Até ontem eles disputavam para colocar os enfeites na árvore, mas filhos crescem e o que era um momento de euforia vira praticamente um martírio

– Mas pra quê montar árvore? Daqui a pouco já tem que tirar tudo.
– Faz Natal sem árvore, ué, qual problema?
– Essa árvore de Natal é muito grande, não tem uma menor, não?!
– Mas tem mesmo que montar? Quem vem pra esse Natal?
– Depois eu ajudo mais. Cansei. Isso tá chato.
– Eu fico pinicando, me dá coceira mexer nessa árvore.
– Mas já está cheia de enfeites, precisa por mais? Não tem buraco não, olha, tá cheia já.

É assim que entramos no espírito natalino aqui em casa e como sei da quase apatia que contaminou os três adolescentes, uma semana antes de descer as vinte caixas com toda parafernália do armário, eu já começo a dar sinais de que “precisamos montar a árvore”.

O problema é que eles também vão dando sinais de que “a gente não precisa de nada”. Outro dia eram tantas ponderações que dava enredo para uma peça teatral daquelas bem dramáticas. Era um esforço tão grande em convencer nós, pais, de que montar presépio, enfeitar a casa, pendurar meias nas portas dos quartos ou passar o cordão de luzinha era tudo uma grande besteira, ou seja, “eu não preciso ajudar vocês”.

A preguiça é tamanha que eles são capazes de qualquer coisa, até mesmo de abdicar de toda e qualquer prévia de Natal. Sabe aquele sujeito programado biologicamente pra dormir quase 24hs por dia? Então, ele também faz cara de “não é comigo”, não faz fotos e não monta árvore de Natal. Só não rola discurso de que “essa é uma comemoração capitalista” porque existe um interesse pelos presentes.

Quando eram pequenos, entre os presentes eu deixava uma pedrinha, um cristal e muitas vezes ele era mais celebrado. Na meia, que ficava na porta do quarto, eu colocava castanhas. Uma década depois, eles me pedem pra colocar um “chocolate bom hein” na tal da meia.

O clima natalino numa casa com três adolescentes não é o mesmo daquele com três crianças pequenas. Definitivamente, não é. Você que lute para instaurar o “tal” espírito e fazer os olhinhos brilharem feito os velhos tempos. E lá fui eu espalhar indícios do Natal pela casa.

Entre eles, uma pequena caixinha de correio onde, quando os três eram pequenos, punham as cartinhas que desenhavam ou escreviam a São Nicolau. Aos 17, 16 e 13 anos, São Nicolau virou um ser inventado pela mãe deles.

– Ah, mãe, você acha mesmo que a gente acredita nisso?! Aproveitando, o que você vai me dar esse ano?
– Eu?! Não é comigo isso não. Já escreveu pro papai noel?
– Ah mãnheeee
– O que foi?
– Tá bom, vou mandar um whatsapp pra ele
– Não funciona. Tem que escrever.

Eu insisto na brincadeira e insisto nos rituais que marcam a época do ano. Não na tentativa de resgatar a euforia da infância, mas de resgatar três adolescentes da inércia de seus mundos. Nem sempre tenho sucesso, muitas vezes falo em vão e repito as frases por repetir. Faz parte do “pacote materno” e tá tudo bem.

Hoje, grandes, eles participam de outra forma do “espírito natalino” e fico pensando o quanto é importante a gente reconhecer isso neles. Do contrário, eu ficaria aqui brigando com meus filhos pra que eles montassem a árvore comigo ou pendurassem a guirlanda na porta de casa. Eu ficaria resmungando, dizendo que meus filhos são ingratos, que não me ajudam e blábláblá, mas esse papel eu não gosto de ocupar.

Prefiro, dentro de todo privilégio do meu universo, continuar provocando no sentido positivo da palavra, brincando e trazendo eles pra perto de maneira quase espontânea. Pra que não seja uma obrigação e sim uma vontade. De estar junto, de participar porque é isso que tem que ser. Senão, qual sentido?