Pais se reúnem ao movimento Escolas Abertas para pedir o fim do uso de máscaras por crianças nas escolas

O movimento Escolas Abertas, que nasceu na pandemia com o forte objetivo de garantir a reabertura das escolas privadas e a retomada das aulas presenciais, lança um apelo a Secretaria de Educação do Estado para que reveja os protocolos de saúde e retire a obrigatoriedade do uso de máscaras por crianças pequenas.

Junto ao movimento, pais se reúnem e fazem coro ao pedido sob alegação de que as crianças estão sendo prejudicadas pedagógica e emocionalmente. O movimento alega que as máscaras no ambiente escolar interferem na socialização e desenvolvimento, além de prejudicar o processo de alfabetização, uma sequela importante deixada pela pandemia na educação infantil brasileira.

O Instagram do Escolas Abertas, até o momento, tem cerca de dez postagens reivindicando a retirada das máscaras. “Coerência”, pede um deles. “A evolução da ciência e das variantes são contínuas. É fundamental que os protocolos escolares sejam atualizados de acordo com essa evolução. Não existe mais espaço para incoerência: festas, shows, aglomerações com população sem máscaras e o ambiente escolar com crianças cumprindo rigorosamente os protocolos que não são aplicados fora das escolas”, diz a postagem publicada dia 16 de fevereiro com 1200 curtidas e 115 comentários de apoio.

Este não é o único post e todos contam com o apoio dos pais. “Tirem a obrigatoriedade das máscaras. As crianças precisam ver os rostinhos uma das outras, respirar normalmente”, comenta uma mãe seguidora. “Infelizmente as crianças são e serão as mais prejudicas. Vergonha deste descaso na educação das crianças”, diz um outro.

Isabel Quintella, porta-voz do movimento, diz que o pedido se sustenta em argumentações de especialistas e artigos que têm saído na imprensa internacional. “Sempre defendemos escolas com protocolos e não queremos bani-los, até porque eles têm se mostrado seguros. O que a gente pede é coerência das autoridades uma vez que temos eventos, festas e shows sem protocolo algum e onde as pessoas circulam livremente sem máscaras”, alega.

Segundo as diretrizes, tanto do Estado quanto da cidade de São Paulo, festas, shows e eventos estão permitidos desde que sigam o Decreto nº 59.473 que pede uso obrigatório de máscaras, mantenha distanciamento social e fica a critério do estabelecimento exigir comprovante de vacina junto da entrada, como tem acontecido nos jogos de futebol.

O problema é que não há fiscais suficientes para fazer a ronda nos estabelecimentos e muitos acabam por não fiscalizar o uso de máscaras quando os clientes já estão dentro do ambiente. Mas esta não é a regra e não é o estabelecido pelas autoridades e, portanto, não deveria ser por onde se pautar.

Para Isabel, quem não consegue usar máscara é o adulto. “Deveria ser nosso papel usá-la para que as crianças pudessem ficar sem. Tirar a máscara não é não ter protocolo nas escolas, eles têm que existir e de forma rigorosa. Tirar as máscaras quer dizer apenas dar às crianças o mesmo tratamento que tem sido dado em outras esferas da sociedade. Não queremos definir protocolo, não temos conhecimento para isso, mas a gente observa a nossa volta”.

Mariana Mtz conta que a filha usa sem reclamar. Ela manda máscaras extras na mochila, mas acredita que as crianças podem transmitir da mesma forma. “Muitas mães mandam máscara de pano, que não protegem nada como já provado, elas tiram na educação física, no lanche, mexem o tempo todo na máscara, tiram para escovar os dentes e compartilham o tempo todo o mesmo ambiente e em alguns casos até o mesmo material. Então te pergunto: pra que fazê-las usar? Piora a rinite (otorrino que me disse) irrita, esquenta, dói a orelha e pra ser sincera, é chato. É apenas a minha opinião, sem querer estar certa. Respeito todas as formas de pensar”, reforça.

Para Ana Gissoni, mãe de um menino de 4 anos e que acabou de entrar na escola, ela sente dó, mas acha que mesmo assim tem que usar. “Eles são bem rígidos com protocolos, eu fico com muita dó dele de máscara, ele vai de pff2, mas mil vezes ele com a máscara que mal não causa, do que Deus nos livre doente. Como ele não tem idade pra se vacinar ainda e nem a turminha dele, máscara é a única alternativa pra eles se protegerem enquanto isso não melhora. Dá dó? Dá. Mas eu converso sobre a importância da máscara e de só tirar pro lanche/beber água e ele tem aceitado. E como usamos direito e a professora também, ele segue o exemplo”.

foto: Shutterstock

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Dia 11 de fevereiro, a Fiocruz atualizou os protocolos para o retorno às aulas acompanhando os novos critérios de autoridades sanitárias internacionais e sociedades médicas nacionais diante da variante Ômicron. Entre as atualizações, quando um aluno testa positivo apenas ele deve se afastar do grupo e não mais o grupo todo, por exemplo. No mais, entre outras atualizações está a permanência do uso da máscara por todos.

“É papel das entidades públicas definir quais são os protocolos ideais e seguros, mas olhando para quem já deu um passo como os estados democratas americanos, vê-se que as máscaras foram banidas das escolas porque entendeu-se que elas prejudicam o desenvolvimento e a aprendizagem e atrapalham uma rotina saudável de relações”, diz Isabel Quintella.

Em nota oficial, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) diz que “mantém as aulas presenciais com uso de máscara e todos os protocolos de segurança, como uso de álcool em gel, aferição de temperatura e higienização constante dos ambientes e mãos, identificação e afastamento dos casos e seus contactantes, conforme orientação da Comissão Médica da Educação, ratificada pelo Comitê Científico de Saúde do Estado”.

