Quantas vezes não escutamos crianças questionando o porquê se aprende isso ou aquilo na escola? Entender o ganho do conhecimento transmitido pela escola é a única possibilidade de compreensão e leitura de mundo que vai além da palavra

Pensem naquele passeio clássico que os primeiros anos do Fundamental I saem para fazer: uma volta no bairro para entender o funcionamento desse microcosmos. É a criança vista – e como ponto de referência e compreensão de mundo – no bairro em que estuda, para depois ver a cidade, ampliar para Estados, país e mundo. O formato é um clássico para introduzir conceitos de geografia nas escolas. Mas será que só a geografia? O que mais crianças e adultos ganham quando saem para andar no bairro?

“Uma forma de fazer a leitura do mundo é por meio da leitura do espaço, o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens”. A frase é da educadora Helena Copetti Calai que defende, no texto “Aprendendo a ler o mundo: a Geografia nos anos iniciais do ensino Fundamental”, a leitura de mundo na vida. “Fazer a leitura do mundo não é fazer uma leitura apenas do mapa, ou pelo mapa, embora seja muito importante. É fazer a leitura da vida, construída cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos”.

Porque as questões do bairro não se encerram no bairro. Pensem nesse contexto: Greve de caminhoneiros em 2018 resultou na falta de gasolina dos postos na cidade de São Paulo. Neste período, as crianças saem para fazer esse passeio em torno da vizinhança. Elas identificam filas de carros parados ocupando a rua, na tentativa de conseguir algo no posto do bairro. Que leitura a gente pode fazer? Que leitura a escola pode escolher fazer nessa saída? Será que essa fila de carros em busca de gasolina é algo isolado daquela vizinhança? A paralisação dos caminhoneiros reflete – e diz muito – sobre um contexto nacional. Isso passa pela compreensão de mundo da criança porque passa pela vida. E é preciso ajudar as crianças a fazerem essa leitura de mundo.

Precisa ampliar o olhar e não só ensinar o ciclo das coisas. Porque esse é o desafio de compreender o “eu” no mundo, considerando sua complexidade atual. É quando você possibilita na formação da criança um movimento de investigação e de hipóteses.

Isso é ensinar ciências humanas. É ler o mundo a sua volta, onde eu habito e qual meu papel nesse mundo. “Ler o espaço e compreender que as paisagens que podemos ver são resultados da vida em sociedade, dos homens e na busca da sua sobrevivência e da satisfação das suas necessidades”. Isso é estudar geografia nos anos iniciais da escola, mas é também dar sentido amplo a essas saídas pelo bairro que as escolas fazem.

É preciso construir conceitos, mais do que significados e para isso é preciso compreender o mundo além dos verbetes, além das palavras. Porque “para além da leitura da palavra, é fundamental a leitura do mundo”. Helena é brilhante nesse seu texto e em suas colocações como boas provocações à gente ampliar o olhar. E não precisa ser um professor, ou professora. É preciso existir como parte desse espaço.

E é preciso aprender a pensar o espaço – ‘no’ e ‘sobre’ também. A fazer sua leitura, numa interlocução de saberes e mundos. Quase que como um processo de alfabetização. Porque temos a mania de nos isolar em nossos microcosmos e dar por ali os problemas a serem resolvidos na vida. A gente precisa se re-alfabetizar para alfabetizar as crianças. Além das leituras cruas. Além dos julgamentos que antecedem a informação e o conhecimento.

O educador Paulo Freire, na Pedagogia do Oprimido, fala que “um diálogo não pode existir, entretanto, na ausência de um amor profundo pelo mundo e pelas pessoas… Porque o amor é um ato de coragem, não de medo, amor é compromisso com os outros”. “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Por isso a importância do olhar. Amplo e sensível.

Adoro quando ele diz que “ler é uma operação inteligente, difícil, exigente, mas gratificante. Ninguém lê ou estuda autenticamente se não assume, diante do texto ou do objeto da curiosidade a forma crítica de ser ou de estar sendo sujeito. Ler é procurar buscar criar a compreensão do lido; é que ensinar a ler é engajar-se numa experiência criativa em torno da compreensão”.

E aqui cabe a pergunta: como realizar a leitura da palavra por meio da leitura do mundo? E o inverso: como fazer a leitura do mundo através da leitura da palavra? Aqui pode estar o significado desse aprendizado que as crianças e os adolescentes tanto questionam. Por que aprender? Pra quê prender? Porque é ao se relacionar com o espaço que eu amplio minha visão de mundo e reconheço a complexidade dele. E quando a gente é capaz de entender e se reconhecer nessa complexidade toda, a gente também é capaz de se reconhecer como parte deste todo.