Representando quase 31 milhões da população brasileira, são o maior grupo de risco do coronavírus. O escritor Ignácio de Loyola Brandão é um dos que contam como se sentem

Até pouco tempo, pequeno era o interesse sobre os idosos brasileiros. Suas vontades e interesses não pareciam estar muito na pauta de assuntos gerais. Há não ser por uma fatia de empresas que viu na população crescente uma possibilidade de mercado. De forma ampla, o olhar está voltado aos jovens, aos que ainda são produtivos. O idoso ocupa o lugar do velho. Daquele que perde sua utilidade. Que não serve mais. Numa sociedade capitalista, vale quem produz. Quem ainda pode ser útil socialmente. Duro, não?

Mas veja que ironia. São eles, os com “mais de 60 anos”, os 31 milhões de brasileiros que a gente deve mais olhar nesta pandemia do coronavírus. São eles, os 14,5% da população, os que mais correm riscos de morrer. E também são eles, os que mais preocupam e importam as crianças – ou aos netos.

Semana passada, na coluna em que trouxe o recorte do olhar das crianças sobre o coronavírus, entre suas falas, o que eclode primeiro é a saudades, o medo e a preocupação com os avós – os mais velhos. E socialmente, temos a oportunidade de resgatar relação e ressignificar sentido.

Das relações mais lindas, mais fortes e genuínas estão avós e netos. Não porque os avós podem ser liberais ou romper com as regras dos pais, mas porque podem ser afeto. Puro afeto. Onde o toque no outro existe pelo sentir, pelo sentido. Onde amor, carinho, aconchego e amparo ganham contorno nos lugares mais diversos. Pode ser no cheiro de uma comida, no fazer de uma brincadeira, num jogo, no contar de uma história. No cantarolar de uma música. Num tanto de lugares que, muitas vezes, os pais não podem ou esquecem de estar.

O melhor abraço é de avó. O melhor abraço é de avô. E não precisa de pesquisa da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, pra nos dizer nada disso. Precisa de a gente poder olhar a relação e resgatá-la. Precisa de a gente olhar o idoso e ressignificar. Porque eles sentem, pensam e têm vontades. Como se é esperado de um ser humano.

Para que nossos 31 milhões de brasileiros possam ter um singelo espaço de vez e voz, abro aspas a eles. Pra dizerem o que sentem sobre tudo isso que vivemos. E o que sentem sobre estarem longe dos netos, claro.

“Sem dúvida nenhuma, o pior da quarentena é ficar longe das minhas netas. Minhas netas são pequenas e não entendem o que está acontecendo. A Bia tem 3 anos e vê-la desapontada com esse distanciamento repentino corta meu coração. Ela acabou de se mudar para a minha rua! Tínhamos feito tantos planos… Agora ela não se conforma de que eu não entre para conhecer o seu quarto novo. Como boa vizinha, todos os dias levo uma comidinha que ela gosta e entrego de longe. Hoje fiz um feijão bem gostoso. O bom é saber que a relação entre avós e netos continua tão essencial quanto foi na minha infância. O vínculo de afeto com as minhas netas é fonte de grande alegria pra mim. Ficar distante delas tem sido o pior dos castigos”.
Regina Scarpa, educadora, avó da Beatriz e da Luísa

Regina com as duas netas

Regina com as duas netas

Sempre teve dia para todo mundo, mães, pais, crianças, secretárias, e assim por diante. Agora chegaram os dias dos avós. Não um dia só, mas todos os dias, por um mês, talvez dois, três, dependendo dessa doença insidiosa e tenebrosa que vem se infiltrando por toda parte. Quando criança, adorava meu avô, que me ensinava tanto, a fazer carrinho de rolimã, caminhão de um tôco de madeira, que frutas podíamos comer, que ervas usar para dor de barriga ou de estômago ou para acalmar e dormir. Nos ensinavam também a sermos educados, dizer bom dia, por favor, obrigado. Cuidavam para que evitássemos perigos no rio, na rua, à noite, nas relações de amizade. Agora, nestes dias tudo se inverteu. Os netos é que ficam em cima de nós, mandando vídeos, e-mails, whatsapps, mensagens. Querem saber:
“Está quieto em casa?”
“Não saiu nem um minuto, não?”
“Tem lavado as mãos?”
“Passa álcool-gel?”
“Cuidado com degraus.”
“Preste atenção para não cair.”
“Tire os tapetes moles da casa.”
“Ao se levantar de noite, acenda a luz, a escuridão desnorteia.”
“Vô, não ande relaxado pela casa, vista-se bem, faça a barba, cuidado com a vovó, não briguem, não fique reclamando de bobagens.”
Quando a gente vê, coloca qualquer camiseta, bermuda velha, feia, há que manter a postura, palavra de minha avó Branca. Imaginem eu dando ordens e comandos aos meus avós? Seria tabefe por todo lado. Confesso que estou gostando. Mas confesso mais que sinto falta deles, das bagunças, das perguntas, das histórias que estou deixando de contar. Contar é das poucas qualidades que tenho para dividir com eles. Queria jogar basquete com Lucas, dividir o fogão com Pedro, acompanhar as disputas de judô do Felipe, montar legos ou ensinar Stella a falar japonês (sempre no meio coloco um palavrãozinho inocente para apimentar e colocá-la na realidade da vida). Agora, estamos afastados. Isolado, fico imaginando quando voltaremos a nos reunir, quando faremos outra vez nossos brunch aos domingos, cada vez em uma padaria. Ficar em casa é fácil. Não preciso sair. Mas me fez falta o barulho e as perguntas que me fazem, as indicações de livros que me pedem, as viagens que me relatam, as opiniões que têm sobre coisas variadas. O pior desta epidemia é separar netos dos avós. Mas, vejam o paradoxo! No momento em que nos separaram, mais estão nos aproximando”.