Ainda que estudos tenham apontado que é justamente a manutenção rígida dos protocolos que têm garantido a permanência das escolas abertas, o movimento de pais quer o fim do uso da máscara. Eles acreditam que a baixa contaminação no ambiente se dá pelo sistema de rastreamento implementado pelas escolas do que o uso da máscara em si.

A professora de educação infantil, Ivana Tavares, garante que a resistência dos adultos é infinitamente maior que a das crianças. “As crianças usam sem problemas, inclusive nas aulas de educação física”. Algo que temos comprovado apenas com a observação das crianças nos espaços públicos. Elas não só usam sem problema algum, como algumas ainda repreendem os pais para que levantem a máscara ou não a tirem quando estão conversando com alguém.

Tatiana Balau Ballarotti conta que os filhos usam a N95 infantil sem nenhum drama. “Vejo todas crianças usando nas escolas sem problema e de forma adequada, bem diferente dos adultos, e numa boa. Acho realmente que os adultos é que projetam nas crianças o seu desejo de não usar máscara”. Para as crianças é realmente muito comum o uso das máscaras.

Filhos da Tatiana, Beatriz 10 anos e Samuel 7, usam máscara diariamente e dizem estar acostumados

“Acho um absurdo e um egoísmo tremendo ver centenas de pessoas morrendo por causa de uma variante nova e ficar brigando para não usar máscara sabendo que essa é uma medida fundamental pra evitar a disseminação do vírus e o aparecimento de novas variantes”, fala Lívia Ferreira, mãe de um casal.

Para ela, “se os pais querem ignorar a ciência e o aumento considerável de casos graves entre as crianças, é dever da escola colocar limites e garantir a segurança sanitária de todos”. O mesmo pensa Tatiana Oliveira, também mãe de um casal. “Enquanto houver pandemia e a COVID ser a segunda maior causa de morte infantil continuarei apoiando o uso das máscaras e todos os protocolos”.

Na visão do pediatra Daniel Becker não há o que se preocupar quanto a “traumatizar” a criança pequena por conta o uso de máscara por longas horas. Ele reforça a capacidade adaptativa das crianças em relação a dos adultos. “Vejo eles usando lindamente e se adaptam de forma espetacular”, diz. “Já são dois anos de uso e não podemos generalizar o trauma que pode causar em algumas crianças e adolescentes, de fato. Elas já estão habituadas e só devemos abolir a máscara quando tiver um consenso de que as condições permitem”.

O pediatra reforça a importância deste momento de “fim do uso das máscaras” estar atrelado à boa condição epidemiológico da doença e não a possibilidade de causar trauma ou prejudicar o desenvolvimento em alguma instância. Segundo a psicanálise, “trauma” se instala por situação que causam dor e sofrimento, e das quais as consequências são tão grandes que afetam o pensamento e o comportamento da pessoa.

Daniel Becker completa dizendo que temos que levar em conta o prejuízo que o uso da máscara tanto para crianças quanto adolescentes quanto às habilidades sociais. “É bom poder ver o sorriso no rosto do outro, ver as expressões, mas por outro lado exige um aprendizado nosso que é o de ler as emoções pelos olhos. Isso não é ruim ou bom, isso é e pode trazer ‘vantagens’ também”.

“Se pudéssemos tirar a máscara, tiraríamos. Ninguém gosta e quer usar. Seria um tanto melhor, mas para chegarmos nesta decisão as condições epidemiológicas precisam ser favoráveis. Quando puder sim, tiraremos”, pondera.

Além da questão emocional, o Escolas Abertas também alega prejuízo na condição de aprendiz da criança. Segundo Isabel, a máscara anula a leitura labial o que supostamente interfere no processo de alfabetização. Mas a alegação não se sustenta pedagogicamente.

O processo de alfabetização não se dá e não acontece a partir da leitura labial, ainda que muitos pais acreditem que falar uma palavra bem devagar e silabicamente possa auxiliar a compreensão das letras e facilitar a escrita da criança. Segundo Cristiane Mori, Mestra em Linguística pela UNICAMP, consultora de Língua Portuguesa para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental no Colégio Bandeirantes e professora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades desde 2013, “a máscara não impede o essencial do processo de alfabetização”.

“As crianças que estão se alfabetizando não precisam ler os lábios da professora para identificar a palavra que ela está falando. Salvo se ela tiver uma surdez e, portanto, não tiver acesso ao sinal acústico e a professora idem. A leitura labial é um apoio visual pra quem tem alguma perda de informação auditiva”, explica.

De maneira mais clara, a máscara só é problemática porque dificulta a informação auditiva chegar ao interlocutor. O professor vai ter a fala abafada e as crianças podem não ouvir. “O fato é que todos nós usamos a articulação dos lábios para ajudar a compreender o que está sendo dito, então é claro que essas crianças podem perder informação que o professor está falando, mas a criança não precisa ter acesso a articulação exacerbada para se alfabetizar”.

“O uso de máscara só seria prejudicial no processo de alfabetização se a gente entendesse que a escrita é um espelho da fala, uma transcriação da fala, em que eu precisasse da articulação de cada som para fazer a associação com as letras. Como o processo é de outra natureza, é de representação, não é necessária a articulação forçada e, portanto, a máscara não impede algo essencial do processo específico de alfabetização”, explica Cristiane.

Patrícia Almeida, mãe de um menino de 6 anos, se preocupa com o pedido dos pais que querem o fim das máscaras nas escolas. “A única proteção que as crianças têm é o protocolo. Se todos tivessem vacinado seria uma coisa, já que, comprovadamente, a vacina protege do estágio mais grave, mas a situação não é essa. Eu espero que não tenhamos que enfrentar uma nova luta por conta de máscaras. Já basta os anti-vacina”.