No mês da Consciência Negra, um olhar para como as escolas privadas têm se posicionado frente ao racismo estrutural e quais mudanças vêm implementando para que mais negros ocupem a sala de aula com brancos

A pergunta que é título desta matéria foi feita por uma menina negra de 5 anos e aluna de uma escola particular na zona oeste de São Paulo, durante uma atividade em que um dos colegas notou sua cor escura e perguntou à professora “por que ela é assim?”. Agora imagine, quantas vezes uma criança negra já não escutou – e respondeu – a perguntas como esta?

Na escola em questão, a professora de classe, sabiamente, aproveitou as perguntas e as inquietações para conversar com os alunos. Iniciou-se ali uma roda com muitas falas e enquanto eles se percebiam com mais atenção, tiveram tempo de se dar conta de que eram como eram porque os pais eram assim e, por consequência, os avós, e começaram a ganhar consciência do “porquê a gente é assim”.

“Na minha casa todo mundo tem a pele negra igual eu. Meu pai é assim, minha irmãzinha que nasceu e minha vó também”, foi o que contou a única criança negra entre os 21 alunos da classe. Filha de funcionário, bolsista, ela ocupa a “condição clássica” de muitos negros que frequentam escolas privadas na capital ou qualquer outro canto deste país.

Num outro momento, dando continuidade a conversa que ganhou espaço de pesquisa e investigação, as crianças foram convidadas a desenhar algumas de suas hipóteses do “porquê a gente é assim” e a menina negra recebeu da professora um estojo de lápis com várias tonalidades de “cores de pele”.

Ao abrir e olhar as cores disponíveis, perguntou: “qual você acha que é mais parecida com a minha pele?”. “Qual você acha que é a mais parecida?”, devolveu a professora acertadamente – pois é preciso se reconhecer antes de tudo.

Semana passada, num artigo do New York Times, a jornalista Meena Harris, negra, fala do quanto as escolas fracassaram – e sua grande maioria ainda fracassam – em reconhecer a história e as realidades do racismo. “É uma realidade que senti na própria pele na Área da Baía de São Francisco, onde somos uma das poucas famílias negras do distrito escolar – que, pelo menos no nível do ensino fundamental, não parece ter planos explícitos para discutir antirracismo com uma população disposta (e ansiosa!) para aprender a respeito”, diz.

Em agosto do ano passado, pouquinho mais de um ano, escrevi uma matéria pra este mesmo espaço onde chamava atenção para a questão de não termos negros nas salas de aula das instituições privadas. Intitulada “Na escola dos meus filhos não tem negro nas salas de aula”, provocava a olharmos o entorno e perceber quem é que ocupava – e ainda ocupa – a grande maioria das cadeiras destes espaços.

A matéria convidava a olhar para esta pauta que nos é tão cara em sociedade, o racismo estrutural. Consequentemente, convidava a encarar o estrago do racismo dentro do sistema educacional. Paralelamente, nascia o grupo de Escolas Antirracistas que deu origem a diversos movimentos e projetos nas mesmas instituições. Ancorado por anos de luta dos negros contra o racismo, o movimento conseguiu ganhar força e espaço. Provocou em nós, brancos, a saída da inércia e da ausência racial dos nossos micromundos.

2021, outro ano de pandemia e algumas escolas resolveram começar a fazer diferente. Umas mais rápidas que outras, mas boa parte das instituições que integravam o grupo Escolas Antirracistas foi em busca de consultorias negras para reestruturar planos e projetos pedagógicos, repensar práticas e dar início ao que se chama de letramento racial.

A proposta sempre foi maior do que encher as salas de aula de alunos negros e cumprir um suposto “assistencialismo racial”. Só daria certo – e só vai dar certo – se for muito mais que isto. Muito. Era – e é – preciso olhar profundamente para as estruturas seculares que nos mantêm dentro de um sistema que é racista. Era – e é – preciso mudar e ampliar os pontos de vistas.

Era – e é – preciso mudar o currículo de anos e anos em sala de aula e ter professores negros dando aula. Diretores, orientadores, coordenadores. Era – e é – preciso que a quantidade de pessoas negras e brancas dentro de uma instituição privada seja tão equilibrada a ponto de não “chamar atenção”. A ponto de nenhum colega de sala querer saber “por que ela é dessa cor?”.

Porque quando a gente tem uma criança negra numa escola de classe média alta, seja filha de quem for, questionando a cor da sua pele é porque tem algo de muito muito errado. Não porque esta criança não deveria estar lá, obviamente, mas porque ela não deveria ser a única. E não sendo uma “exceção”, não ocuparia o lugar de “a única dessa cor”.

O exemplo compõe o que a gente chama de racismo estrutural. É um fragmento do racismo e é por isto que não basta não sermos racista, a gente precisa ser antirracista. É preciso brigar e combater as estruturas tão perversas que acompanham a história há anos. 2021 e ainda vivemos numa cegueira e ausência social para inúmeras das questões que contornam a pauta. Se o mundo é assim é porque permitimos que ele seja.

