No mundo dos algoritmos, hashtags, likes e seguidores, como acreditar nas relações humanas? Ou mais, como confiar? São tantos medos que assolam o ambiente da internet que a gente parte logo para culpá-la. Quase como algo do mal. Aqueles monstros de pesadelo de criança. E assim como os monstros, não sabemos como lidar com eles. Não adianta não querer mais que eles apareçam durante a noite, não adianta das um soco e também não adianta dizer que eles não existe. Estão aí e dizem que a melhor coisa para combater um inimigo é se aliar a ele.

Semana passada, aconteceu uma palestra da jornalista Brenda Fucuta, na escola Rudolf Steiner sobre o tema que originou o livro chamado Hipnotizados, onde, por dois anos, investigou o uso da internet na vida dos adolescentes. Na mesma semana, o Instituto Singularidades, promoveu uma série de palestras e encontros com a temática Cultura Digital. Entre um palestrante e outro, uma fala ou outra, fica claro que existe um medo profundo do que o uso continuo e frequente da internet pode nos trazer. Mas por que? Por que tanto medo de algo novo? O que acontece com o ser humano que, a qualquer sinal de uma nova invenção, ele rejeita, critica e tende, fortemente, a se agarrar ao que já conhece? Segurança, claro. Mas será o mundo digital um lugar tão doentio, superficial e consumista como nos vendem? Ou será ali um meio provocador e transformador de relações, consumo e informações?

O Instituto Singularidades promoveu cinco dias intensos de programação que tiveram palestras, mesas de conversas e atividades onde foram discutidos os diversos conceitos e assuntos que englobam o mundo digital. Tendo como eixo orientador inúmeros capítulos do programa Expresso Futuro, do advogado Ronaldo Lemos. Os programas, do canal Futura, apresentaram uma diversidade de temas, a começar por uma análise histórica feita por Thomas Levin, professor de cinema da Universidade de Princetown, extremamente interessante. Historicamente, ele traça um paralelo de como as novas mídias sempre substituíram outras, que passam a ser consideradas antiquadas com o tempo. Mas socialmente, existe uma adaptação e é preciso que haja tempo para ele se assentar. Porque precisamos do momento de desconforto e confronto com o novo. Foi assim quando surgiu a prensa, com Gutenberg. Quando surgiram os CD’s. Quando apareceu o walkman. Já se usava fones de ouvido na rua e nos ambientes muito antes dos fones bleutooth e da Apple aparecer com o Ipod. Só que a gente esquece. Talvez por conta da internet ser ainda tão nova e tão revolucionária. Porque ela não mudou apenas um campo da vida e sim vários.

Vem com ela toda inovação digital possível no campo das artes, medicina, engenharia, arquitetura, manufaturados, comunicação, educação e por aí vai. Talvez aqui seja o ponto de tanto medo e espanto. A revolução que ela traz permeia diversos campos da vida social e econômica do mundo em que vivemos. E tantos outros que nem conseguimos entender ainda tamanha a dimensão que eles têm. Você já ouviu falar em fragmentação de informações? Inteligência artificial, realidade aumentada, ciberespaço, cultura maker, transumanismo, fake news, aceleração de informação?

Provavelmente não, mas crianças, adolescentes e jovens sim. E dai vem o pânico de não saber onde eles estão navegando, o que estão fazendo nas redes sociais, como eles se comunicam e por aí vai. Só que este mesmo pânico vem cheio de pré-conceitos porque a gente tende a achar que tudo que era da nossa época era melhor, inclusive a forma de se relacionar. Quem diz que conversar pelo direct do Instagram não é conversa? A gente. Nós pais e adultos de uma geração bem distante à deles. Para eles, a conversa pode acontecer ao vivo, pelo telefone, pelo whats, pelo direct, pelo snap e até mesmo pelo Spotfy. O leque de possibilidades de uma conversa se abriu, se expandiu. Mas a gente continua a achar que eles estão perdendo. Será?

Talvez o que precise seja mais formação dentro de tanta informação. Segundo o professor da PUC SP, Sergio Amadeu Silveira, “a internet universaliza a comunicação, mas ela não é totalitária”. O que ele quer dizer com isso é que você usa o que você quiser. Ainda que sabemos que basta um clique para você liberar uma série de informações que serão usadas contra você – uma vez que te leva a circular por uma via de mão única, a tal da bolha. Thiago Esperandio, do Coletivo Digital, que também palestrou no Singularidades, completa dizendo que “hoje tudo vira dígito”. “A gente transforma o material em imaterial e com isso faz a coisa se multiplicar. E a partir do momento em que eu compartilho, não perco mais. Aquilo passa a existir para sempre”.

Isso determina e modifica nossa economia e cultura. Já parou para pensar que somos nós que produzimos os conteúdos dos sites mais acessados do mundo? Google, Waze, Facebook, Instagram, Youtube. Todos, todos, são abastecidos por conteúdos que nós produzimos, compartilhamos e multiplicamos. E é sobre a lógica da multiplicação que surgem os FabLabs com o conceito de educação maker. É preciso fazer para transformar. O que vem totalmente de encontro ao que se busca na educação das escolas hoje em dia.

Fazendo aqui um paralelo, as escolas introduzem computadores e ipads, mas se limitam a ter uma sala de informática onde vão usar os aparelhos como ferramentas de ensino de conteúdos como matemática, ciência, geografia e o que mais for. Quando a grande revolução está em usar esses mesmos aparelhos para transformar, para realizar, para fazer. A palestrante Rita Wu, do FabLab Livre SP, diz que “é preciso fazer parte do processo para aprender. Isso engaja o aluno no conhecimento”. É exatamente essa ausência de prática que marca a educação digital dessa geração que está aí. Eles aprendem sozinhos, de forma intuitiva, mas perdem a chance de ganhar formação digital. Algo muito distante do que acontece atualmente.

E aí somos dominados pelo medo. Não sabemos, não ensinamos, não falamos, não colocamos regras e fica essa loucura de que o celular está “matando” a vida do meu filho. Ainda que durante todos esses dias, com as inúmeras palestras que assisti e somando as tantas outras que já vi, eu tenha adquirido algum conhecimento sobre o mundo digital, fica a pergunta: como trazer e implementar todas essas plataformas e meios tecnológicos para a sala de aula? Não só de forma didática, mas sim se apropriando desses meios e ferramentas de forma a desenvolver conhecimento e aplicá-lo de maneira crítica. Não basta dar acesso, é preciso capacitar. Não basta dar conhecimento, é preciso capacitar. Por que tanto medo da internet?

“Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve” – Lewis Carroll