Ser ou não ser, eis a questão que tanto aflige adolescentes e jovens quando adentram o Ensino Médio. É preciso fazer escolhas, mas quais? E como? Os desafios das escolhas profissionais são enormes

São 13hs e a praça de alimentação do shopping está cheia. É hora do almoço e todos os colaboradores dos edifícios das multinacionais ao redor, descem para almoçar. Os assuntos parecem sempre circular em torno do ambiente profissional. É o diretor da área que falou isso, o colega que fez aquilo, a pressão da entrega e por aí vai. Ao meu lado, um jovem e uma jovem falam do mesmo. Num determinado momento, o jovem fala de alguém que veste a camisa da empresa e que ele não se vê naquele lugar por muito tempo. Conta da faxineira que ajuda crianças no bairro onde mora e de como chama sua atenção ela, com tão pouco, ajudar tanta gente. Ajudar com trabalho e não com dinheiro. “Ela fala que aquilo faz sentido pra ela”. Eu guardo essa frase pra mim. O que faz sentido quando fazemos uma escolha profissional? Ou quais escolhas estão em jogo nesse momento?

Os desafios das escolhas profissionais na adolescência são enormes e passam por muitos lugares grandiosos. É cedo, aos 17 ou 18 anos, decidir o que fazer da vida pelos próximos longos anos. O peso dessa decisão é cruel. Mas ela existe e o pensar deve estar em volta de como conseguir ajudá-los a encontrar sinais desse caminho. A narrativa do filme sueco A Vida no Paraíso traz como primeira cena o maestro quando criança num campo de trigo. Na sequência, ele numa sala tocando para adultos que o assistem. “Sempre tive o sonho de fazer música para abrir o coração das pessoas”, é a frase do protagonista.

São as escolhas da vida do personagem e por onde passam, também, as escolhas de vida dos adolescentes e jovens. “Mas perdemos de vista que o trabalho é algo social e não pessoal”, reflete a psicólogo Rosely Sayão durante uma conversa em que eu estava presente. “O trabalho não deveria ser pelo dinheiro e sim pela colaboração que a gente tem a oferecer ao mundo”, pontua.

Eu paro a cena do filme e volto a cena na praça de alimentação do shopping. Ao jovem e a jovem ao meu lado, falando do sentido que aquela faxineira encontra quando trabalha em prol das crianças e do menino dizendo que não se vê muito tempo naquela empresa. Existe uma busca constante pelo sentido. Troca-se de empresa, ou emprego, como forma dessa busca intermitente e profunda de sentido de vida. Trabalho tem que ter sentido de vida. Sim, tem que ter, mas não só para quem o executa, como para quem o recebe.

Tem uma frase do Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, que eu gosto muito. Ele diz o seguinte: “Quanto maior é seu privilégio, maior sua responsabilidade”. No Brasil, quem mais doa é quem menos tem. Segundo pesquisa do IDIS, Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, 57% da população brasileira doaria mais se tivesse mais dinheiro. Mas tanto a frase do Klein quanto a ação da faxineira do jovem, não dizem respeito a quantidade de dinheiro que se doa e sim sobre o quanto se devolve a sociedade algo que lhe é uma potência.

O pensar sobre as escolhas profissionais seriam mais suaves se girassem em torno do senso de cidadania. A pergunta poderia ser: O que eu tenho de mais potente como qualidade que posso devolver ao mundo como sentido? Trabalho é, também, uma realização social e tem a ver com contribuição que você escolhe fazer ao mundo. Tem a ver com o tal propósito, o impacto social que cada um vai gerar. Porque trabalho também é isso, é impacto. E temos que pedir aos adolescentes que pensem nisso: o que eles vão fazer, exercer como profissão, que vai gerar impacto social no mundo em que vivem?

“É preciso humanizar a escolha da profissão para encontrarmos um lugar melhor de se viver. Interno e externo, socialmente”, reflete Rosely. Humanizar também para poder olhar o trabalho em que estamos inseridos hoje, de forma crítica, e poder enxergar ali algo que não dá prazer, que é duro, sacrificante. Vivemos duramente numa cultura em que se enaltece o trabalho como um lugar sagrado e delicioso de estar e não é. Os índices de depressão relacionados ao trabalho são gigantescos. Existe um sofrimento que o trabalho nos dá. No filme, numa regência da orquestra, o maestro transpira violentamente e sangra. Como metáfora para esse trabalho.

E nos ensinam, inconscientemente, que para ter sucesso é preciso mergulhar no profissional e se afastar dos que nos cercam na vida íntima. As pessoas vão se afastando do núcleo amplo familiar. Mas são essas relações que nos constituem e são elas que nos dão base para sustentar a vida. Mais uma vez, no filme, o maestro precisa voltar a sua cidade natal para entender sua trajetória e entender quem ele é. A trajetória é que nos constituem. Ainda que a gente insista em consumir pensamentos e ideias que o mercado nos lança. Consumimos a ideia de que trabalhar duro, noite e dia, tem relação direta com o sucesso. Que sucesso?

Os adolescentes precisam olhar essas ofertas de forma crítica. E os pais têm o papel de pensar do que é ofertado a esses jovens. É preciso ampliar as escolhas. Somos 210milhões apenas na cidade de São Paulo. Nos ensinam que é preciso pensar grande, mas não. É preciso pensar pequeno. É preciso voltar a cidade natal, a refazer os trajetos para entender as escolhas de caminhos. Porque pra saber pra onde a gente vai, é preciso saber de onde a gente veio. Os desafios das escolhas profissionais passam por aqui.