Era uma vez o fim… Falar de morte é sempre uma dificuldade. A gente foge da palavra. Do sofrimento que ela carrega. Do peso que nem a gente, adulto, consegue dar conta. Falar de morte com os filhos é doído. A voz quase embarga e a gente não sabe lidar com tamanha dor. Falar de morte com as crianças nos coloca em lugares que não sabemos estar. Talvez porque eles não tenham a dimensão da morte ou talvez porque não queremos que eles tenham. Um jeito de proteger, de resguardar um coração. Mas como faz quando ela aparece assim, no meio da vida deles?

O coração aperta quando a morte entrelaça o cotidiano de uma criança. Nos últimos 15 dias, um dos meus filhos e seus amigos de classe, crianças de 10 e 11 anos, tiveram que lidar com essa despedida até então distante. Foram duas semanas fortes, intensas e doloridas. Primeiro, o pai de um grande amigo, depois o professor de artes e 2f última, a professora de alemão. Num tempo curto, o vento resolveu soprar a vida. Levou pra longe algo que lhes pertenciam de alma. E as crianças precisaram aprender algo sobre a relação do respirar e prender o ar. Algo que vem carregado de dor sim, mas vem carregado, também, de um olhar pro céu e deixar os olhos brilharem. Como quem entende algo sobre o mundo espiritual. Como quem entende algo sobre o que dizem as estrelas.

A gente tinha que repensar a morte. Ressignificar algo que é da vida. Entender o “ir” como algo libertador, como parte, ainda, de um caminhar. Como a estrela que brilha e só ela pode brilhar. Mas como faz com quem tem em sua própria língua a palavra “saudade”? Saudade é termo que a gente descobre entre linhas de poesias de amor. Em sua etimologia, tem solidão e solitude. Gerou derivados na língua portuguesa. Como saudosismo – de quem vive da saudade. Já disseram que não somos bons em despedidas. Deve estar aí tanta explicação para tanta saudade.

E a professora da classe lembrou de um trecho do escritor Hermann Hesse que diz “o coração precisa estar, em cada patamar da vida, predisposto à despedida e a novo início para, na coragem e sem pesar, entregar-se a outras novas ligações (…) Talvez ainda a hora da morte nos envie, jovens, a novos espaços; o apelo da vida a nós jamais há de findar. Vamos lá, meu coração: despede-te e convalesce”.

Convalesce para poder restabelecer-se em vida. E a gente acha meios de contar às crianças sobre a morte. Por metáforas ou por meios concretos, a gente precisa falar porque é algo inevitável. De se viver e de se falar. Entender a morte é também entender a vida. É quando a criança traz perguntas como “para onde vamos?” e “como é quando a gente morre?”. A gente não sabe responder e não existe resposta certa ou errada. Existe a melhor resposta que você consegue dar. O que é possível naquele momento. E diante de tantas dúvidas, a criança vai ser capaz de entender a morte e poder se despedir, ainda que isso leve tempo.

Mas é importante falar. Porque tá aí, nas palavras, um jeito bem importante da criança ir entendendo a morte e as coisas sobre a vida. É um jeito de viver o luto. E luto tem tempo. Quem o vive tem direito a negação, a raiva, a negociação com a vida e a morte, a viver a tristeza pra depois aceitar. E há de se respeitar. Dar beijo, abraço e aperto. Dar carinho, feito ninho mesmo.

Das histórias que a gente conta às crianças, certamente, essa é a mais difícil delas. Mas histórias são clareiras e se enxergar na história do outro é como colocar o coração de volta no lugar. Como a menina do livro O Coração e a Garrafa, de Oliver Jeffers, que gostava de sentar e olhar as estrelas. Um dia, seu avô, não mais ocupou a cadeira a seu lado e ela decidiu colocar seu coração numa garrafa para que ele ficasse seguro. Até encontrar, já maior, uma menina curiosa como ela. E ao se ver na história da outra, a menina resolve colocar seu coração no lugar.

Numa história, pode morrer uma pessoa que a gente ama muito, uma flor que murcha, um inseto que deixa de voar, ou um bichinho de estimação. As histórias, sejam as nossas ou dos livros, têm começos e fins. Finais que possibilitam novos começos. Ou recomeços que vem apinhados de marcas do outro. É o que a gente carrega como resposta para aquelas perguntas que não tem certo e errado. Tem o melhor que você pôde fazer. Tem a melhor resposta de dentro do teu coração. A morte é estranha mesmo. Porque era uma vez o fim.