Porque a gente brincava na rua, ficava solto, tinha mais liberdade segura, tinha pé sujo, as brincadeiras eram mais coletivas, a gente se sujava, não existia internet… Ah, a internet! Que vilã que ela é da infância. Mais: que vilã que ela é da nossa vida. Será? Será que o problema é a internet ou o uso que se faz dela? Não será prepotência nossa pensar que na nossa época tudo era melhor? A nostalgia pode ser um sentimento muito cruel se vivermos tão acorrentados nela. Nostalgia boa é aquela que dá saudades, e não aquela que te guia.

Tenho escutado muito em reunião de pais, em círculos de amigos, que a infância de hoje não é boa como a de antigamente. Que essas crianças estão perdidas porque não sabem mais brincar. E que as brincadeiras são estranhas, esquisitas. Veja o Pokémon, por exemplo. São estranhos, são feios, têm nomes estranhos. Será? Ou será que somos nós que não estamos acostumados e familiarizados com eles? São tão feios assim ou estamos buscando, incansavelmente, enquadrar essas crianças num conceito de normalidade que é de outra geração?

São perguntas importantes de se fazer. Isso não exclui a consciência de que, sim, a infância hoje é um assunto sério. As crianças perderam muito espaço físico. Perderam desenvolvimento motor. Perderam a possibilidade de brincar na rua e voltar pra casa de pé sujo. Mas não perderam a espontaneidade da infância, que é inerente a eles e a qualquer geração. Isso lhes garante a capacidade de inventar, de imaginar, de criar. Brincadeiras, inclusive. E por que achar que as brincadeiras deles não são válidas? São. Mesmo permeadas de tecnologia ou imagens estranhas.

É preciso entender a nostalgia e entender essa geração. Eles têm muito a nos ensinar e vice-versa. Relações têm que ter trocas, senão ficam vazias nas teorias. Ficam vazias de trocas e diálogos. O prazer de um filho poder chegar para os pais e contar como se joga um jogo, ou como se brinca de algo é tão gratificante e importante, quanto os pais contarem do que eles brincavam. Relações são trocas. Não imposições. Esse diálogo que se abre para viver o que eles trazem como novo é o que vai fazer o elo da relação. É o que vai dar a possibilidade de sentarem juntos e brincarem. É o que vai te dar a possibilidade de escutar uma música da Radio Disney e aprender a letra pra cantarem juntos (e depois você poder acompanhar a turma ao show. sim! eles precisam de um adulto pra acompanhá-los). É o que vai te possibilitar escutar as angústias do teu filho na adolescência.

Se abrir pro que eles têm de novo e o que nos trazem como de outra época é abrir a possibilidade de construir uma relação mais verdadeira. Porque tem troca. Não tem a posição prepotente do adulto que acha que sabe tudo e que tudo que vem dele é melhor. Não é. Temos valores, referências e direções para passar e ensinar. Mas não somos donos da verdade absoluta. Precisamos, urgentemente, abrir a escuta. Parar de criticar, ganhar distância do que vivemos, e olhar pro que eles trazem com mais amor e acolhimento. Menos críticas, por favor.