“Em entrevista de trabalho, nunca me perguntaram com quem eu ia deixar meus filhos”. Pai também tem seu papel. Entenda a importância da paternalidade nos dias atuais

Duas vezes por semana, subo algumas ladeiras da Comunidade de Paraisópolis para chegar ao Pró-Saber, ONG em que estou fazendo um trabalho. São 4 ruas, 4 ladeiras. Pode ser as 8h, 9h, meio dia ou 3h da tarde que sempre vejo pais com filhos pequenos sentados na porta de casa. Duas informações essas cenas me dão: o desemprego e o pai presente. O Brasil tem 5,5milhões de crianças sem pai no registro. 5,5 milhões. Olha o tamanho desse número. Mas e quando tem, como é possível apoiar esse pai dentro de casa em sua paternalidade?

Tão imprescindível quanto se debruçar sobre questões da mulher na maternidade, é olhar e pensar sobre as questões do masculino na paternidade. Porque elas são muitas! Desde redefinir o papel do homem da casa como o provedor, como o resignificar da função como um pai possível dentre suas diferenças à mãe. Constantemente lidamos com a fala de que “homens não ajudam”, mas lidamos também com a fala de que “parece que não faço a coisa certa”. Ou “não me deixam ser pai”, como ‘melhor diz’ Leandro Ziotto, um dos fundadores do site 4daddy, espaço de trocas de experiências e conhecimentos sobre o universo paternal.

E ele explica o porquê. “A mesma cultura social, moral, religiosa, estrutural e institucional que afeta vocês mulheres, e outros recortes como negros, LGBTQI+, que não permitem viver de forma plena, essa mesma cultura é a que impede o homem de ser pai, e mais, de performar outras masculinidades que não sejam tóxicas”.

Exemplos do que ele está falando aqui? Vamos lá: a licença paternidade é ainda de 5, no máximo 20 dias. Não há fraldários nos banheiros masculinos como há nos femininos. “Nas entrevistam de trabalho não nos perguntam com quem deixaremos nossos filhos. Não nos educaram a cuidar. E as mulheres também acabam castrando os homens da forma que são castradas por essa cultura”. E tem mais: as escolas não abordam e demandam dos homens como fazem com as mulheres. Os profissionais de saúde não abordam a paternidade. Os operadores do direito então, pai é qualquer um, mãe só tem uma. “Então o homem tem sim os privilégios de ser homem no sistema patriarcal, mas esse mesmo privilégio é o que está afastando-o de ser pai”, reflete Leandro.

O resultado disso tudo? O machismo que sobrecarrega a mãe, invisibiliza o pai, e violenta todos, homens e mulheres e filhos. Mas pai também tem seu papel e ele precisa existir. Dentro do núcleo familiar e fora dele, socialmente.

Assim como mães se unem e criam grupos de ajuda e troca, pais têm feito o mesmo. Não é de hoje, tá certo. Mas o círculo tem crescido e as conversas têm se ampliado. Porque falar da figura paterna é falar também do machismo enraizado em cada um, é falar das dificuldades de dizer o que sentem. Dificuldade de chorar. Sem medos e sem preconceitos. É ter espaço pra falar sobre sexo e desejos. Sobre essa figura que é marido e é pai. Homens têm questões como as mulheres e poder olhar pra elas com cuidado e carinho é abrir possibilidades de existir mais pais presentes na sociedade. Porque não cabem 5,5milhões de crianças sem registros paternos em 2019.

Um bom papo sempre ajuda e Leandro Ziotto gere um desses espaços dentro do site e da comunidade 4daddy. Há quatro anos de pé e com uma audiência extraordinariamente relevante, Leandro quer sensibilizar a sociedade civil, as empresas e o Estado sobre a importância da função paterna na criação e desenvolvimento de uma sociedade mais justa, pacífica e igualitária. “A gente acredita numa criação de filhos onde é possível ser afetivo, social e cidadã”.

Grupo de pais ao final de um encontro

O que significa uma criação afetiva, social e cidadã?
Criação afetiva é ter afeto. Simples assim. E afeto é cuidado, carinho, toque, presença e respeito. Não podemos mais ter vinculado a paternidade o estereótipo de violento, de ordem ou ausência. Pai pode abraçar, sorrir, cuidar. Não há nada na biologia que diferencie os cuidados do pai e da mãe. Eu estou falando de cuidado! Criação social é a materialização do ditado africano que diz que se precisa de toda uma aldeia pra se criar uma criança. A criança é responsabilidade não só dos pais, é de todos. É da sociedade e do Estado. Se estou num bar, e na mesa ao lado tem uma criança, é meu papel também zelar por ela. Quando a nossa sociedade abraçar esse cuidado, será o maior gatilho de transformação que viveremos. A paternalidade deve passar de um simples conceito e ser promovida a habilidade. Temos que ser parentais com os outros. Que a sociedade será conosco. Um mundo onde se cuida e é cuidado, ele está a salvo. E criação cidadã, é dar a criança a noção que ela vive em um grupo chamado sociedade. E que ele tem direitos sim, direito a vida, a proteção, a ser respeitada, e que ela tem o dever de respeitar também.

