Imagine como é ser adolescente no mundo em que vivemos. Um mundo em que se abriu uma porta para a liberdade abissal, mas ao mesmo tempo busca-se compreensão de tudo. O ser humano quer encaixotar. Ele tem essa necessidade de rotular para entender e poder se relacionar com aquilo com maior facilidade. Mas é tanta liberdade do “ser e estar” que não se consegue mais compreender as chaves do mundo. E está cheio de gente por aí estudando esses comportamentos e tentando trazer aos mecanismos sociais nomes e termos para que a gente possa se relacionar melhor com eles. Porque vivemos no tal mundo líquido que escapa da gente. No tal mundo híbrido que pouco existe no concreto. Missão impossível suprir angústias no século 21. Algo que está longe de ser privilégio dos adolescentes.

Quem nunca ouviu falar na Geração Z, por exemplo? São eles, esses adolescentes do texto que discorro. Um estudo, feito pela agência de tendências WGSN, traça o perfil da geração e tenta dar pistas ao mundo de que caminho seguir. Mas as angústias que caminham junto a adolescência – de não saber exatamente os caminhos a seguir – são as mesmas das nossas, adultos. Muitas das mesmas questões que os acompanham estão coladas na vida adulta deste século. Veja só: para a geração dos pais dos Z existia apenas os gêneros homem e mulher. Sabe quantos existem para eles? Doze. Isso mesmo: doze possibilidades de você ser. Simplesmente ser. Agora se já era difícil ser homem e mulher, imagine agora? Para eles.

Mas há de se continuar a se debruçar sobre questões da idade. Porque elas existem de fato e demandam um olhar cuidadoso e atento de quem está ao redor desse jovem. Uma fase em que um turbilhão de temáticas chega escancarando as portas. Literalmente. É aquele momento da vida em que as crianças deixam de ser crianças e crescem – ou querem crescer, pelo menos. Se despem do que os pais acham para poderem achar por conta própria. Básico. Não falei nada de novo. Mas a gente esquece a relevância que isso tem na vida desse sujeito.

Em palestra sobre o tema, dirigida a pais de alunos da Escola Vera Cruz, em SP, a psicanalista Luciana Saddi fez um paralelo superinteressante com os rituais das tribos indígenas. Chamando atenção para algo que é a passagem da vida adolescente para a vida adulta. E de como sociedades estáveis, como as indígenas, tem rituais muito claros para esses momentos. Normalmente, são desafios que exigem coragem, força e resistência. Alguns chegam a beirar a morte propondo desafios em que o jovem tem que aguentar centenas de picadas de abelhas sem desmaiar. Mas quando o ritual termina é como se tivesse terminado, também, a juventude. A partir daquele momento, o jovem passa a vida adulta e está apto a muitas coisas perante a aldeia e seu povo.

E como faz nas sociedades instáveis, como a nossa? “Os adolescentes e jovens se propõe os próprios desafios para conseguirem fazer essa passagem”, explica Luciana. “Sem julgar se isso é bom ou ruim, é assim que acontece e rituais que envolvem experimentação de drogas e bebidas são rituais de passagem para a vida adulta”, exemplifica. Flertar com o perigo e até a morte é uma característica da adolescência. É preciso coragem, força e superação.

Só que parece que o verbo a se conjugar é o da desobediência. A percepção dos pais em relação aos filhos como pessoas reais é dolorosa então se puni e julga . “Às vezes, se esquece que é essa rebeldia que vai dar a eles autonomia e individualidade”. “Quando um adolescente quebra uma regra, ele busca autenticidade naquilo que está fazendo. Nada mais quer do que buscar coisas e figuras das quais ele gosta e se identifica”. É quando eles transferem também a referência aos amigos, ao grupo. Porque apesar de eu não querer me parecer com meus pais e a pertencer a tudo que eles acreditam, eu preciso me parecer e pertencer a algo. É simples assim. É esse movimento que eles fazem e muitas vezes são condenados como ingratos.

“Os pais se incomodam com a autonomia que os filhos vão ganhando. Algo como “eu dei tudo a ele e veja o que ele me dá em troca?!”. O que os pais sentem como agressão e ingratidão é apenas uma necessidade de sobrevivência da adolescência. Porque esse é o único jeito que tem. Isso não significa que regras e limites devam existir e serem claros. “O mundo sem contorno deixa a gente angustiado”, fala a psicanalista. São esses contornos que vão garantir recursos e segurança ao adolescente. “E pior do que as drogas em si, por exemplo, é não ter recursos pra lidar com elas”, exemplifica novamente.

E o segredo está nessa palavrinha: recursos. “Tudo que dá trabalho é protetor porque ocupa, desafia, move”, conta. O psicanalista Freud dizia que o que liga o ser humano a realidade é o trabalho. Conseguir proporcionar atividades em que eles se engajem, gostem e se auto-desafiem é um caminho bastante construtor ao adolescente. “Estabelecer compromisso e agendas para eles é outro recurso, pois sabem que semana que vem existe algo importante para eles fazerem e que, maior, dependem dele”, sugere Luciana. Não preciso nem dizer que isso, claro, constrói noção realistada da vida, o que os tornam mais bem preparados.

Dá trabalho, mas é protetor. Cuidar da adolescência é assim. Precisa de família por perto, precisa de um adulto de referência. Precisa de amor e cuidado. Precisa fechar o olho um pouco também e deixar transgredir. Sem agredir. Mas é preciso deixar ir. Porque assim é a vida. Já leram “Fico à espera”? Dos autores franceses David Cale e Serge Bloch. Leia se puder. Porque se fica uma vida “a espera de crescer”, a uma espera de chegar o dia, de chegar o amor, da chuva parar. E da adolescência passar. Eles, os adolescentes precisam esperar o corpo mudar e a voz se firmar. Os pais, precisam esperar o filho crescer e descobrir o que ele vai ser. Todos seremos um dia. Somos. Mas para isso é preciso tempo.