho enquanto dirigia? É quando os filhos educam os pais.

No semestre passado, a Escola Vera Cruz fez uma linda ação pelo bairro onde está a sede do ensino fundamental 1. Coordenado pela coordenadora Angela de Lima Fontana, crianças foram convidadas a desenhar pequenas plaquinhas com dizeres civis aos pais que têm filhos na escola e usam o carro como meio de transporte. As placas foram fixadas em troncos de árvores e postes da vizinhança e dizem coisas como “Aqui tem gente que mora. Não pare na minha porta”. “Você gostaria que estacionassem na sua garagem? Veja aonde você está estacionando”, “Por favor, não estacione neste lugar. O morador pode querer sair”.

“Um de nossos maiores objetivos, no trabalho junto às crianças é levá-las a se perceberem parte de um coletivo e aos poucos serem capazes de se responsabilizar por esse coletivo”, conta Angela. “Acreditamos ser importante aproveitar esses espaços cotidianos, que possibilitam o engajamento efetivo das crianças e contemplam nossas intenções de ensino, para oferecer oportunidades de investigação e de cuidado com os espaços comuns”. “Esses exercícios levam a um comprometimento cada vez maior das crianças com o coletivo, a necessidade de cuidar desse coletivo, a atitudes mais solidárias e cooperativas tão necessárias à vida em sociedade”, complementa.

No Vera Cruz, as crianças de 2ª são as maiores no espaço que dividem e foram eles os convidados a participar dessa ação, já que são referência aos menores e tem por responsabilidade compartilhar o aprendizado com eles. Crianças de 8/9 anos estão em fase de auto percepção e não poderia ser melhor se perceber no grupo, na escola, na vizinhança e no bairro.
E foi pela vizinhança que tudo começou. Um vizinho procurou a escola pois estava muito aborrecido com algumas pessoas que estacionaram seus carros na garagem dele, impossibilitando assim a saída de sua casa. A dupla de professoras e a orientadora deste grupo localizou nesse episódio uma ótima oportunidade de trabalho.

Vieram várias ideias:
– Um grupo de crianças ficaria de plantão na entrada e saída para avisar as pessoas para não pararem no portão dos vizinhos.
– Escrever cartas para os pais.
– Fazer folder para entregar para todos os alunos da escola.
– Fazer cartazes.
“Depois de analisar cada uma das possibilidades e levantar como as regras de trânsito são normalmente comunicadas à comunidade, chegamos à decisão de confeccionarmos placas de trânsito que posteriormente foram colocadas em frente as casas com as devidas autorizações dos moradores”, conta a orientadora Maria Silvia.

O final de tudo isso? “As crianças conheceram um problema real, se comprometeram com ele e construíram, em grupo, algumas soluções. Os vizinhos se sentiram respeitados e cuidados. Para a comunidade escolar, percebemos melhor o entorno da escola, nos comprometemos com ele, além de nos perceber parte de uma comunidade que se cuida”. É a ideia do viver em comum, em comunidade, ou com-unidade / uma unidade única. Senso de coletivo que fica de lição e aprendizado aqui pra gente também que não somos vizinhos, não moramos no mesmo bairro, mas moramos na mesma cidade. Neste mesmo Brasil.