Ignácio de Loyola Brandão, escritor, avô de Pedro, Lucas, Felipe e Stella

Loyola com os netos, filhos e mulher Marcia

Loyola com os netos, filhos e mulher Marcia

Heloísa é minha neta mais velha com 7 anos. Miguel tem 3 e Vitória 5 anos. Dizem que a Helô é minha neta preferida porque estamos sempre juntas. Graças a confiança que os pais têm com a minha pessoa. Viajo e sempre estou junto com a Helô. Somos amigas parceiras. O Miguel e Vi estou cuidando deles neste tempo de pandemia. Mas Helô não e tem sido muito difícil ficar sem a companhia dela. Muito amor envolvido. Sonho com ela quase todos os dias. A saudade é grande, mas é necessária. Quando acabar tudo isso, eu já avisei pra ela: vou te apertar e te agarrar tanto!!!”.
Maria Aparecida Marcelino, dona de casa. Avó da Heloisa, Miguel e Vitória

Cida em viagem com a neta Heloisa

Cida em viagem com a neta Heloisa

A quarentena determinou a interrupção da nossa caça ao tesouro. Em nossa vida anterior estávamos apenas correndo para ganhar dinheiro. E nessa caçada era normal deixar a criança para a escola cuidar ou deixar com os avós. Ainda que os avós também trabalhassem, envolvidos na caçada de desejos materiais da família. A conversa, o companheirismo, o ouvir, estavam sempre adiados. Tudo era razão para terceirizar atividades que na realidade são fundamentais para o ser humano. A caçada foi interrompida pelo coronavírus. As pessoas no Brasil e no mundo pararam para arrumar suas próprias gavetas, que são na realidade os espaços de si mesmo. Eu como avó sinto falta da folia, do barulho, dos netos presentes. Acho falta dos seus sorrisos e abraços. Queria dar doces ao meu neto Kazembê. Fazer tricot com a Ivy, ter conversas com Camila e Aniké, fazer as viagens sensoriais com o Henrique, as comidinhas para a Larissa e a Helô, as trocas de experiências com Marquinho, Kayodê, as ajudas angelicais de Pedro e Victor. E a Anna Lee, será que está usando o vestido? Milena e Matheus me fazem lembrar a ajuda de todos eles em minhas iniciativas nas redes sociais:
– ô vó, aperta aí o botão que transforma essa chamada em chamada de vídeo!
Puxa, bem lembrado… quanto aprendizado nos traz esse momento! Vou usar esse recurso para ver o Yan, lá na Bahia, hoje à tarde”.

Teda Ferreira Pellegrini, avó do Kazembê, Ivy, Camila, Aniké, Henrique, Larissa, Heloísa, Marcos, Kayodê, Pedro, Victor, Anna Lee, Milena e Matheus

Teda com os netos todos

Teda com os netos todos

Já estou em casa há 3 semanas, mais ou menos, e só vejo e falo com elas por Face ou Zoom. Outro dia, elas vieram até meu apartamento e ficaram na portaria e eu na janela (moro no 2º. andar), mas foi difícil ficar só na distância. Chorei. Dizer que estou com muita saudade seria óbvio e aí fiquei pensando por que essa dor tão grande? Acho que tem uma mistura de sentimentos. Tristeza por causa da falta que faz a proximidade que tenho com elas, da rotina de levar pra escola, saudade dos almoços, de brincar, beijar, abraçar. A sensação de impotência de não poder ajudar neste momento em que os pais (meu filho e nora) também precisam de ajuda. Mas como lidar com isso? Tenho procurado além de falarmos, ver fotos e vídeos delas diariamente. Também tenho feito comidas que sei que elas gostam e só eu posso fazer. O que ajuda é a esperança de que isso vai passar. Por enquanto estou aguentando e levando”.
Ana Maria Betonini Chulam, psicóloga aposentada, avó da Maria, da Isabel e do neto ou neta que está a caminho para agosto