Ter um espaço de conversa para os homens é vital?
Sim! Paradoxalmente o homem hoje sofre dos malefícios do seu privilégio de ser homem numa sociedade machista. Estranho né? Eu sei. Porque a mulher sempre teve que se organizar em grupos para sobreviver. O homem não! Os homens têm sofrido, e sofrido em silêncio. Mais um paradoxo. Já que os homens detêm toda forma e manifestação de poder e lugar de fala. Porém, nunca pode de fato falar de si, de forma mais profunda. A resistência das mulheres fez elas se aprofundarem nelas. O nosso privilégio, fez os homens ficarem na superficialidade. Mas não dá mais. O homem precisa se reposicionar em suas relações afetivas, sociais, familiares e de trabalho. E a forma mais saudável e humana é conversar! Conversar entre si, homens com homens, e também, óbvio, com as mulheres.

Sem dúvida os movimentos feministas contribuíram para estes olhares dos homens sobre eles mesmos e suas relações.
O feminismo tem sido fundamental. É o incomodo que gera mudança, transformação e evolução. E o feminismo não fez isso apenas com as mulheres, tem feito isso com os homens. O homem que não estiver em desconstrução estará em decomposição. Pois não só o feminismo, mas todas as outras conquistas sociais com suas questões como raça, gênero, social e LGBTQI+ é que tem questionado o machismo que estereotipou o homem hegemônico e lhe deu o privilégio e o dever de exercer uma masculinidade tóxica contra si, e contra todos que fizerem parte desse grupo.

E quem são esses homens?
Temos que falar de paternidades e masculinidades no plural e com S maiúsculo. Pois cada ser humano tem o seu repertório cultural e emocional que molda os seus hábitos e vida. Por isso que quando falamos nesses temas, temos que fazer recortes sociais como gênero, racial, classe e etc. Pois corremos o risco enorme de invisibilizar pessoas. E ninguém merecer ter a sua existência invisibilizada. Esse movimento dos homens é muito novo. O feminismo existe há 100 anos e está indo para sua quarta onda. Esse papo que estamos tendo aqui, até 3 anos atrás não existiria. Mas isso não quer dizer que já não existia movimentos menores. O homem, seja ele quem for, está em processo de desconstrução. Não será fácil, mas é necessário. E infelizmente terá resistência. Mas acredito que como o feminismo, será uma onda que não tem mais volta. É uma evolução.

Quando começaram com o grupo de troca, quais eram as maiores angústias dos homens?
As dores mais externadas eram nas relações com filhos e filhas. Tanto em questões escolares, como saúde e respeito. O homem tem dificuldade de se vulnerabilizar. Apenas agora, de um ou dois anos pra cá, tem existido um aprofundamento nos temas como medo, insegurança, sentimentos e etc. Participo de grupos de homens e pais em todo o Brasil. Cada grupo está em sua fase de maturação. O mais importante é que são todos legítimos.

E elas se transformaram ao longo desses anos?
Sim e não. Quando falo sim, falo das angústias que antes eram clássicas das mães como questões emocionais. Hoje, os homens mais envolvidos nos cuidados e criação de seus filhos e filhas, também se angustiam com as mesmas questões. Quando falo não, talvez seja em recortes sociais. O medo de um pai negro periférico da década 80, na sobrevivência de seu filho e filha, em não sofrer violência gratuita, preconceito e de ter boas oportunidades, acredito que infelizmente, ainda é a mesma do mesmo pai negro periférico de 2019.

Pensando na função paterna, como os homens lidam com as questões que as mulheres trazem como sendo uma dificuldade a elas?
Vejo com muito orgulho uma transformação enorme no homem em sua paternagem, isto é, no exercício de paternar, de exercer a sua paternidade. Porém, isso não é automaticamente em ser um bom companheiro. Ou de não continuar a ser machista, por exemplo. Isso é uma auto-análise que fazemos como projeto. Pois acreditamos na paternidade como gatilho de transformação do homem perante a sociedade. Os homens têm se transformados em ótimos pais, mas será que estão se transformando em bons maridos também? Em bons chefes, bons amigos, que não perpetuam mais a masculinidade tóxica? São perguntas a pensar.

Pai também tem seu papel. O que você percebe na relação com os filhos?
Há inúmeras bolhas sociais e cada uma está em seu processo. Mas no geral, tenho visto o homem mais aberto a ser carinhoso com seus filhos e filhas. Mais afim de participar das atividades dos cuidados no dia a dia. Tenho visto, e presenciado, uma revolução silenciosa da paternidade e que terá muito impacto positivo. Uma delas é o aumento de pais afetivos. Homens que se relacionam com mulheres que já eram mães. E esses homens exercerem o papel de cuidador também junto com a mãe biológica, ainda que exista a presença do pai biológico. E não posso chamá-los de pais adotivos, pois adoção requer a ausência da figura paterna. Entendeu? Hoje vivemos numa sociedade com várias configurações familiares. E ver famílias se formando e se complementando, tem sido muito positivo.

Existem conquistas
Sim! A conquista da paternidade tem vindo com a desconstrução da masculinidade, em mostrar pro homem que ele pode ser homem sem performar uma masculinidade tóxica. As conquistas sociais têm sido a licença paternidade estendida de 20 dias. Ainda muito pouco, mas já é um avanço. Leis municipais em algumas cidades apenas, infelizmente, onde obrigam ter fraldários nos banheiros masculinos ou familiares é uma outra conquista simbólica enorme. Já as conquistas culturais, têm sido nas relações humanas, entre homens com mulheres, ou entre homens mesmo, se relacionando de forma mais respeitosa e saudável.