E o mesmo vale às escolas, mas felizmente, é possível notar que algumas já tomaram pra si o problema e têm se disposto a fazer diferente. Entenderam que é preciso mexer em todas as estruturas para começar um processo longo de reparação onde equidade possa gerar igualdade.

A Escola Vera Cruz, na zona oeste, é uma das mais bem organizadas e avançadas na pauta. Começou o ano letivo com o Projeto Travessias rodando e com dezoito crianças integradas à Educação Infantil. Paralelamente, já tinha engatilhado uma série de ações e mudanças no currículo e na estrutura organizacional.

Professores negros foram contratados, orientadoras de série e a pauta passou a ocupar muito mais tempo em salas de aula, além de referências bibliográficas e os próprios corredores da escola. Recentemente, Claudia Alberto, mãe da Milena, aluna da primeira turma do projeto, deu um depoimento a revista Gama onde fala da importância do projeto como reparação histórica.

“Não é um mero programa assistencialista. Não é simplesmente abrir 18 vagas, colocar as crianças para que elas vejam como é legal estudar nessa escola de elite. Não é essa a questão. O projeto antirracista é maior: visa a inclusão, a diversidade, a pluralidade. As diferenças culturais e socioeconômicas estão postas, já sabíamos que esse desafio existiria. Mas é surpreendente ver a disponibilidade da comunidade escolar em nos receber, nos acolher. Surpreendente porque sei da dificuldade que é implantar um projeto antirracista. Tem sido muito, muito importante. Tanto para a Milena, quanto para nós, para a família”, fala em entrevista.

A ideia é que a cada ano o projeto possa ser ampliado e possa acolher um número maior de crianças que devem seguir até o final do Ensino Médio. O Colégio Santa Cruz apresentou este ano algumas ações do Programa de Ampliação da Diversidade Racial e Ações Antirracistas e começará 2022 com doze crianças negras no G4 (o projeto abriu processo seletivo tanto para crianças negras quanto indígenas).

“A proposta do Santa Cruz é contribuir para a formação de uma sociedade mais igualitária e justa. Para tanto, investimos em projetos que promovam a inclusão social, a ampliação da diversidade racial e o combate ao racismo na escola”, fala Fabio Aidar, diretor geral.

Elaborado com a participação de um amplo grupo colaborativo, o projeto contou com a colaboração de membros da direção e conselho, mães e pais, grupo de estudos de educadores e parceiros com experiência na implantação de movimentos similares, assessorados por especialistas dedicados ao tema como a educadora Clélia Rosa.

O Grupo Bahema Educação, que tem as Escolas da Vila e Viva, em São Paulo, e Escola Parque no Rio de Janeiro, promove um censo dentro de suas unidades para estabelecer metas e dar impulso a ações antirracistas com bases em evidências de dados internos. “O levantamento nos trará um diagnóstico fundamental para estruturar planos de ação que tenham ainda mais impacto em toda a comunidade, envolvendo as equipes, os estudantes e as famílias”, explica Gabriel Ribeiro, CEO do Grupo.

Em novembro, mês da Consciência Negra, a agenda de debates e reflexões que é comandada pelo Núcleo de Ação Antirracista de famílias (NAA), da Escola da Vila, organizou um Sarau com música e arte envolvendo toda comunidade escolar, além de clubes de leitura voltados às crianças da Educação Infantil até os maiores do Ensino Médio, clube de cinema e roda de conversa.

“Eu tenho muita confiança de que, se a gente conseguir problematizar a branquitude dentro das escolas de elite, criar a consciência de que existe racismo estrutural e de que temos posturas cotidianas que são excludentes, conseguiremos mobilizar desde cedo a formação integral de pessoas que valorizem o humano em toda sua diversidade. Isso muda as gerações e, embora possa demorar, quanto mais ágeis formos, menor será esse tempo”, diz Fernanda Flores, diretora da Escola da Vila.

Especificamente nas escolas, os movimentos e os coletivos de pais têm conseguido avanços juntos à gestão. Sabemos que a porta para transformações se abre pela educação, campo tão representativo da sociedade. Programas de bolsas, abertura de vagas exclusivas para pessoas negras, contratação para cargos mais altos e mudanças no currículo começam a ganhar corpo e força. O que, aos poucos, vai reverberar para fora dos muros e, com o tempo, teremos sim uma sociedade mais justa.

O anseio é ver salas de aula, cadeiras e carteiras e espaços sendo mais e mais ocupadas por negros. De maneira igualitária e justa, capaz de reparar anos da brutalidade histórica do racismo no país. Um país que tem em seu corpo 56,1% de negros, dos quais 64% estão desempregados, segundo dados do IBGE.

Existem mais brancos no mercado de trabalho, assim como existem mais brancos nas instituições privadas deste país e a escola faz parte deste cenário. Como disse o filósofo e educador Renato Nogueira, em entrevista à revista Veras, “as desigualdades são fatores que impedem que a escola chegue da mesma forma para todo mundo. Não é o mérito individual, há condicionantes históricos, sociais, fatores psicológicos que atrapalham”.