Ana Maria e as netas e passeio

Ana Maria e as netas e passeio

“Pra saber por quantos planos econômicos (desses que reviram a vida da gente e estimulam seu instinto de sobrevivência no limite) eu já passei, só mesmo recorrendo a uma recuperação sistemática nos livros. Impossível só com a memória recuperar. O que me sobrou deles (além do aprendizado de “como sobreviver na selva”)? Alguns sentimentos atávicos, que parecem terem sido incorporados no meu gene: o pavor, o receio, a necessidade de ficar em permanente alerta. Bastava ouvir a música do “Plantão do Jornal Nacional” e todos os sentidos entravam em alerta máximo … “o que vem agora?” Agora outra crise mais grave, mundial, mortal. Mas onde esta agora minha preocupação?

É em tentar compreender como reage essa nova geração dos meus netos? Como vivenciam essas experiências? Vão entrar em alerta máximo como eu entrava com o Plantão do Jornal Nacional? Terão incorporados nos seus genes o pavor atávico, o receio atávico, a necessidade de ficar em permanente alerta? Essa é a minha preocupação permanente … qual a resultante disto neles. Ainda que não faça sentido, impossível não pensar na solução do “A Vida é Bela”?

Esses dias atrás recebi de um neto um vídeo passado pra ele pelo seu tutor da escola, que mostrava a preocupação com a pandemia, mas trazia junto a necessidade e esperança do mundo se repensar. Algo como se o vírus trouxesse junto a necessidade do mundo ser mais solidário e mais comprometido com a sustentação da vida.

Essa transformação vai acontecer. O Mundo vai se repensar. Impossível continuar tudo no “circular avenida” maluco que o mundo estava. Eles irão repensar e construir um mundo mais equilibrado? Uma esperança. Ainda que só uma possibilidade, fico feliz. Uma resultante oposta ao que eu mais receio… que o medo seja incorporado no gene deles”.
Paulo Secches, empresário, avô de Pedro, Stella, Lucas, Luiza, Felipe e Theo

Paulo com os netos em viagem

Paulo com os netos em viagem

Passo mais tempo com o Rakim aqui em casa. Sinto muita falta dos nossos dias especiais, em que somos apenas nós dois…avó e neto. Dias que eu preparo a casa e tiro tudo que possa ser um perigoso para ele não se machucar. Compro tudo antes para que não precise sair, sua batata frita, seus sucos naturais e o pão de queijo. Arrumo a mesa de atividades, a caixa de brinquedo e o noetbook ligado nos programas infantis. Deixo a banheira preparada para se banhar e brincar! Sinto muita falta das nossas brincadeiras, como quando chega a noite e jogo todos os travesseiros em cima dele brincando de se esconder! Ele só não gosta que eu cante. Nunca entendi o porquê, mas ele fica (bavo)sempre…sinto falta desses dias juntos e me sinto inútil. É uma saudade que maltrata e dói! Era de se esperar esse acontecimento. O planeta precisa se renovar, mas não pensei que fosse assim”.
Cléo, professora de Educação Física aposentada do Estado, avó da Heloisa e do Rakim

Cléo e o neto Rakim

Cléo e o neto Rakim

“Esta pandemia me deu a sensação que veio chegando devagarzinho. As notícias nos chegavam, mas tudo acontecia distante. A realidade me surpreendeu. Fui orientada a ficar em casa e trabalhar à distância. Que sensação estranha, mas logo me veio o sentimento: poderei estar mais perto da família. Mais uma vez, a vida me surpreendeu: avós não devem estar com seus netos, são grupo de risco. O que mais sinto deste distanciamento é não aprender com eles. Desta vivência deles tão sui generis. Digo aprender porque não tenho ideia de como estão se comunicando com as escolas, como estão se relacionando com a família, com os amigos… Que sentimentos estão sendo despertados? Será uma experiência registrada neles para sempre? Fico a pensar. Por mais que a tecnologia nos favoreça e nos vemos e conversamos por vídeo, nada substitui estar ao lado. Ver a expressão do rosto, as reações, observações, as atitudes de cada um. Em compensação fico pensando “com meus botões “: daria tudo para que não estivessem passando por estes momentos. Mas tenho certeza que as transformações serão grandes e definitivas, para melhor – o aprendizado trará um amor à vida, à família, aos amigos e ao seu país, um significado muito especial. Agora, preciso confessar uma incerteza: será que não vão esquecer do quanto são amados pela vovó Bel?”.
Maria Isabel Franco, servidora do Estado, avó do Antônio, Miguel, Catarina, Maria Luiza, Joaquim e Ana Helena

Maria Isabel com os netos em restaurante

Maria Isabel com os netos em restaurante