Já parou para pensar porquê calçamos sapatos? Sim, para não machucar os pés, para não queimar, para não sujar…para “não” tantas coisas.

Numa lenda africana, pessoas do vilarejo precisavam calçar sapatos para atravessar o rio e resolver coisas na cidade. Na tribo, apenas uma pessoa tinha sapatos e ele os alugava. Em troca não queria dinheiro, queria histórias. Cada um que levasse um sapato deveria voltar e trazer histórias para contar e partilhar na tribo. Ano passado, numa pequena e rápida exposição no Parque Ibirapuera sobre empatia, as pessoas eram convidadas a calçar sapatos de desconhecidos e escutar (e viver) um pouco de suas histórias de vida. Através de um áudio, a pessoa era convidada a caminhar e sentir o que o outro viveu, o que passou. Se colocar no lugar do outro. A empatia.

E por onde teus sapatos têm andado? Onde ele tem te levado? Pensar nos percursos e nas andanças faz a gente pensar no tempo das coisas. E dai me vem aquele lindo filme chamado Caminhando com Tim Tim. Num pequeno trajeto da casa pelo bairro, ele nos mostra o tempo da pausa. Do olhar, do esperar, do falar “oi” ao moço da padaria. Do tempo das miudezas. De andar 100 metros em 2horas. Do andar pelo tempo que se apresenta a ela de forma viva e plena. O tempo pelo tempo. Das coisas que adulto já não sabe mais o que são.

Porque estamos sempre de sapato apertado. De tempo curto. A pegar filhos na escola e pedir que eles acelerem o passo até o carro porque você já está atrasada. “Vamos! Anda mais depressa que a mamãe não pode demorar”. Anda! Andar pra quê? Sapatos pra quê?

Somos a sociedade do cansaço como diz o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Faz-se muito e não se tem tempo de contemplar. De olhar para o lado. De respirar fundo. Dai veem as doenças. Ansiedade, depressão, angustia e estresse. E remédio não cura tempo. E tem crianças, há muito já, com doença de adulto. Porque elas precisam fazer, elas precisam aprender. Precisam corresponder as expectativas do futuro. Não podem ser crianças. Apenas crianças. Algo que têm direito. Afinal, são pequenas.

Tempo de criança é tempo de brincar. De correr descalça, de sujar o pé, de sentir o vento e correr do tempo. A infância não pode ser um acelerador de partículas. É preciso deixar viver o espaço. Voltar para casa de uniforme sujo é saudável. Porque criança é livre. Infância é livre. Livre de regras, de amarras, de pesos e expectativas. Tão suave. Fresca.

Mas está pesado ser criança hoje em dia. O que eu vou ser quando crescer? Vou ser parte do caminho onde meus sapatos me levaram. Parte da delicadeza que a vida proporciona. Vou ser uma tiradora de sapatos. Profissão de personagem de Manuel de Barros. Porque as melhores coisas que eu faço são descalças. Quando os pés sentem o chão – e não estão no chão. Porque para ter tempo e infância é preciso ter sentido. Sentir. Temperatura, tempero, tempus do latim. Hora, minuto, segundo e instantes. É assim que vamos coletando histórias pra contar. Momentos. “De modo que o meu espírito, ganhe um brilho definido”, cantarola Caetano Veloso. “Tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivos”. Afinal, sapatos pra quê?